O Que Restou Do Regionalismo?

"Durante muito tempo o regionalismo foi uma força política, cultural e literária. O Rio Grande do Sul disto era um exemplo. Território conquistado aos espanhóis, a ferro e fogo, nele se afirmou uma orgulhosa identidade. Mas o Brasil mudou. Acelerou-se o fenômeno da industrialização e da urbanização. Surgiram as megalópoles brasileiras nas quais hoje vive 80% da população. O sistema de comunicações aperfeiçoou-se, as redes de tevê passaram a levar para todos os pontos do País uma linguagem mais uniforme. O resultado de tudo isso é que o regionalismo perdeu terreno, inclusive na literatura. Um Graciliano Ramos, um Jorge Amado, até mesmo um Érico Verissimo da fase gaúcha hoje teriam bem menor repercussão. É de lamentar? Certamente. Mas não adianta chorar sobre o leite derramado. O declínio do regionalismo era uma inevitabilidade cultural e o jeito é aceitá-la, partindo para novas formas de expressão."MOACYR SCLIAR, ESCRITOR"Regionalista é um termo inadequado para o romancista nordestino. Na verdade, regionalista é uma vertente literária que foi praticada pelos integrantes do Movimento Regionalista, lançado por Gilberto Freyre em 1926. Ele alertava que o escritor devia documentar o Nordeste, com base na sociologia e na antropologia, sem perder de vista a estética. Portanto, não bastava que o romance ou a novela tivesse como cenário o Nordeste, era preciso que ele fosse documental. Devia copiar uma forma de ser nordestino, na maneira de vestir, de comer, de andar, para só depois se preocupar com o objeto artístico. Vem daí o equívoco: nordestino não é a rigor um regionalista. Ele é, quando muito, regional. E não se trata de negar a importância do pensamento gilbertiano. Mas não se pode chamar Graciliano Ramos de regionalista. São Bernardo e Angústia consideram o humano, sem nenhum vínculo com o documento. E se preocupa com a estética literária."RAIMUNDO CARRERO, ESCRITOR"O regionalismo marcou a ficção brasileira da metade do século 20. Recebeu a herança da discussão modernista sobre as relações entre regional, nacional e universal e foi explorar cada parte do Brasil. Com isso, ganhamos Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Mas o regionalismo também produziu esquecíveis e esquecidos registros. Muitos abundaram em traços do local, negligenciando as relações que os suportavam. Graciliano e Guimarães não caíram nessa armadilha. Conseguiram porque, mais do que o local, buscaram a qualidade do texto. Assim, foram universais, parodiando Octávio Paz, ao cantarem suas aldeias. Hoje não é diferente. Há quem dialogue e há quem adore o gueto. Dizem que a obra de Milton Hatoum é ?literatura amazônica?. Não é. É ficção que mantém um olho no Norte e outro no mundo. Porque os dois, combinados, dão a perspectiva."JÚLIO PIMENTEL PINTO, PROFESSOR DA USP"O ?regionalismo? foi a expressão do modernismo no Nordeste do Brasil. Nos anos 20, alguns intelectuais, como Joaquim Cardozo e Gilberto Freyre, enxergaram nossa realidade numa perspectiva humanista, universal. O conceito mudou de sentido, a expressão ?regionalismo? ganhou conotação folclórica e perdeu o sentido. Ser regionalista hoje é voltar-se para o próprio umbigo. Um conceito que deveria ser abolido da crítica literária."EVERARDO NORÕES, POETA"O conceito de regionalismo, cunhado em 1926 por Gilberto Freyre, firma-se em cima de três outros conceitos: tradição (unidade), região (diversidade) e modernidade (crítica). São conceitos que não convivem separadamente, um precisa do outro para delinear o regionalismo. Para Freyre, era através da conciliação entre o regional e o humano, a tradição e a experimentação, que se fundamentaria uma arte brasileira que, por sua vez, aspirasse à universalidade. No entanto, os limites entre a literatura regionalista e a regional (erroneamente tidos como sinônimos) estão na exclusão desta dos conceitos de tradição e modernidade, e em uma preocupação antes etnológica do que artística."ANCO MÁRCIO TENÓRIO VIEIRA, PROFESSOR DA UFPE"O regionalismo foi uma aguerrida bandeira de luta, um estandarte. Hoje, aparece como mera flâmula de produto artesanal. Em dado momento, cumpriu função agregadora: os escritores nordestinos ainda acreditavam precisar se contrapor aos do eixo Rio-São Paulo para reivindicar visibilidade no mundo da cultura literária nacional. Depois da grita em torno de 22, o assim chamado romance regionalista expunha uma grande parte do País à responsabilidade social de um Brasil que via mal a direção de seu crescimento. Os tempos mudam, mas permanece um desejo de pertencimento. No entanto, a forma aguerrida de ?identidade? parece aprisionar o possível da construção individual de pertencimentos legítimos. Identidade, palavra perigosa, reduz a pessoa a uma categoria, a um coletivo. A identidade, toda sorte de identidade, é um direito, mas não um dever. Desafio para um escritor nordestino atual é como dizer num modo novo misérias que se repetem."LOURIVAL HOLANDA, ESCRITOR E PROFESSOR" Se pensarmos em termos históricos, o regionalismo não existe mais. O canto do cisne aconteceu com a geração de 30, mas antes disso já apresentava sinais de enfraquecimento, pois teve início já no Romantismo, quando era necessária uma afirmação forte da nacionalidade, a qual se expressava, também, em suas vertentes regionais. Se, entretanto, pensarmos o regionalismo como representação literária especular e naïf de certa região, incidiremos nas vertentes mais anacrônicas da literatura. Significa o imobilismo e a idéia de que ?no passado era melhor?. No Rio Grande do Sul, por exemplo, sofremos esse modo de pensar, responsável pelas piores estéticas literárias, recheado de clichês, deplorável. Isso nos causou um estrago que até hoje amargura - será preciso que decorra uma geração inteira para que o assunto se esclareça. Devemos, a bem da limpeza conceitual, não usar mais o termo ?regionalista? para os casos contemporâneos. A higiene literária assim o deseja."LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL, ESCRITOR"?Ninguém é doido. Ou, então, todos?, diz o narrador de ?A Terceira Margem do Rio?, de Guimarães Rosa. Parodiando-o, eu diria que todos somos regionalistas ou ninguém é porque, no fundo, todo escritor fala de sua região. O problema é que a palavra regionalismo adquiriu, ao longo do tempo, marcas que foram estigmatizando-a. Hoje, não há escritor que goste de ser chamado de regionalista. A palavra é muito redutora. É evidente que o regionalismo, na linha de 30, não há mais como ser praticado. Esgotou-se. O que continua bem viva é a dimensão do regional que ele nos legou. Agora, o grande desafio que se coloca ao escritor é como falar desse universo sem recorrer ao pitoresco, ao engraçadinho, à fala típica do homem rural. Deixar de falar desse mundo é impossível, porque ele existe e grita para ser ouvido. Encontrar o tom certoda linguagem, eis a questão."ANTONIO CARLOS VIANA, ESCRITOR

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