''O problema é o cartola''

O problema do futebol brasileiro "são os cartolas, a corrupção, a falta de profissionalismo de tantos empresários de clubes". É Pelé, o eterno Rei do Futebol, que mete a colher no debate sobre a falência do futebol brasileiro, mergulhado em dívidas e vendo seus jovens talentos irem embora antes dos 20 anos.Olhar de guerreiro, sorriso de criança e paciência de santo - tantos os abraços e fotos que enfrentou com alegria por quase uma hora. Assim o Rei falou à coluna quarta à noite, em festa organizada pelo amigo Anibal Massaini Neto no restaurante Gourmet do Mercado Municipal. Lembrou, nessa conversa, que já em 1958, na primeira Copa que o Brasil ganhou, na Suécia, craques como Mazzola, Dino Sani e Didi também foram embora. E disparou: "É inacreditável que clubes com uma torcida imensa, como Flamengo ou Corinthians, ainda não tenham seu estádio, coisa que qualquer time pequeno da Europa tem." Durante a festa para marcar os 60 anos de fundação da Cinedistri - hoje dedicada à produção de filmes e alguma distribuição para TV e Home Video - Massaini, seu irmão Oswaldo, exibidores e distribbuidores trocavam histórias de quando o Brasil tinha 3.700 cinemas. Foi então que o Rei (que terá em breve seu museu, visto que o BNDES assina hoje patrocínio para o Museu Pelé em Santos) chegou e roubou a cena. Inteiríssimo, ele sorria e provocava corintianos. Jovens e veteranos o cercavam, o cozinheiro deixou de lado o bacião onde preparava uma gigantesca paella. Todos queriam chegar perto do amigo de Massaini - que produziu o best seller Pelé Eterno. O anfitrião o salvou e o sentou a um canto para conversar.É boa a ideia de Luiz Belluzzo, do Palmeiras, de criar uma Liga nacional e um fundo para comprar jogadores? Vamos encarar a verdade. O grande problema do nosso futebol é a corrupção, a falta de profissionalismo, o abuso de tantos empresários nos clubes. Quando ministro, durante o governo FHC, liberei verbas para o Vasco, o Flamengo, o Corinthians, o Cruzeiro, e tantos outros, principalmente para construírem estádios. O dinheiro sumiu e ninguém deu explicação de nada. Nenhum estádio? O Cruzeiro ainda fez a Toca da Raposa, em Belo Horizonte. De resto, vimos coisas como o Eurico Miranda saindo do Maracanâ com a renda do jogo do Vasco e informando depois que foi assaltado no caminho para casa. A saída é os clubes se tornarem empresas? Precisamos aprender com o que existe lá fora. E eu me lembro dos anos 60, jogando pelo Santos na Itália, na Espanha, Inglaterra, Alemanha, Holanda, que os times já se comportavam como empresas. Todos, mesmo os menores, tinham um estádio, que é a casa do clube. Depois dele é que você faz outras coisas.Vender carnê de entradas de campeonatos, como se faz na Europa, também é positivo: garante faturamento mínimo e planejamento. Aqui não se faz nada disso. Isto garantiria força para concorrer com os europeus? Olha, essa história de que perdemos jogadores por falta de força financeira é problema do mundo inteiro. Acontece na Argentina, na América Latina toda, na África. Não é essa a questão. Quando fomos campeões do mundo na Suécia, em 1958, lembro-me que muitos jogadores nossos foram jogar fora. O Mazzola foi para o Milan, o Didi para o Real Madrid, o Dino Sani para o Roma, também foram o Sormani e o Germano... Já acontecia isso naquele tempo, e todos sobrevivemos. Mas há clubes se profissionalizando por aqui. Quais você acha os mais preparados? Temos vários. O Palmeiras, com o Belluzzo, creio que vai no rumo certo. O São Paulo também, você já ouviu falar do São Paulo atrasar, ter algum problema desse tipo? Mas os que existem são exceções. Veja por exemplo o que acontece no Rio de Janeiro. Tem quatro grandes clubes, todos falidos. Fico imaginando um time como o Flamengo, com a torcida que tem, o que não faria se fosse bem administrado. Passado tanto tempo, quem você acha, hoje, que foi o zagueiro que o marcou melhor enquanto jogava? Lembro do Aldemar, do Palmeiras, mas que jogou pouco tempo. Também o Dias, do São Paulo. E tinha o Peter, um zagueiro do Botafogo de Ribeirão Preto.E fora do Brasil? O Bob Moore, da Inglaterra. E, algumas vezes, o Beckenbauer, quando os alemães mexiam no time e o colocavam pra me acompanhar. Esses eram duros. E o jogo mais importante de sua carreira? Ah, foram tantos, nem lembro de todos eles. Mas guardo na memória aquela decisão contra o Benfica, em 1962, pela Copa Mundial de Clubes. Tínhamos ganho de 3 a 2 no Maracanã e fomos a Lisboa para o segundo jogo.Vencemos por 5 a 2.

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