O público

Stanislavski disse que a alma do teatro é o ator. Como autor, demorei para entender. Eu pensava que o conflito dramático, a trama, as contradições de cada personagens, suas ambições e frustrações, fossem o motor do teatro. Até fazer a associação:1. Coloque num palco o Kassab para ler o famoso monólogo de Hamlet: "O que é mais nobre, sofrer na alma as flechas da fortuna ultrajante ou pegar em armas contra um mar de dores...?"2. Agora pense em Paulo Autran. Entra fumando solenemente num palco vazio e sem luz, para diante da plateia, pigarreia, apaga o cigarro e começa: "Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos... promulgamos." Eu esvaziaria a carteira para assistir a Autran interpretando a Constituição Brasileira. E pediria cachê para ver o prefeito representar o melhor texto do maior dramaturgo de todos os tempos. O ator é a alma do teatro.Me lembro de Pedro Cardoso, em 5 Vezes Comédia, sucesso da trupe de Hamilton Vaz Pereira, que lotava o antigo Palace (2 mil lugares). Ele entrava pela plateia e congelava. Um foco de luz o descobria. Ríamos. Gargalhávamos. Por minutos. E ele não se mexia. Que carisma. Que magia. Que mistério... Plínio Marcos falava do dia em que Procópio Ferreira levou Deus lhe Pague para Santos. A expectativa, enorme. Todos se prepararam. Chegou acenando num carro aberto. O povo se aglomerou nas ruas eufórico. O carro deu uma volta pela praça lotada. Parou. O ator se levantou e saudou. Era o ator mais popular do País, um mago oriundo do circo, que dominava a plateia. E Plínio decidiu ser teatrólogo.Quando resolvi escrever para teatro, muitos amigos me desaconselharam. Eu tinha dois romances na lista dos mais vendidos, uma boa editora, era traduzido. Por que largar o cais acolhedor? No mais, a dramaturgia vivia uma crise que a levara à UTI. O "espetáculo de encenador" (grandes diretores que priorizavam a carpintaria e não o texto) cortava o pescoço do autor contemporâneo. E, como o cinema brasileiro, o teatro perdia público. Era tempo da camiseta vendida pelos Cassetas: "Vá ao teatro, mas não me convide."Fui para o teatro para conviver com o teatro, fazer parte do processo, ter amigos ao redor, entender a carpintaria e como se comunicar, ter um público à frente, para jogar com ele. Recentemente, descobri. O público é o coração do teatro. É quem dita o ritmo e dá vida ao espetáculo, faz correr o sangue nas veias do ator. É o órgão escondido na penumbra, que é vital. Sem ele, há o nada. Augusto Boal criou o Teatro Invisível. Atores iam para a rua e representavam de surpresa entre pedestres. Nada de luz, cenário. No entanto, sem o público, não seria teatro. Com um famoso curta-metragem, em que a estrela é um saco de lixo pairando no ar. Poesia...Paradoxalmente, como autor, não escrevo para o público. Nem sei como seria escrever pensando nele. Escrevemos para nós mesmos, já anunciaram diversos escritores. Acredite.Mais contradições. Como diretor, levando em conta que a maioria das minhas peças é comédia, sempre peço para o elenco: "desconsidere o público"; "não busque a risada da piada que funcionou ontem." Se estrepa o ator que prevê a reação da plateia. Ela surpreende. Ri de uma piada num dia, não ri no outro. Podem não estar rindo, mas estão adorando. Ou riem, porque a risada histriônica de um espectador contagia. E tem dia que alguém chora num momento inesperado. O truque de se fazer humor é não ser engraçado. Dá pra entender? Quando a personagem leva a sério o seu ridículo, a risada aparece. Quando fala com verdade o maior absurdo, porque acredita naquilo, a comunicação rola.O público é inteligente. Se não riu, é porque não funcionou - o timing estava errado, a interpretação desandou. Uma das minhas primeiras lições teatrais aconteceu na minha segunda peça, E Aí, Comeu?, uma comédia dolorida. Em algumas piadas, o público ria antes de ela ser dita. Na melhor piada da peça, a plateia vinha abaixo duas falas antes. Ela nem precisava se completar. Adivinhavam o que a personagem dizia, em consequência da condução dos diálogos. Diria o que o público diria.Muitas vezes sei onde vão rir e chorar. Porque é onde ri e chorei quando escrevi. Nos ensaios, conduzimos o olhar, a posição do ator e o tempo, para, com um morteiro numa trincheira, jogarmos o artefato. Quando explode, o ator se sente realizado. É. O público é vital.Entender por que o fazer teatral, apesar de ganharmos pouco (muitas vezes pagarmos para trabalhar), seduz, não é difícil. Em todo espetáculo, há uma peça dentro de outra. Brincamos. Nos tornamos crianças que chamam a atenção com travessuras. O autor se delicia ao ver seus pequenos traumas se tornarem presentes. Se vinga, ao retratar personagens que, na vida real, amou ou odiou. Se diverte ao ver no palco a frase inoportuna que o médico lhe disse, a reclamação da mulher, a queixa da mãe, a trapalhada do amigo. Sem contar as piadas internas.Na peça A Noite Mais Fria do Ano, há uma guerra fria em torno do conhaque de um dos atores, Hugo Possolo. Ele traz um fajuto, para os outros roubarem, e esconde um espanhol, para beber em cena. O problema é que descobriram que o da cena é melhor, e esvaziam o copo do personagem. Então, rolaram copos escondidos entre objetos de cena. No de vidro, o conhaque barato. Num de plástico, escondido na estante do apartamento do personagem, o bom. A fraude foi descoberta. Passaram a enxugar o bom e o barato.Outra garrafa de espanhol foi deixada na coxia. Não é que um dos atores, Bortolotto, que deve entrar bebendo no meio da peça, apareceu em cena com a garrafa do conhaque espanhol. Possolo introduziu, na mesma hora, no seu texto: "O meu conhaque caro, não!" Ao final do espetáculo, elogiei-os. Foi a melhor piada da peça.

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