O Renascimento na visão impiedosa de Salman Rushdie

A Feiticeira de Florença equipara o pensamento de Maquiavel à filosofia de Babar, intelectual avô do imperador mughal Akbar

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

04 de dezembro de 2008 | 00h00

Em sua décima novela, A Feiticeira de Florença, Salman Rushdie junta um malandro viajante italiano, um imperador filósofo mughal e uma feiticeira para contar uma história fantástica no estilo de Italo Calvino, seu modelo assumido, especialmente o Calvino de Cidades Invisíveis, em que o escritor traduz a narrativa do viajante Marco Polo sobre as cidades que conheceu ao conquistador Kublai Kahn.Nesta segunda parte de sua entrevista, Rushdie fala de Calvino como grande influência na elaboração de A Feiticeira de Florença, livro que não teme o cruzamento de gêneros para contar histórias fantásticas como a de um pintor que se perde na própria obra ou de uma rainha inglesa idealizada, que vira objeto de desejo do imperador, que imagina unir Oriente e Ocidente num casamento de conveniência.Em que medida a escritura de Calvino pesou na hora de elaborar o projeto de A Feiticeira de Florença e por que razão recuperar a literatura picaresca e o realismo mágico, unindo num só livro influências tão distintas como Calvino e García Márquez, Pamuk e Umberto Eco?Calvino, sem dúvida, é o espírito que guia A Feiticeira de Florença, vale dizer, um espírito alegre, que diz que a vida vale a pena ser vivida. Tomei como guia as suas seis propostas para o próximo milênio expressas em seu último livro - todas elas, mas especialmente valores como a leveza e a multiplicidade. Notei também como a tradição da novela picaresca européia tem a ver com a tradição literária indiana e como o Alto Renascimento é visto como um período de grande sofisticação filosófica, quando, na verdade, havia por trás desse humanismo iluminado muita conversa fiada, ao passo que a filosofia de Maquiavel, por exemplo, já está esboçada na do avô de Akbar, Babur. Trata-se, portanto, mais que um ajuste de contas com o Ocidente, de reconhecer quanto uma cultura deve à outra.Akbar, em seu livro, sente que os povos do Ocidente são exóticos e até mesmo incompreensíveis para os povos do Oriente. Seu retrato dos súditos do império mughal é até mais simpático que os dos europeus picaretas como Niccolò. Os primeiros são tolerantes, mais filosóficos e progressistas que os europeus, de modo geral. Ao mesmo tempo, a corte da rainha Elizabeth parece o espelho da corte de Akbar, que a admira. Bem, a impressão que fica é a de que Ocidente se sai mal nessa história de tolerância, mesmo que o senhor tenha sido ameaçado de morte não por ocidentais, mas por um aiatolá iraniano.É preciso esclarecer, antes de tudo, que o livro não é uma novela histórica nem pretende ser um tratado filosófico. Muitos dos personagens que circulam por ele nem sequer existiram. Em momento algum pensei em escrever que a corte de Akbar era mais tolerante que a dos Médici em Florença. A política persecutória era a mesma e não se pode mesmo comparar o que se passou há mais de 400 anos com o que se passa agora no mundo contemporâneo, dominado por terroristas e fanáticos religiosos. Evidentemente, não é tão simples como parece. Claro, como historiador, tenho respeito pelos registros históricos e não mudei nada por conta própria, mas não se pode esquecer as semelhanças entre o Baburnama, a autobiografia de Babur, e O Príncipe, de Maquiavel.Maquiavel emerge, no livro, como um personagem intrigante. Joyce Carol Oates observou que o senhor conferiu a ele uma personalidade contemporânea, mantendo-o, na maior parte do tempo, fora do núcleo digamos "divertido" da história. O que ele representa para o senhor?Não lembro o que Joyce Carol Oates escreveu sobre o livro, mas o que fiz foi simplesmente trazer Maquiavel à vida, revelando seu lado gregário e a amizade que manteve com Agostino Vespucci, que aparece como Niccolò na novela. Diria mesmo que as semelhanças entre a sua filosofia e a de Babur, avô de Akbar, foram de grande motivação para que eu escrevesse o livro, porque Maquiavel passou à história como um cínico, quando, na verdade, não pode ser acusado de corrupção ou de apoiar regimes totalitários. Acho que essa imagem de "maquiavélico" foi criada pelo teatro elizabetiano, que se refere a ele como um crápula. Mas ele foi bom amigo e cidadão, estou certo disso. É injusto jogar sobre seus ombros adjetivos que não merece.Às vezes parece que o senhor escreveu o livro para desmistificar a idéia que se faz do Alto Renascimento em Florença como uma cultura nobre. O senhor, como historiador, acredita que os renascentistas viviam uma ficção na qual precisavam crer para não aceitar que povos "bárbaros" pudessem ser mais civilizados do que eles?Só quis mostrar que a grande idéia do humanismo renascentista não é culturalmente específica, isto é, não é propriedade exclusiva da cultura européia e que, por mais que estivessem separados por um oceano, os discursos de Maquiavel e Akbar um dia se cruzariam. Há em Akbar uma filosofia humanista que desconfia da "verdadeira" religião.Para mim, o personagem mais fascinante do livro é Dashwanth, o pintor da corte de Akbar que se perde na própria criação, a enorme série pictórica conhecida como Hamzanama. Por que escolheu uma metáfora para definir o papel do artista no contexto social e político do império mughal?Dashwanth, como você sabe, existiu, de fato, e foi um dos pintores a quem Akbar encomendou a série Hamzanama, sobre as aventuras de Amir Hamza. Conheço bem a história real, pois escrevi um ensaio e fiz uma palestra sobre a série, mas reinventei-o. Dashwanth vira uma metáfora da criação artística porque faz parte de um conjunto criativo, de um ser coletivo que cria uma obra ou um mundo para unir elementos aparentemente díspares, construídos por várias mãos.

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