''O risco para a Osesp seria maior sem a substituição''

Em entrevista, o presidente do conselho da fundação, Fernando Henrique Cardoso, defende demissão de Neschling

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2009 | 00h00

O ex-presidente da República e presidente do conselho da Fundação Osesp Fernando Henrique Cardoso confirmou ontem o nome do maestro Yan Pascal Tortelier como novo regente titular da orquestra, substituindo John Neschling, demitido na semana passada. Seu contrato é de dois anos - em 2011, assume um novo diretor artístico, que será escolhido por uma comissão ainda a ser nomeada. Em sua primeira entrevista depois da demissão, creditada a declarações de Neschling publicadas em entrevista ao Estado, na qual questionava o processo de escolha de seu substituto e falava em articulações políticas para tirá-lo do cargo, FHC, acompanhado de outros membros do conselho (o banqueiro Pedro Moreira Salles e o editor Luiz Schwarcz) e do diretor-executivo da orquestra, Marcelo Lopes, foi categórico: "O risco para a orquestra seria maior sem a substituição do maestro."Como se chegou ao nome do maestro Yan Pascal Tortelier para assumir o posto de regente titular nas próximas duas temporadas?Fernando Henrique Cardoso - Ele foi bem apreciado pelos críticos e pelos músicos quando esteve aqui trabalhando com a orquestra. Estamos em contato com consultores internacionais, que também têm uma boa impressão dele. E ele está entusiasmado, gostou muito daqui.A fundação já chegou aos critérios que vão nortear a escolha do novo diretor artístico a partir de 2011?FHC - Vamos criar uma comissão de seleção. Em março chega o Tortelier e os consultores estarão aqui também. Ainda não definimos o tamanho da comissão, mas certamente eles estarão representados, assim como o conselho e os músicos. Essa comissão terá um prazo para chegar a um nome. Vai convidar maestros a reger a orquestra e serem avaliados. Será um escolha feita com todo critério, o objetivo central é manter a qualidade do grupo e ampliá-la. Brasileiro ou não, será escolhido alguém capaz de fazer isso. E não será levada em conta apenas a questão artística, mas também a capacidade de organizar temporadas e de se relacionar dentro da orquestra. Membros do conselho já falaram na possibilidade de não ter apenas uma pessoa como diretor artístico e regente titular, ao contrário do que ocorre hoje. Neschling tinha poder demais dentro da orquestra?FHC - Havia uma concentração de poder e a tendência contemporânea é outra. Vamos discutir isso ainda, essa questão da governança, até mesmo revendo o papel do conselho. Isso não é de hoje, essa necessidade de reavaliação. Estamos abertos a muitas possibilidades, fomos buscar informações sobre os muito caminhos possíveis e vamos discuti-los. Agora, esse modelo unipessoal é cada vez mais raro no mundo todo. Pedro Moreira Salles - Não foi por acaso que chamamos um consultor americano e outro europeu, com vasta experiência à frente de orquestras. Os dois lidaram com modelos diferentes e vão, com isso, nos ajudar na busca do melhor formato de governança, tendo em vista a institucionalização da orquestra. É esse o momento para isso, a segurança institucional da orquestra não pode depender unicamente de uma pessoa.Em entrevista em dezembro, no entanto, Neschling diz temer pelo futuro da Osesp e afirma que o grupo se encontra em um momento de seu processo artístico em que substituições seriam nocivas. FHC - Nós precipitamos a saída do maestro porque uma orquestra para funcionar precisa de harmonia. Ele quebrou essa harmonia e não só com o conselho, mas em todas as instâncias. Uma orquestra que, como ele diz, está em um momento delicado de sua trajetória, não pode ser sujeita a isso. O risco para a orquestra seria maior sem a substituição.Salles - São 12 anos de trabalho, não três ou quatro, e de um trabalho bem-feito. Mas, agora, para se fortalecer, a Osesp precisa de outros maestros. Dizer que ela não sobrevive sem ele é dizer que o trabalho não foi bem-feito e que não existe uma orquestra mas, sim, um maestro. Se fosse do jeito que imaginávamos, a transição se daria depois de 14 anos de trabalho. Mas, do modo como aconteceu, era hora de tomar uma decisão ou a orquestra não conseguiria, até lá, garantir sua institucionalização. Neschling afirma também que sua demissão foi motivada por pressões políticas do governo do Estado. Houve essa pressão?FHC - Comunicamos oficialmente a decisão ao secretário de Cultura. Todos sabem de minha relação com o governador e, portanto, também liguei a ele para contar da decisão. É óbvio que prestamos contas ao governo e mantemos aberto o diálogo mas, como membros da fundação, é nossa função manter nossa independência. Se o governador fez pressão no início, nunca mais fez. Se houve qualquer movimento, fizemos uma barreira. A relação com o governo precisa ser harmoniosa e isso significa ouvir e ser ouvido, de acordo com as obrigações de cada um. O contrato de gestão entre fundação e governo termina em 2011. Já está sendo discutido um novo contrato? Em que ele será diferente?FHC - Sim, já há discussões, adiantadas, e queremos resolver isso logo para preservar a continuidade do projeto Osesp. Marcelo Lopes - Não há grandes mudanças, o principal diz respeito ao aumento do número de concertos populares e de apresentações no interior. Por que não se esperou a volta de Neschling ao Brasil para demiti-lo?FHC - Porque a temporada começa em março e precisávamos logo de um regente. O desgaste foi recente e nos sobrou pouco tempo. Não queríamos contratar ninguém pelas costas, daí a decisão de comunicá-lo. E, bem, a entrevista dada por ele também foi nas férias... Mas ele não foi afastado por e-mail. Avisei por e-mail que o embaixador Rubens Barbosa (membro do conselho da Osesp) iria comunicar a ele por telefone a natureza do assunto importante que precisávamos tratar. Depois disso, mandei por correio a carta de demissão e, a pedido dele, uma cópia por e-mail. E, também, convenhamos que hoje em dia o e-mail é uma forma natural de correspondência. Salles - Tudo foi feito para preservar a programação, para evitar interrupções na temporada, o que seria violento. Mas precisávamos agir, as relações estavam insustentáveis. E precisávamos da ajuda do regente da orquestra para abrir espaços na temporada de forma que maestros convidados viessem e regessem o grupo, sendo avaliados. É bom deixar claro que foi tudo para preservar a programação, para não interromper a temporada, o que seria violento.Haverá mudanças na temporada?FHC - Apenas ajustes por questão de agenda e um número maior de maestros convidados. Já chamamos Isaac Karabtchevsky e Fabio Meccheti e chamaremos outros. O comitê de busca precisa avaliar esses artistas. O Tortelier, de qualquer forma, regerá nove semanas em 2009, sendo oito de concertos e uma de gravações, que, aliás, serão todas mantidas, não há mudanças nos contratos com a BIS e Biscoito Fino.Quando olhamos a temporada de 2009 há um número muito alto de concertos regidos por Neschling, são 14 ao todo. Os senhores estão sugerindo que ele bloqueou a temporada para atrapalhar a sucessão?FHC - Isso ficou claro para nós. A tese dele é de que antes de 2013 seria impossível encontra um substituto.Salles - E ele nos disse que só colaboraria se ficasse até 2013.FHC - Para ele, a Osesp só funciona se ele tiver todo o poder.

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