O que salvar do naufrágio da velhice

Em Juventude, Domingos Oliveira faz uma elegia ao frescor da alma

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

27 de janeiro de 2009 | 00h00

O título é autoirônico - Juventude. Quando, na verdade, do que trata é de três veteranos fazendo um daqueles balanços de vida tardios, quando o ciclo da existência parece se encaminhar para suas curvas e derrapagens finais. Com esse filme, Domingos Oliveira conseguiu uma bela resposta de público no Festival de Gramado do ano passado. Ganhou alguns prêmios do júri oficial (não o principal), e foi, sem qualquer dúvida, o filme mais amado entre todos os concorrentes. Para um realizador, que deseja comunicar-se com a plateia, não pode haver recompensa maior. Assista ao trailer de JuventudeO próprio Domingos interpreta um desses três amigos, o diretor de teatro e cinema Antonio. Ele e o cardiologista Ulisses (Aderbal Freire-Filho) passam um fim de semana na bela casa de Davi (Paulo José), o mais rico deles. A ideia é promover um reencontro, botar o papo em dia enquanto degustam uma comidinha e todas as bebidas que houver pela casa. Aproveitam para reencenar uma peça que montaram no colégio, A Ceia dos Cardeais, do português Júlio Diniz. Como item principal da pauta de conversas, claro, os relacionamentos amorosos, mas também, de passagem, questões políticas e vinculadas às artes, etc. O tema político é inevitável, pois eles "pertencem a uma geração que acreditava poder mudar o mundo, etc.". Bem, sabemos quanto essa história pode render em termos de autocomplacência e mesmo de difuso sentimento de superioridade em relação a gerações mais jovens, mais pés no chão, pragmáticas e alheias a sonhos e devaneios. Por sorte, quando esse ingrediente ameaça entrar em campo, é devidamente exorcizado pelo bom humor e pela gozação. Ganha o filme, ganham os espectadores. O fato é que, como tem acontecido com frequência em sua obra recente, Domingos sabe dosar com sabedoria o humor consigo mesmo, essa ironia fina que tira a pompa e o ranço de seriedade excessiva dos temas. Homem de cinema, e também de teatro e de literatura, Domingos sabe muito bem que o destino humano pode ser tão trágico como cômico - dependendo do ângulo pelo qual se olha. Onde estaria então a "verdade" possível do homem? Certamente nem num extremo nem no outro. Somos, ao mesmo tempo, ridículos e divinos, sábios e ignorantes, nobres e torpes. Esse espelho multifacetado que reflete a humanidade e a si mesmo tem sido utilizado com crescente desenvoltura por Domingos Oliveira, diretor que se celebrizou nos anos 60 com obras fundamentais como Todas as Mulheres do Mundo e Edu, Coração de Ouro; depois passou muito tempo sem filmar e agora, dos anos 1990 para cá, redescobriu o gosto pelo cinema. E reencontrou-se com essa arte sob as bênçãos das novas tecnologias, que lhe permitem trabalhar como gosta, com produções baratas, ele próprio no elenco, quando não sua mulher e filha, diálogos inspirados e rápidos - e agora tudo captado em digital. O que também cobra certo preço. Juventude tem imagens que às vezes parecem desleixadas, tamanha a falta de definição. Mas pouco importa. Domingos costuma dizer que, para ele, o cinema não tem segredos; que sempre soube onde colocar a câmera, como enquadrar, etc. A opção pelo digital deu-lhe liberdade econômica maior ainda para tocar seus projetos. E lhe permitiu contestar a técnica como fetiche para usar uma técnica possível a serviço do que tem a dizer. A seu modo, utiliza aquilo que o cineasta francês Alexandre Astruc chamava de "câmera-caneta" (caméra-stylo). A imagem como ilustração rápida daquilo que o autor deseja expressar. O diretor como um flâneur da existência, tomando notas rapidamente das suas emoções e das dos seus personagens. O cinema tão cômodo e simples quanto uma caneta e um bloco de notas, a unidade básica da literatura. É um cinema que empolga pelo calor e espontaneidade. Para existir precisa, além dessa leveza técnica e humana, da densidade de grandes intérpretes. É exatamente o que acontece neste caso, para expressar aquilo que não necessariamente se perde com o passar dos anos e pode ser preservado do naufrágio da velhice - o frescor da mente e a juventude da alma. ServiçoJuventude (Brasil/ 2008, 72 min.) - Drama. Dir. Domingos Oliveira. 14 anos. Cotação: Bom

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