''O que me fascina são os elementos desumanos''

João Gilberto Noll fala da seu mais novo trabalho, o primordial Acenos e Afagos

Ubiratan Brasil, PARATY, O Estadao de S.Paulo

04 de julho de 2008 | 00h00

O escritor João Gilberto Noll vibrou ao ser convidado para dividir hoje uma mesa na Flip com a cineasta argentina Lucrecia Martel. "Sou um cinéfilo nato, vou ao cinema ao menos três vezes por semana e, nesses dias, assisti ao primeiro filme dela, O Pântano", comenta o escritor. "Fiquei fascinado com a forma como Lucrécia trata o corpo humano e sua relação com sangue, com sujeira."O físico, aliás, continua primordial na obra de Noll com o lançamento de Acenos e Afagos (Record, 208 páginas, R$ 32), seu mais recente romance em que a carnalidade ocupa um espaço especial. Trata-se da história de um homem casado e com filhos que desenvolve uma vibrante experiência homoerótica, especialmente uma paixão platônica por um amigo de infância, identificado apenas como "engenheiro".Na verdade, também o narrador não é nomeado, o que vem acontecendo nos recentes livros de Noll, mas, assim como naqueles, aqui também não é um dado necessário ? mais que narrar uma história, Noll exercita novamente a linguagem, o que o distingue na moderna literatura brasileira."Sou um escritor de linguagem: experimentá-la é o que me interessa, não o simples narrar de uma história", comenta. "Quando começo a escrever, não sei para onde estou indo até que, de repente, encontro o tom. Aí, volto ao início e retrabalho a linguagem para que o todo fique adequado."É o que justifica a narrativa desdobrada em períodos longos de Acenos e Afagos, que formam um único e imenso parágrafo. Para Noll, a frase não se contém em si mesma, refletindo o estado de espírito do narrador. "Ele tem urgência, necessita traduzir seus pensamentos em palavras e, assim, meu estilo se transforma em uma somatização daquilo que transborda dentro de mim e que parece não ter ponto final."Ao mesmo tempo em que espelha o imediatismo do homem atual, cuja pressa parece não ter fim, tal fórmula revela também uma transgressão, função necessária, segundo o escritor, para a sobrevivência da literatura e da arte. "O que me fascina é a atração pelo mal, são os elementos desumanos, que evitam justamente trilhar o caminho do politicamente correto que torna a literatura apenas edificante."Já a busca insana pelo sexo a que se atira o narrador é vista por Noll como uma conseqüência do avançar da idade. "Com o tempo, a carnalidade torna-se algo que é nostálgico e muito agudo", explica. "A libido é, para mim, um desejo sem controle de se fundir com o outro, o que permite que o trabalho com a linguagem também seja sensual."

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