''''O que quer de mim esta música?''''

Mais do que ditado moralizante, A Sonata a Kreutzer é o estudo moral de um escritor que questiona as próprias posições

Samuel Titan Jr., O Estadao de S.Paulo

05 de janeiro de 2008 | 00h00

Há quem diga que festas e férias são pouco propícias a lançamentos inteligentes. Ora, se for verdade, nada mais oportuno do que a publicação de A Sonata a Kreutzer, pois talvez a fadiga e a saciedade de fim de ano tornem mais sensível, por contraste, o tremendo impacto desta novela do russo Lev Tolstói (1828-1910).Publicada em 1891, A Sonata está entre as obras-primas da velhice selvagem do autor, isto é, dos anos da grande crise espiritual em que Tolstói mergulha de corpo e alma. Como se sabe, a biografia do autor é pontilhada por surtos de maceração moral em que ele se interroga tanto sobre o sentido de sua vida de nobre e de cristão ortodoxo quanto sobre seu ofício de escritor.A mais grave é com certeza a que sucede a conclusão de Ana Karenina (1878). Tolstói renega seu passado e sua obra, para começar um longo período de indagação e contestação moral e teológica, que alcança forma de doutrina na Confissão, de 1882, e no tratado O Que É Arte?, de 1897.São os anos de formulação do tolstoísmo e, vale lembrar, de excomunhão do escritor. À sombra desse impulso poderoso de reformar a vida, não é de estranhar que as novelas dessa fase tenham sido muitas vezes lidas mais como documentos éticos que como obras de ficção. Com mais ou menos força, é o que se deu com A Morte de Ivan Ilitch (1886), com A Sonata e ainda com Padre Sérgio (1898) e Khadji Murat (1908).A tentação é quase inescapável no caso da Sonata. Nada mais fácil do que reconhecer no protagonista, o terrível Pózdnichev, traços biográficos do próprio Tolstói, a começar da juventude desregrada, da guerra conjugal e mesmo da suscetibilidade à música em geral e, em particular, à sonata para violino e piano de Beethoven que empresta sua alcunha à novela. Não bastasse isso, a visão crua e severa do casamento moderno, que Pózdnichev expõe sem meias palavras, é muitas vezes reprodução quase literal de posições que Tolstói desenvolveu no mesmo tom em seus escritos doutrinais.É difícil imaginar que alguma delas caia nas graças do leitor moderno: o amor é um disfarce hipócrita de instintos bestiais e o casamento por amor é um acasalamento mal disfarçado; como as senhoras casadas mal se distinguem das moças forçadas à prostituição, o lar de uma família normal pouco difere de uma casa de tolerância; e o destino do comum das mulheres é alguma forma mais ou menos branda de histeria, o mal das "clientes de Charcot" que, por então, ocupava o jovem Sigmund Freud. E assim por diante, num afã que, tocado adiante por uma fórmula verbal reiterada "''''mas não é nisso que consiste o caso"), não admite compromisso até chegar à posição extrema - a abstinência total, ainda que à custa do fim da espécie. Se a humanidade há de chegar ao fim por causas naturais, por que não fazê-lo por convicção ética?Se isso fosse tudo, a novela valeria o que valessem as convicções de Pózdnichev. Ocorre que, como observou o crítico Boris Eikhenbaum na década de 1920, as crises morais de Tolstói são também crises estéticas de um narrador insatisfeito com as fórmulas e os gêneros que ele mesmo sempre se encarrega de levar ao limite. Algo assim está na origem de Guerra e Paz ou Ana Karenina, e o mesmo vale agora para estas novelas da velhice.A certa altura de A Sonata a Kreutzer, Pózdnichev reclama dos romances em que se descreve "até a minúcia os sentimentos dos heróis, os açudes, os arbustos junto aos quais eles andam", em que se fala dos sentimentos ternos que o "herói interessante" vota à heroína, ao mesmo