O pregador desceu do púlpito para ir ao cinema e teatro

Pedro Paulo Rangel e Lima Duarte falam de sermões sobre a fragilidade humana

Francisco Quinteiro Pires e Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

02 Fevereiro 2008 | 00h00

Nos últimos 13 anos, o padre Antônio Vieira desceu duas vezes do púlpito para conquistar fiéis no teatro e no cinema. A primeira vez foi em 1994, quando Pedro Paulo Rangel o encarnou no monólogo Sermão da Quarta-Feira de Cinza, dirigido por Moacir Chaves. A segunda se deu em Palavra e Utopia (2000), filme de Manoel de Oliveira. Lima Duarte representou o jesuíta na maturidade. Além de terem sido Vieira, os dois atores têm outro ponto em comum: comentam sermões em que o pregador português ressalta a fragilidade humana. ''''Meu primeiro contato com Vieira foi na escola, ficava aterrorizado ao analisar as frases dos Sermões'''', lembra Rangel. Mas ao ser chamado para representá-lo, não pensou nem meia vez. ''''E foi a peça teatral mais importante que eu fiz.'''' O ator carioca recebeu três prêmios pela atuação no monólogo de 58 minutos: Shell, Molière e Mambembe. Dividido em sete partes, O Sermão da Quarta-Feira de Cinza foi pregado na Igreja de S. Antônio dos Portugueses (Roma), em 1672. O mote é uma passagem do Livro de Jó: ''''Lembra-te homem, que és pó, e em pó te hás de converter.'''' O problema não era convencer que o homem veio do pó, ao qual logo voltaria, mas que já era pó em vida, segundo Rangel. ''''Esse sermão não deixa você pecar por vaidade, tudo o que a gente tem vira terra'''', diz. Neste ano, estão previstas encenações da peça na PUC-Rio. Lima Duarte nunca esqueceu os sermões decorados para as filmagens de Palavra e Utopia. Recita de cor um trecho do preferido: Sermão do Quarto Domingo do Advento (1657), pregado na Igreja Matriz de S. Luís do Maranhão. ''''Comove-me muito mais a imagem dos meus pecados do que essa imagem de Cristo crucificado. Porque diante da imagem de Cristo crucificado, eu sou levado a ensoberbecer-me por ver o preço pelo qual Deus me comprou. Mas diante da imagem dos meus pecados, eu sou levado a apequenar-me, por ver o preço pelo qual eu me vendi. Quando vejo que Ele me comprou com todo o seu sangue, eu não posso deixar de pensar que eu sou muito, eu valho muito. Mas quando vejo que eu me vendi pelos nadas do mundo, aí penso que sou nada, valho mesmo é nada.'''' Lima tem na parede de casa uma fotografia em tamanho gigante, na qual aparece abraçado ao diretor. ''''Ensinei a ele a música História do Brasil (Lamartine Babo). Ele adorou e escreveu na foto: ''''Que bom que Deus inventou o Brasil, mesmo dois meses depois do carnaval''''.'''' Lima conhecia o padre português superficialmente, ''''assim como todo mundo conhece''''. Ao ser chamado para o filme, mergulhou na biografia do jesuíta antes de passar aos Sermões. Ele decorou os textos em seu sítio, no interior de São Paulo, lendo-os em voz alta e andando pela mata. ''''Os caboclos passavam e diziam: ''''Ih, o Zeca Diabo ficou louco''''.'''' O personagem que Lima viveu em O Bem-Amado o levou, em parte, a ser chamado por Manoel de Oliveira - ''''ele adora novela''''. Sua participação em outro filme português, O Rio do Ouro (1998), de Paulo Rocha, contribuiu para a escalação, além da cor da pele, já que ''''o padre Antônio Vieira era negróide'''' como ele. As filmagens das cenas de Lima se realizaram em Portugal e no Brasil. Por meio da leitura dos Sermões, o ator mineiro aproximou-se do homem por trás do educador, orador e escritor para fazer a interpretação. Ao saber que no fim do ano Manoel de Oliveira celebra um século de vida, Lima pensa em ir para o Porto para abraçá-lo novamente.

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