O reencontro de antigos parceiros em CDs singulares

Os compositores e cantores pernambucanos Lula Queiroga e Geraldo Maia trocam impressões em seus novos trabalhos

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

21 de maio de 2009 | 00h00

Os pernambucanos Lula Queiroga e Geraldo Maia têm trajetórias artísticas e pessoais com vários pontos de convergência. A evidência mais recente é a presença de um no CD do outro. No terceiro e ótimo álbum, Tem Juízo Mas Não Usa (Luni Produções) - que tem show de lançamento hoje no Sesc Pompeia -, Lula conta com a bela voz de Maia em O Barulho da Gota. Lula retribuiu ao amigo com uma parceria em trio com o violonista Publius, Jorge Sem Lua, no CD Peso Leve (independente), sexto e consistente trabalho de Maia.Singulares no estilo e plurais nas escolhas, Lula e Maia, ambos prestes a completar 50 anos, começaram juntos no início dos anos 1980. A palavra bem pensada é um dos pontos de maior interesse entre os dois. "Em geral, parto da palavra pra compor. Às vezes é mais cerebral, às vezes é uma coisa mais espontânea que vai evoluindo como um looping na minha cabeça, mas o texto é que de alguma forma vai guiar a canção, mesmo quando é meio absurdo", diz Lula. "Quando a palavra é bem escrita, bem formatada, quando facilita meu lado intérprete, gera uma sensação de que vou expressar algo novo dentro daquilo", diz Maia.Descontente com os rumos da música no Brasil, Maia foi morar em Portugal. Lula tomou a direção do Rio, mas já faz tempo que ambos estão de volta ao Recife. Lula, como Bráulio Tavares, firmou parceria com Lenine e seus estilos se cruzam desde o início, quando lançaram juntos o LP Baque Solto (1983). Compositor requisitado, teve músicas gravadas por Elba Ramalho, Zizi Possi, Ney Matogrosso, Lenine, Pedro Luís e Roberta Sá, que escolheu como faixa central de seu segundo álbum Belo Estranho Dia de Amanhã, regravada agora pelo autor.Não por acaso, a faixa-título de Tem Juízo Mas Não Usa poderia ter a assinatura de Lenine. O CD de Lula não tem música da dupla, mas o velho parceiro marca presença em dueto com ele em Altos e Baixos, faixa que não destoaria de um disco de Tom Zé, mas tem personalidade própria. Como o baiano e outros criadores chamados de "malditos" décadas atrás, Lula é do tipo inclassificável - transita por vários gêneros, como samba, rock, ritmos tradicionais nordestinos, recortando, mesclando o orgânico e o eletrônico.Isso não é novidade. Ele procedia dessa mesma maneira nos igualmente relevantes Aboiando a Vaca Mecânica (2001) e Azul Invisível Vermelho Cruel (2004). "É quase a mesma coisa de um disco pro outro. O que vai mudando são detalhes de melhorias técnicas, de amadurecimento. Mas se você extrair uma música de um disco, ela não ia ficar estranha no outro, por causa do texto envolto numa paisagem sonora", diz.O bom humor é um dos componentes de sua escrita afiada, de olhar inusitado sobre situações comuns. Na contramão do exibicionismo reinante, ele propõe o sumiço temporário como solução para um casal em Melhor do Que Eu Sou (Pensando Alto). "Eu sei que fica mais fácil/ Você gostar de mim quando eu não estou", diz a letra, que arremata com estes versos: "Prefiro ser um vulto distante/ Do que um chato a mais por perto."O CD transpira modernidade e liberdade criativa, sem preocupação com convenções, embora se valha muito bem da tradição da poesia oral e dos ritmos tradicionais. "É lógico que também tem refrão, parte A, parte B, mas acontecem acidentes geográficos, como essa coisa de não tocar a música da mesma maneira até o fim", diz Lula. A faixa de abertura, Você Não Disse, é um exemplo, começa de um jeito e vai mudando várias vezes. "Barulho da Gota leva isso ao extremo. São coisas que vão acontecendo sem querer."Vários convidados passaram pelo estúdio de Lula e deixaram sua marca no disco. Entre eles, Lenine, Alceu Valença, Silvério Pessoa, Lirinha (do Cordel do Fogo Encantado), Toninho Ferragutti, China, Spok, Pupilo (da Nação Zumbi) e Geraldo Maia, entre outros.Maia, que tem Maria Bethânia como maior referência de intérprete, é para Lula "um magnífico cantor". "Canta de forma meio congelada, lembra coisas de Nouvelle Cuisine, pela delicadeza." A admiração é mútua. "Acho Lula um tremendo compositor, um dos melhores do Brasil. E como cantor também é fantástico", retribui Maia.Ele já está com outro álbum pronto para ser lançado, Lundum, em que volta ao gênero de Samba do Mar Quebrado (2004). No segundo semestre deve vir a São Paulo para mostrar Peso Leve ao vivo. Como Lula, Maia tem uma tendência a multiplicar seu universo sonoro, com "muitas texturas e variações".O novo álbum remete à sonoridade de Astrolábio (2001), que já sinalizava para a sonoridade que se formatou em Peso Leve, seu primeiro álbum autoral. "A ponte que faço entre os dois discos é esse viés, digamos, mais pop, com mais guitarra e uma série de elementos que identifico como ligados à música pop." Em grande parte das faixas se destaca o bandolim de Publius, "ponteando, costurando quase todo o disco, o que dá um diferencial".Além do grupo Fio da Meada, que o acompanha, Maia também contou com colaborações de Isaar, Alessandra Leão e Ylana nos vocais. Já os parceiros são em maior número e entre eles estão o dramaturgo João Falcão e a escritora Adriana Falcão. João é autor da letra de Tô Fora, sobre um triângulo amoroso, que, ao lado de Jorge Sem Lua, representam a faceta mais urbana de Maia. Por outro lado, há No Armazém (letra de Juliano Holanda), "que fala de um tempo que talvez não exista mais". "Sou um cara muito aberto. Gosto de temáticas bem doidas e ao mesmo tempo de outras bem convencionais, da tradição brasileira." ServiçoLula Queiroga. Sesc Pom-peia. Teatro (344 lug.). Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700. Ho-je, às 21 horas. R$ 4 a R$ 16

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