O que o mundo fez com Betty, a feia...

Pesquisador diz que a globalização foi bem perversa com a 'genial' dramaturgia dessa famosa telenovela colombiana

Entrevista com

Patrícia Villalba, Rio, O Estadao de S.Paulo

25 de junho de 2008 | 00h00

Não é nenhum exagero dizer que a telenovela une a nós, latinos, ao mesmo tempo em que, curiosamente, traduz as particularidades de cada um dos povos da América. Em tempos de pulverização de audiência e da oferta avassaladora de conteúdos audiovisuais, o pesquisador espanhol Jesús Martín-Barbero, da Universidad Javeriana, de Bogotá, diz que é impossível prever o futuro do gênero que encanta multidões desde os anos 70. "Hoje, você tem a opção de ver três telenovelas, mas logo serão 300", observa ele, que abriu na segunda o 4º Semniário Internacional Obitel (Observatorio Iberoamericano de la Ficción Televisiva), realizado no Rio em parceria entre a USP e o projeto Globo Universidade. A despeito da representação das diversidades, Martín-Barbero faz um alerta, nesta entrevista ao Estado, sobre um aspecto perverso da globalização da televisão: "Em sociedades frágeis, como as latino-americanas, é importante ter algo que promova a socialização, como as telenovelas."Na sua palestra, o senhor chamou a novela colombiana Betty, a Feia de "mutante", porque ela teria perdido a identidade quando foi adaptada em outros países . Mas não vê êxito nisso para a produção colombiana? Betty, a Feia, em termos de público ou audiência, é um êxito maravilhoso. Mas o problema é que com essa telenovela não estamos falando com latino-americanos, mas usando a genialidade de um roteirista de usar um tema-chave, como é o de Branca de Neve. Nas versões de Betty, o único aspecto que resta do original é o núcleo arquetípico da beleza oculta. É diferente, por exemplo, de novelas como Roque Santeiro e Terra Nostra, que apresentam uma visão brasileira sobre as diferentes situações. Betty é um modelo que pode ser feito pelos alemães, basta mudar as tramas. Isso não tem nada a ver com a Colômbia, nem com a América Latina. De alguma forma, essa novela é o modelo que a globalização da TV está buscando: não é remake, é transformação, que permite que Betty seja alemã, norte-americana, espanhola... A versão americana, Ugly Betty, tem colorido latino caricato, como um Almodóvar colombiano, não?Sim, é uma representação dos latinos como um todo, não especificamente dos colombianos. É curioso: os norte-americanos fizeram, à sua maneira, uma caricatura que os permite seguir nos tratando como exóticos, não como interlocutores. Não é, então, como se os EUA tivessem se rendido a Betty, mas como se tivessem deglutido a Betty...Claro, se apropriaram e construíram o estereótipo latino. Porque Betty, a Feia se presta a isso. É uma tradução perversa porque o original colombiano não é caricatura. A globalização da televisão não é um processo de internacionalização, de exportar conteúdo de um país a outro, não é isso. É algo mais complexo, não é a invasão de um país por produtos estrangeiros, mas uma mudança das condições em que sentimos a cultura própria. Isso será acentuado pela TV digital? Pois, com a explosão de canais, vai surgir demanda por conteúdo.Sim. Globo já faz parcerias com produtoras independentes. Logo a demanda de conteúdos vai ser tão grande que nenhuma emissora será capaz de produzir tanto. Não sabemos como serão configurados os gostos das diversas classes sociais quando tiverem a liberdade de escolher não uma faixa de programação, mas produtos audiovisuais. O que seria uma boa telenovela?Não avalio assim, boa ou má. Eu me liguei a esse tema pensando nas pessoas que assistem à telenovela. Por que a América Latina escolheu a telenovela como seu gênero preferido? Isso me interessou. Viajei pela América formando grupos de pesquisa. Descobri, por exemplo, que as pessoas desfrutam mais da telenovela quando alguém conta o que se passou do que quando assistem. A maior felicidade para uma amiga sua é quando você diz que não pôde ver o capítulo de ontem e ela pode lhe contar tudo. E, quando começa a contar, já não se sabe o que é a telenovela e o que é a sua própria vida. A novela é um gênero cuja identificação, de alguma forma, anula a representação e o que as pessoas acabam vendo é a si mesmas. Esse aspecto que une as pessoas não fica ameaçado pela pulverização da audiência?Duvido que as pessoas possam prescindir da novela. O que vai acontecer é que vai haver muito mais tipos de telenovela. Nossas sociedades são frágeis, temos muitos conflitos. Ter em comum o que vemos na TV é importante para nossa socialização.

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