O que acontece se a arte vira produto, mera mercadoria?

Esse é o tema da criação cênica da Cia. Kiwi, que tem música ao vivo, mescla de gêneros e une peças e textos teóricos

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

18 de janeiro de 2008 | 00h00

Em dezembro, grupos teatrais de diferentes Estados reuniram-se em Porto Alegre para discutir sua arte. Entre os temas em pauta a dificuldade de compreender o teatro como bem simbólico e direito coletivo numa sociedade em que o conceito de cidadão vem sendo substituído pelo de consumidor. A preocupação com a transformação da arte em mera mercadoria foi tema central da discussão e também perpassa a entrevista do diretor Antunes Filho, publicada nessa edição.Assim, não é fruto do acaso que Teatro Mercadoria # 1 (leia situação 1) seja o título da nova criação cênica da Cia. Kiwi, dirigida por Fernando Kinas, que inicia temporada no Teatro Fábrica. O objetivo do diretor e seu grupo - os atores Fabio Salvatti, Fernanda Azevedo, Lori Santos, Márcia Bechara, Valéria di Pietro; os músicos Eduardo Contrera e Elaine Giacomelli e o artista visual Gavin Adams, responsável pela edição de imagens - é provocar uma reflexão sobre a mercantilização da arte e da vida. E, claro, as implicações disso nas relações sociais e humanas. ''''Que sociedade temos? Que sociedade queremos?'''' foram perguntas ouvidas em Porto Alegre.O trabalho apresentado pela Cia. Kiwi no palco do Fábrica é o primeiro desdobramento de um projeto mais amplo, apoiado pelo Programa de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, que inclui oficinas e um debate (leia ao lado). A meta é criar ainda dois outros espetáculos. O título e a relação dos autores cujos textos serão apropriados para as cenas - Walter Benjamin, Guy Debord, Adorno, Brecht, Karl Marx, Mario Benedetti, Rosa Luxemburgo e Büchner - fazem temer por um teatro nos moldes do CPC da UNE em sua faceta mais panfletária, no sentido do discurso político direto.''''Sem desfazer desse teatro que teve importância em sua época, se com isso você quer dizer dogmático, não é o caso. Assumimos que o tema é complexo, mas temos, sim, o interesse em questões que comumente não são tratadas cenicamente'''', diz Kinas. ''''Só para não falar no abstrato, posso dizer que tem muita música ao vivo em cena, são interpretados trechos das peças Woyzeck, de Büchner, e Os Sete Pecados Capitais, de Brecht, há textos teóricos e imagens projetadas que se articulam para criar uma teia de significações. Não há dedo em riste.''''Evidentemente que não há texto que não possa se tornar ''''teatral'''' e bem articulados e Kinas argumenta com o próprio pensamento que funda seu trabalho para explicar o título. ''''Não estou preocupado em criar um título sedutor para vender um produto.'''' Faz todo sentido. Nesse espetáculo, que promete mesclar diferentes formatos - festa, sarau, intervenção, comédia, farsa, instalação, performance e happening -, espectadores e atores acomodam-se juntos, no palco. ProgramaçãoOficinas Atelier de Plágio-CombinaçãoÉ a construção de objetos estéticos a partir de material cultural preexistenteCom Fabio SalvattiDe 11 a 15, das 14 às 18 hTeatro FábricaTeatro, Espetáculo e MercadoriaOs modos de produção teatral nas sociedades regidas pelo modelo espetacular (segundo a definição de Guy Debord) e pela forma-mercadoria.Com Fernando Kinas19 a 22/2, das 14 às 18 hTodos os SonsO objetivo da oficina é o de estimular a compreensão da expressão vocal como ferramenta cênica, trabalhando principalmente com o canto popular e erudito e o descanto.Com Chiris GomesFevereiro (locais e horários variados)DebateArte, Mercadoria e EspetáculoCom a professora de economia da USP Leda Paulani e ativistas artísticos da periferia de São PauloDia 20/2, às 20 hMais informações e inscrições no site www.kiwiciadeteatro.com.brServiço Teatro / Mercadoria. 100 min. 12 anos. Teatro Fábrica. R. da Consolação, 1.623, 3255-5922. 5.ª e 6.ª, 21 h. R$ 12. Até 29/2

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