tempo em que não há "nenhuma palavra sobre as suas visitas a casas de tolerâncias, sobre arrumadeiras e cozinheiras".A indignação moral parece aqui bem próxima de uma insatisfação mais bem narrativa, como se o autor quisesse ir além dos limites do romance contemporâneo. Daí, quem sabe, a opção pela novela, mais compacta, que Tolstói passa a trabalhar e a refinar, como grande artista da prosa que jamais deixa de ser. Daí, também, a cuidadosa composição da sua Sonata, pela qual o discurso de Pózdnichev tanto captura nossa atenção quanto fica à mercê dela.O ensejo é uma discussão casual sobre o divórcio, a bordo de um comboio no interior da Rússia. Tão logo começa a pontificar, Pózdnichev espanta o casal citadino e ilustrado que dera início a conversa; resta-lhe o narrador-ouvinte anônimo, que lhe dará ouvidos ao longo de toda uma noite, primeiro à luz de um lampião, depois de um cigarro, por fim no escuro do vagão. O ritmo incessante das rodas mecânicas pontua o ritmo da narrativa, que vai se acelerando à maneira de um trem que arranca de uma estação.É uma história de uma guerra conjugal, feita de posse, ciúme e infelicidade, que o vigor realista da prosa não deixa descartar como mera conversa de pregador; de uma inebriante execução da sonata de Beethoven, com direito ao presto inicial e à poderosa melodia final; e de uma outra viagem de trem, tão vertiginosa como a de agora, que leva Pózdnichev de volta a casa, onde assassina a esposa que ele julga adúltera.O paralelo entre uma e outra viagem de trem aproxima tacitamente a exposição moral e o desvario passional. A eloqüência de Pózdnichev, movida a muito tabaco e cafeína (o chá "está forte demais?", pergunta ele a seu ouvinte), começa aos poucos a ganhar o mesmo poder de sedução e excitação que ele vê pecaminosamente encarnados na peça de Beethoven, e é difícil não comparar o seu número retórico ao que deveria ser o seu oposto, uma ária musical.A Sonata cumpre assim o mesmo percurso das outras novelas tardias de Tolstói. Em vez de envolvê-los numa teia cada vez mais densa de relações, à maneira clássica do romance, Tolstói conduz seus protagonistas a um estado de isolamento extremo, moral (como em Ivan Ilitch) e também físico (como em Padre Sérgio). Não para promovê-los rapidamente a modelos de virtude, mas para observá-los nessa sua guerra sem quartel contra tudo e todos, nesse seu esplendor heróico e selvagem, apostólico e paradoxal.Mais do que ditados moralizantes, essas novelas são estudos morais de um escritor que não cessa de questionar suas próprias posições. Ou, por outra: de um autor que, até o fim da vida, não deixa de sentir profundamente a potência positiva de seu antagonista - seja ele o corpo da mulher de Pózdnichev ("O seu aspecto causava perturbação"), seja ele a música ("O que quer de mim esta música?", costumava exclamar Tolstói, como lembra Boris Schnaiderman em seu posfácio à Sonata).Tudo isso turva a limpidez doutrinal que tantas vezes se quer extrair da novela. Feitas as contas, o amor ao próximo tem aqui bem menos evidência que o amor ao paradoxo, num indício de que talvez valha a pena lê-la como peça de ficção em que autor, mais do que expor suas idéias, submete-as à reflexão própria e alheia. A novela A Sonata a Kreutzer é como uma pergunta sem resposta, que se prolonga indefinidamente no eco de seus acordes finais e não se resolve num credo final. Até porque Tolstói e seu Pózdnichev parecem desconfiar das conversões apressadas: "Não balance a cabeça, como que concordando comigo." Samuel Titan Jr. é tradutor e prof. de Literatura Comparada da Universidade de São PauloA Sonata a KreutzerLev TolstóiEditora 34120 págs., R$ 29

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