O prazer único de narrativas longas

Minha mulher olhou com desconfiança quando entrei em casa com o livro embaixo do braço. Nada de muito óbvio, apenas uma inclinação da cabeça. Mas a gente percebe. Trazia na cara uma ponta de interrogação, que traduzi para: ''''E em que horário do dia o senhor pretende se dedicar a isso?''''É que a obra em questão, que ganhei de presente, tem 1.493 páginas. É enorme, de capa dura, um livro lindo. Chama-se A Grande Guerra pela Civilização: A Conquista do Oriente Médio, do correspondente de guerra Robert Fisk (Planeta, 2005).Pensei em incluí-lo, sem alarde, na bagagem da pequena viagem que vamos fazer antes do ano-novo com meu filho caçula, Samuel. Teria passado batido, creio, não fossem as semanas dedicadas, recentemente, à leitura de outro livro de envergadura, este sobre os anos de Dwight D. Eisenhower como chefe das forças aliadas na Europa durante a 2ª Guerra Mundial. O título deste último é Comandante Supremo (The Supreme Commander), foi escrito pelo historiador Stephen E. Ambrose, tem umas 700 páginas, e quando soube do que se tratava o comentário da minha querida mulher foi: nenhuma mulher nunca leu esse livro.A observação me pegou de surpresa. Jamais me ocorreria tal consideração. É um chute, claro, mas depois de pensar um pouco, tive de concordar. Era possível que nenhuma representante do chamado ''''sexo frágil'''' tivesse lido aquela obra.As mulheres não se interessam muito pela guerra, não como literatura, ao menos. Apesar da igualdade crescente entre os sexos, depois do feminismo, este ainda é, de modo geral, um assunto para homens. Setecentas páginas dedicadas às pressões sofridas pelo Eisenhower durante a campanha dos aliados não é a idéia de lazer de mulher nenhuma, ou quase, imagino. É apenas chato.Mas a história de Eisenhower, que conhecia mal, me fisgou. O livro de Ambrose, um dos grandes historiadores dos Estados Unidos, que morreu há pouco, trata-o menos como um guerreiro e mais como um administrador brilhante. Sua missão, enquanto soldado, era derrotar a Alemanha nazista. Mas seu cotidiano durante os últimos anos da guerra era marcado pela administração dos interesses e egos dos seus aliados, sobretudo. Entre os quais figuravam personagens como Winston Churchill, Charles de Gaulle, Josef Stalin, Franklin Delano Roosevelt, e generais como George Patton e Bernard Montgomery - bem voluntariosos estes dois, diga-se. Todos queriam dar palpites, impor suas vontades, dizer como a guerra deveria ser conduzida. A posição de Eisenhower me lembrou a do técnico da seleção brasileira em tempos de Copa do Mundo, guardadas as devidas proporções, claro. Afinal, o esporte é apenas a simulação da guerra, se tanto. Mas desconfio que, diferentemente da minha mulher, Dunga iria achar o livro interessante.O desafio do Eisenhower era conseguir que os aliados, de nacionalidades distintas, trabalhassem em conjunto, como equipe, ou ao menos não se atrapalhassem. Sua eficácia, na avaliação do Ambrose, era resultado da capacidade de ouvir, compreender e, na medida do possível, acomodar os desejos de cada um, sem nunca se desviar do seu objetivo. No fim, a liderança, mesmo em tempos sangrentos, de horrores indizíveis, dependia menos da força e mais da sensibilidade humana.Foi essa a lição que extraí do livro, ao menos. Também aprendi, ou melhor, lembrei-me de que livro grande traz um prazer único. Há uma tendência recente de reduzir todos os textos impressos. Diz-se que falta ao leitor de hoje paciência ou tempo ou as duas coisas. Mas os livros de Harry Potter estão aí para provar o contrário. A verdade é que qualquer narrativa que se sustente por mais de 200 ou 300 páginas é boa quase que por definição. Vou colocar A Grande Guerra pela Civilização, de Robert Fisk, na minha mala de viagem. Feriado também é para essas coisas.

Matthew Shirts, O Estadao de S.Paulo

31 de dezembro de 2007 | 00h00

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