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O reencontro de William Turner e John Constable em Londres

Amplas exposições revisitam as obras de duas das maiores figuras da história da arte inglesa

Maria Hirszman - Londres, Especial para O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2014 | 10h45

Uma feliz coincidência está promovendo um amplo reencontro entre a obra de duas das maiores figuras da história da arte inglesa, William Turner (1775-1851) e John Constable (1776-1837), que são, respectivamente, objeto de duas das maiores mostras em cartaz na capital do Reino Unido. Ao mesmo tempo rivais e em profunda sintonia, ambos são protagonistas da transformação e consolidação da paisagem em gênero maior da pintura neste país, o que torna ainda mais especial a possibilidade de ver essas duas produções em detalhes e quase simultaneamente.


As exposições são fruto de uma longa reflexão crítica e de caráter institucional. Tanto a Tate Britain como o Victoria & Albert Museum, que sediam as duas mostras e são responsáveis respectivamente pela guarda de amplos acervos desses artistas desde o século 19, procuraram iluminar novos aspectos desses produções, reunindo trabalhos há muito dispersos, estabelecendo novos recortes e promovendo diálogos com seletos empréstimos nacionais e internacionais.

No caso de Turner, primeira das exposições a ser inaugurada, em 10 de setembro na Tate Britain, a ênfase recai sobre sua produção tardia, altamente criticada em seu tempo como um desvio, como produto menor de um artista que caminhava progressivamente para a senilidade, e que hoje é festejada como fase áurea do mestre. 

Nesse período, Turner parece se libertar definitivamente das amarras acadêmicas e se estabelece como uma espécie de precursor maior do Impressionismo, aliando uma radicalidade da pesquisa com o aprofundamento formal e temático de questões que o acompanhavam desde a juventude. Vale a pena abrir um parênteses para lembrar que a curadoria inglesa tem demonstrado grande interesse em investigar com maior profundidade as produções maduras dos artistas. Matisse e Rembrandt também tiveram mostras com esse perfil em 2014 em museus londrinos.

Já a exposição de Constable, que reúne mais de 150 pinturas, aquarelas e gravuras de sua autoria e de diversos outros autores, procura deslindar os nexos entre as paisagens aos quais o artista se dedicou com grande afinco e persistência e uma ampla trama de correspondências, visuais e compositivas. Além de pintor, ele era um colecionador dedicado, tendo reunido mais de 5 mil gravuras, e revelou-se um observador atento, absorvendo um leque amplo de referências, com ênfase em paisagistas holandeses do século 17.


Curiosamente, as duas exposições trazem no início autorretratos, jovens e confiantes. Mas as diferenças entre eles, tanto em termos pictóricos como pessoais, é folclórica. Turner é de origem pobre, Constable vinha de uma família de posses; Turner realiza sua primeira exposição na Academia Real aos 15 anos, Constable apenas perto dos 40. O primeiro nunca se casou, mesmo que se diga que teve filhos naturais, e viajava com frequência, passando todos os verões em lugares como a Suíça e Veneza, cujas paisagens pintava reiteradamente; o segundo nunca saiu da Inglaterra e era um pai de família e marido exemplar. 

No entanto, para além das diferenças de estilo, personalidade e até temática, as exposições abrem uma possibilidade concreta de maior compreensão desses vínculos e divergências entre os dois mestres românticos, que tiveram a ousadia de dar à pintura de natureza uma potência física e simbólica inéditas. E que souberam, cada qual à sua maneira, dar à representação da natureza uma conotação particular, autoral, seja na forma altamente expressiva e apaixonada de Turner, seja no olhar terno, familiar, afetivo de Constable. 

Como sintetiza Giulio Carlo Argan: “Em ambos os casos, de qualquer forma, a natureza não é concebida como o reflexo do criador na imagem do criado, e sim como o ambiente da vida: um ambiente que pode ser acolhedor ou hostil, mas com o qual se tece sempre uma relação ativa, não diversa do que liga o indivíduo à sociedade”.

No Brasil. O público de São Paulo terá oportunidade, no ano que vem, de acompanhar um pouco a saga da paisagem pela história da arte britânica, compreender sua importância e contemplar obras icônicas de mais de três séculos de produção, graças à exposição organizada pela Tate e provisoriamente intitulada de British Lanscape Paintings, a ser inaugurada em julho de 2015 na Pinacoteca do Estado. 


