O renascimento que nasce da perda

Avessa a modismos, Naomi Kawase constrói o belo A Floresta dos Lamentos no caminho da busca da identidade perdida

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

21 de outubro de 2008 | 00h00

Em princípio, você é tentado a dizer que não existe nada em comum entre Naomi Kawase, diretora japonesa de prestígio internacional, cujos filmes seduzem publicações como Cahiers du Cinéma - que está para ser vendida para um grupo inglês -, e o ator e agora também diretor brasileiro Matheus Nachtergaele. As diferenças culturais são enormes e nem os estilos dos dois se aproximam, mas há, sim, um elo que pode unir A Floresta dos Lamentos e A Festa da Menina Morta. O primeiro, mais contemplativo, bem ao estilo japonês, o segundo mais convulsionado e descontínuo, ao estilo brasileiro, realizam cerimônias de luto e são certamente filmes viscerais. Veja especial sobre a MostraA Floresta dos Lamentos é um dos grandes filmes que você pode ver não apenas hoje, mas ao longo de toda esta Mostra que ainda está em seu início. Naomi Kawase é aquilo que se pode classificar como autora exigente e, talvez, difícil, no sentido de que não tem por hábito facilitar as coisas para os espectadores. Dura e avessa a modismos, ela remete a tradição de clássicos japoneses como Yasujiro Ozu, com quem compartilha, além do mais, o gosto pela temática familiar. Mas não há muito mais semelhança. Naomi é única e, mesmo que não instale sua câmera no tatame, no ângulo de um observador que vê o mundo ligeiramente em contraplongê, sentado no chão, ela também fecha o horizonte da sua ?floresta de lamentos?, na qual se encerram seus personagens na sua cerimônia de renascimento.Árvores altas, majestosas fecham o campo visual e os personagens muitas vezes olham para cima, em busca de uma resposta para suas angústias. Não conseguem contemplar o céu. Antes da floresta, propriamente, há um jardim geométrico e nele uma brincadeira de esconde-esconde produz um ritual. É preciso esconder-se para se revelar. Tal é o movimento, o conceito, a própria mise-en-scène deste belo filme que seduziu a crítica no Festival de Cannes do ano passado. A Floresta dos Lamentos começa neste pequeno e tranqüilo asilo em que vive Shigeki. Ele sofre de uma demência senil e vive apegado à lembrança da mulher que morreu, escrevendo-lhe longas cartas de amor. Chega o 38º aniversário da morte de Mako e, de acordo a crença dos budistas, é a hora da separação, para que sua alma possa chegar à terra do Buda.Machiko é a enfermeira que trata de Shigeki, dedicando especial atenção ao paciente. Ela também não consegue lidar direito com a recente perda do filho, é um luto difícil, senão impossível de realizar, para essa mulher que tenta mitigar seu sofrimento, transferindo-o para a dor de Shigeki. O que parece um simples passeio dos dois pela floresta vira uma experiências radical de dois dias. Ambos se perdem para se reencontrar e, através de um jogo de fuga e perseguição, como diz o catálogo da Mostra, abdicam de suas identidades para, depois, tentar resgatá-las. O fraco vira forte, quem cuida necessita de atenção e será cuidado. Naomi Kawase chegou ao cinema pela via da fotografia e fez documentários antes de realizar seus longas de ficção. Por Suzaku, em 1997, recebeu a Câmera d?Or em Cannes para o melhor filme de diretor(a) estreante. No ano passado, ganhou o Grande Prêmio do Júri, também em Cannes. É um cinema rico em significados e em cujas belas (e elaboradas) imagens o cinéfilo poderá ter grande prazer em viajar. ServiçoUnibanco Arteplex 1 - Hoje, 18h10Espaço Unibanco 3 - 4.ª, 19h30Reserva Cultural 1 - 4.ª (29), 15h10Cinesesc - 5.ª (30), 15h50

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