O Reino fica na contracorrente de Leões e Cordeiros

Peter Berg, ator de Robert Redford, dirige outro roteiro de Michael Carnahan

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2007 | 00h00

Talvez, para falar sobre O Reino, que estréia hoje, seja melhor começar fazendo uma citação a outro filme já em cartaz, Leões e Cordeiros. Ambos foram escritos pelo mesmo roteirista, Matthew Michael Carnahan. Ambos tratam do mesmo imbróglio - o combate ao terrorismo e a situação criada no Oriente Médio pela invasão do Iraque, por George W. Bush - e, como se tudo isso não fosse suficiente, o diretor de O Reino, Peter Berg, é ator em Leões e Cordeiros, fazendo justamente o papel do oficial que comanda a desastrada ofensiva desencadeada pelo senador Tom Cruise, de seu gabinete em Washington. Assista ao trailer do filme O Reino Não deve ser mera coincidência. Leões e Cordeiros é um filme muito bem escrito (e filmado por Robert Redford), que discute idéias e conceitos com uma clareza que não é freqüente na produção de Hollywood, sempre mais preocupada em exaltar a ação e o movimento. O Reino investe justamente na ação, embora sua história não seja desprovida de ambição como olhar sobre uma das regiões mais explosivas do mundo.Na trama de O Reino, o FBI envia uma equipe à Arábia Saudita para investigar um atentado que matou mais de uma centena de pessoas, a maioria (quase todas) ocidentais. Jamie Foxx lidera o grupo e tem, em primeiro lugar, de enfrentar a desconfiança da polícia local, alimentada por intrigas palacianas. Justamente um agente saudita vai servir de guia para os estrangeiros. Descobertas as afinidades, ele se integra ao grupo. Os terroristas, lógico, são mortos em combate - você não sabe o que é Hollywood, se duvidasse disso -, mas existem mais óbitos na trama, que visa justamente a unir sauditas e norte-americanos no combate ao terrorismo.Comparado a Leões e Cordeiros, O Reino soa tão diferente que até levanta dúvidas sobre quanto do roteiro de Carnahan foi utilizado pelo diretor Berg. Uma das falas contundentes de Leões e Cordeiros refere-se justamente à falsidade do democratismo alardeado pelo governo norte-americano, tomando justamente como referência os laços da administração Bush com o governo saudita - já amplamente debatidos por Michael Moore em Fahrenheit 11 de Setembro. O acordo final de O Reino fica na contracorrente de Leões e Cordeiros, mas o olhar de ódio do garotinho muçulmano, após a chacina de sua família, aponta para a permanência da crise - e ela é muito melhor dissecada no filme de Robert Redford.Peter Berg fazia o jovem manipulado pela fatal Linda Fiorentino de O Poder da Sedução, bom noir de John Dahl. Berg já dirigiu Bem-Vindo à Selva, com The Rock e Seann William Scott. O Reino é mais ambicioso, como produção, e tem cenas espetaculares de ação, que enchem os olhos do espectador com tiros, explosões e pancadaria. O xis da questão é ideológico. O Reino aplica a boa e velha lei do porrete como solução dos problemas. O desastre da operação militar comandada pelo oficial Berg em Leões e Cordeiros pode ser muito bem uma metáfora de Redford e Carnahan sobre O Reino.ServiçoO Reino (The Kingdom, EUA/2007, 110 min.) - Ação. Dir. Peter Berg. 16 anos.Cotação: Ruim

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