O registro de uma era de excessos

Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, tem protagonista amoral e fala de racismo, vaidade, mesquinhez e crueldade emocional

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2009 | 00h00

Há algo de réptil em Zeca, principal personagem de Pornopopéia (Objetiva, 480 páginas, R$ 59,90), livro que marca o retorno de Reinaldo Moraes ao romance depois de 14 anos ( o último foi Abacaxi). É um vilão da cabeça aos pés - ex-cineasta marginal, ele é obrigado a filmar um vídeo promocional sobre embutidos de frango para ganhar alguns trocados. Mas, sem saber ao certo por onde começar, Zeca acaba entrando em uma espiral de sexo, bebida e drogas."Trata-se de um homem cafajeste, sexista, machista, politicamente incorreto, que criei sem enfrentar nenhuma censura (pessoal ou de terceiros)", confessa Moraes, 59 anos, que conversa com o Estado em um de seus pontos de encontro mais queridos, a Mercearia São Pedro, na Vila Madalena. Será ali a festa de lançamento, no dia 29.Um evento para festejar algo marcante. Escrevendo em sua própria voz, Moraes não se sente mais constrangido a fazer as vontades do leitor. Ele retorna a seu velho modo de escrever como se o leitor fosse um hóspede não convidado, chegando na noite errada em casa escura. Pornopopéia traz uma jornada desregrada, de proporções quase épicas e narrada com texto fluido, inquieto - como o personagem.Zeca é a união de tipos que povoam a sociedade atual, com seu individualismo atroz e a insaciável busca pelo prazer imediato. Pornopopéia é um livro de excessos típico de uma era de excessos, algo como um potente e cuidadoso coquetel servido gelado. Afinal, fala sobre racismo, aversão a mulheres, vaidade, mesquinhez e (mais desolador) retrata a crueldade emocional que ele dirige aos semelhantes.Apesar de amoral, ele, no entanto, desperta a piedade do leitor, uma vez que revela todas as contradições sofridas pelo homem. "Todo mundo tem ao menos um dos defeitos do Zeca, ou praticou atos ilícitos como ele", conta Moraes, ex-economista que se tornou cultuado em 1981, com o lançamento de Tanto Faz, logo tornado bíblia de um momento literário contracultural e intimista. Fora de catálogo durante vários anos, a obra voltou às livrarias em 2003, pela Azougue Editorial, mas, cumprindo sua função de maldito, novamente só é encontrada em sebos.Em meio às suas obsessões (gosta tanto de reescrever que, brincam os amigos, é capaz de corrigir o livro em vez de autografá-lo), Reinaldo Moraes entabulou uma animada conversa com o Estado na terça-feira. A seguir, os principais pontos. INDIVIDUALISMO EXACERBADO"O romance era para ser mais cômico, picaresco. Com o tempo, percebi que o personagem começou a ganhar densidade - afinal, eu não estava contando uma piada de 100 páginas. Foi quando entraram minhas experiências com casamento, amigos. Zeca, assim, ganhou contornos perigosos: tornou-se um personagem amoral. Até então, ele se recusava a pactuar com o mundo administrado, com o trabalho, mas era um cara ético, que valorizava a amizade e o amor. Resultou em um personagem canalha, autor de atos deploráveis como, por exemplo, roubar uma prostituta. Comecei a pensar em uma contradição lógica mas civilizatória: para ser socialmente livre, é preciso livrar-se do passado, das ligações afetivas (até com mulher e filhos) e fazer uma tábula rasa dos valores que recebeu: uma deflação total dos sentimentos e uma anulação dos valores. Isso criou um monstro moral. Mas é a única forma de ser essencialmente livre. O destino, no entanto, muda a vida desse cara: amoral, ele fica sem tapete. Por isso, paga o preço até por atos que não comete."ESPANTO COM A CRIAÇÃO"Tive terríveis embates, especialmente à noite: estou criando um monstro! Que encara o sexo como fliperama! O herói moderno tem vários defeitos e uma qualidade. Já o vilão moderno tem um monte de qualidades e um defeito. É o caso do Zeca, que ajuda a salvar uma criança, mesmo que nem se importe com isso. Ele é acusado de assassinato e de ser traficante sem, de fato, isso ser verdade. Mas Zeca é tão inescrupuloso, tão facilmente acusável de egoísmo que é como se fosse culpado. Isso cria uma situação ambígua: ele é acusado injustamente mas merece ser punido."NARRATIVA EM PRIMEIRA PESSOA"O maior desafio é criar situações que contradizem o narrador. Também é preciso não parecer chata para o leitor aquela situação que o personagem não suporta. Zeca participa de uma orgia que ele considera um porre, mas não posso, como autor, deixar isso transparecer. A solução é criar contextos que contradizem o narrador."INFLUÊNCIA DA REALIDADE"Tem o fator idade: completo 60 anos em 2010 e sinto não ter tido uma carreira sólida. Fiz ciências sociais, estudei na Fundação Getúlio Vargas, quase virei tecnoburocrata. Até ir para a França, onde consegui escrever Tanto Faz. Na volta, ajudei a escrever novelas (Helena, O Campeão, Bang Bang) e seriados (Ô, Coitado!), que me transformaram em freelancer. Essa ideia de não pertinência acabou prevalecendo. Assim, sou obrigado a enobrecer os sintomas, como disse, em tom de brincadeira, meu amigo poeta Armando Freitas. Isso explica um pouco essa área eticamente pantanosa de Zeca - ele também faz o que pode, só se preocupa com os próximos 15 minutos."BEAT PAULISTA"Essa fama sempre me incomodou. Fiz uma única experiência com essa linguagem, em um livro sobre Burroughs, que hoje renego, pois é recheado de maneirismo que não tem nada a ver comigo. Li Kerouac muito tempo depois de virar hit, nos anos 1980. Adorei On the Road, mas preferia Charles Bukowski, que não era beat. Eu vibrava com sua obra, marcada por personagens que reapareciam, uma narrativa sem o fluxo tradicional. Também não tinha aquele toque poético preparado - a poesia se formava à sua revelia, enquanto admirava a lua vomitando. Era a não-literatura que eu buscava. Um mar revolto em que tudo pode acontecer."

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