Do olhar atento aos mestres, o aperfeiçoamento


Constable, The Making of a master, organizada pelo Victoria & Albert Museum, é um exercício cuidadoso e admirável, que vai muito além de uma mera retrospectiva. Constable não é apenas um dos mais queridos artistas dos britânicos – como o museu o apresenta logo na abertura da exposição, na tentativa de angariar-lhe uma forte simpatia. Ele é peça fundamental para a compreensão de como a paisagem, sobretudo rural mas também urbana, se constitui como uma espécie de elemento definidor da identidade artística inglesa. 

Sua obra é apresentada quase que como um ponto de condensamento, um lugar capaz de ecoar as experiências anteriores e, ao mesmo tempo, transformar esses modelos num estilo próprio e cautelosamente lapidado. Ele não apenas olha atentamente e aprende as lições de mestres britânicos (como Gainsborough, Girtin e o próprio Turner) e estrangeiros (como Da Vinci; Ticiano – autor que, segundo Constable, teria fundado, com A morte de S. Pedro Martir, “todos os estilos de paisagem em cada escola na Europa” –; ou Lorrain) que o antecederam, como parece transformar essa experiência num exercício constante de aperfeiçoamento.

É interessante descobrir, por meio de uma vasta seleção de gravuras, esboços e pinturas de Constable e de dezenas de outros autores, como ele conhecia e estudava profundamente a arte europeia, mesmo sem nunca ter saído de seu país natal. Isso graças aos acervos locais e a uma coleção bastante profícua, sobretudo de gravuras, o que reitera a importância fundamental da reprodução em papel para a disseminação dos modelos artísticos. 

A exposição também é rica de exemplos de estudo, de sua intensa e persistente formação pessoal, com repetições, cópias, uso recorrente dos esboços, muitos feitos ao ar livre, em dimensões cada vez maiores. O fato de sua filha ter doado uma grande quantidade de obras do pai à instituição que deu lugar ao V&A Museum e a existência de catálogos descrevendo os pertences leiloados após sua morte foram essenciais para permitir essa reconstituição do que Constable viu e produziu, numa espécie de “retrato” do perfil estético desse homem pacato e persistente, que se dedicou a tornar visível aquilo que lhe era familiar. 

A mostra reúne conjuntos impressionantes, como as várias versões de Hay-Wain, uma de suas obras mais destacadas, apresentada no salão de 1821, ou a surpreendentemente naturalista pintura de tronco de árvore, Study of the Truck of an Elm Tree, tão fidedigna que nos faz pensar num primeiro momento que se trata de uma fotografia, antes da própria invenção da técnica, e que serve de gancho para mostrar a existência de laços entre o artista romântico oitocentista e as gerações que o sucederam, como atesta uma gravura realizada quase um século depois por Lucian Freud a partir daquela imagem e que é usada para encerrar a mostra. 

Temas históricos, com observação do mundo moderno

Mesmo com um recorte de tempo limitado – com obras realizadas entre o 60º aniversário de Turner e sua morte, em 1851 –, a mostra Late Turner – Painting Set Free traça um panorama bastante vasto das questões que mobilizaram o pintor ao longo da vida e que, de certa forma, se intensificaram em sua fase madura, reunindo quase duas centenas de pinturas, desenhos e esboços. Lá estão presentes diversos subtemas, como a importância das viagens, a presença das narrativas clássicas e dos mitos, a capacidade inesgotável de experimentar novas técnicas e formas de pintar e o interesse crescente pelas marinhas – ao ponto de dizerem que ele teria se amarrado a um mastro de navio para ver como era uma tempestade de verdade. Mas o principal foco de interesse, que parece costurar todos esses segmentos, é o anseio por sublinhar a notável capacidade do artista de condensar, num mesmo e intenso processo, um profundo interesse pelos temas históricos e míticos com uma observação arguta, atenta e dramática do mundo moderno. Obras em destaque, como Rain, Steam and Speed (1844), uma impactante e inovadora representação visual da sensação de movimento (ao ponto de Constable ironizar dizendo que ele usava fumaça tingida ao invés de tinta), são exemplos precisos dessa atitude de confronto entre o progresso e a natureza. 

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