O que as notas podem ensinar sobre questões políticas e sociais

Em A Música Desperta o Tempo, intérprete deixa clara a sua crença na capacidade artística de transformação da realidade

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

Há duas vertentes na produção intelectual de Daniel Barenboim que dialogam entre si e ao mesmo tempo reivindicam vida própria. Em seu site, o artista escreve longos ensaios nos quais se coloca perante questões que vão desde a filosofia de Espinoza até os conflitos no Oriente Médio e a defesa da criação de um Estado palestino. Já em seus livros, o que lemos é uma tentativa de estabelecer uma relação simbiótica entre música e sociedade, sem, contudo, atribuir a ela, diz o maestro e pianista, qualquer conotação política.

 

Assista trechos de dois dos DVDs

É esse o caso de A Música Desperta o Tempo, que a Martins lança no Brasil (tradução de Eni Rodrigues e Irene Aron, 168 págs., R$ 34,90). No primeiro ensaio, Barenboim nos conduz ao longo de uma série de conceitos musicais e o modo como podem nos ensinar sobre a vida. "A música não é separada do mundo; ela pode nos ajudar a esquecer e, ao mesmo tempo, a compreender nós mesmos. (...) Os jovens que experimentam o sentimento da paixão pela primeira vez e perdem todo o senso de disciplina podem observar, por intermédio da música, como paixão e disciplina podem coexistir (...). Afinal, o que talvez seja a lição mais difícil para o ser humano - aprender a viver com disciplina ainda que com paixão - transparece (...) em cada frase musical."

Não há em passagens como essa conotação política óbvia. Adiante, porém, quando discute conceitos de interpretação musical e tenta aplicá-los à realidade geopolítica, a questão se embaralha. Força e intensidade, por exemplo, serviriam tanto à busca por uma versão aprofundada de uma obra musical quanto para as negociações - como entre israelenses e palestinos. Força é tocar alto; é agressão. Intensidade é descobrir relações; é dialogar. Essas ideias ganham mais significado quando levamos em consideração o projeto, dele com o intelectual palestino Edward W. Said, da criação de uma orquestra (tema de outro ensaio) com músicos de origem judaica e árabe para apresentações, seminários e grupos de estudo. Segundo Barenboim, a proposta é mostrar a possibilidade de convivência. Mas há, claro, uma conotação política em passagens assim.

De qualquer forma, podemos encontrar um meio-termo. Muitos comentaristas veem em colocações como essa ingenuidade ou, no pior dos casos, um quê panfletário. Talvez não seja necessário ir tão longe. Barenboim em seu livro mostra isso claramente: acredita no poder intrínseco, estético, da arte. Ao mesmo tempo, vê a interpretação musical como a discussão de uma ideia. Toda ideia é política? Para Barenboim, ideias são simplesmente necessárias.

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