O poeta do amor e da liberdade

Poemas de Solano Trindade ganham reedição no ano do seu centenário

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

25 de junho de 2008 | 00h00

Os princípios do multiartista pernambucano Francisco Solano Trindade podem ser resumidos no seguinte tripé: amor, liberdade e justiça. Esses valores ampararam toda a produção do teatrólogo, folclorista, cineasta, ator, pintor, ator e poeta que morreu em 19 de fevereiro de 1974. O lançamento de dois livros pela Nova Alexandria - Poemas Antológicos e Tem Gente Com Fome -, para comemorar o centenário de seu nascimento, em 24 de julho de 1908, rememora o trabalho de preservação da cultura popular pelo artista recifense.Esse esforço será lembrado na Casa das Rosas hoje, às 19h30, com o pocket show Cantando Solano - Meu Avô, encenado por seus netos. As composições do espetáculo são baseadas nos poemas de Solano e nos ritmos do candomblé, além do maracatu, do coco e do samba.Solano Trindade entrou para a história como um dos maiores defensores da cultura brasileira de origem africana. Poemas Antológicos (168 págs., R$ 35) mostra a simplicidade de um poeta cuja inspiração nasce do contato com os dramas do povo. É uma oportunidade de entender por que Solano foi elogiado por Carlos Drummond de Andrade, Darcy Ribeiro e Sérgio Milliet, por exemplo. Os quatro livros de Solano - Canto Negro, Poemas de Uma Vida Simples, Seis Tempos de Poesia e Cantares ao Meu Povo - estão fora de catálogo.Sua atuação artística esteve sempre associada ao engajamento político-social. ''Além de ter dado voz aos oprimidos por meio da dança, dos poemas e das artes plásticas, Solano Trindade, com sua militância, abriu caminhos para as reivindicações da comunidade afro, até mesmo levantando sua auto-estima'', diz Raquel Trindade, um dos seus quatro filhos e fundadora do Teatro Popular Solano Trindade.Segundo o professor aposentado da USP Zenir Campos Reis, organizador da antologia, a poesia de Solano Trindade foi escrita para ser declamada e não para a leitura silenciosa. Ela precisa da voz e do gesto, do corpo. Solano se forjou na cultura popular pernambucana e fundou o Teatro Popular Brasileiro (TPB) com a primeira mulher, Maria Margarida, e o sociólogo Edison Carneiro em 1950, no Rio. Nos anos 1960, ele se radicou na cidade de Embu, ajudando a transformá-la em pólo cultural do Estado de São Paulo.Com o TPB, ele fez uma turnê pela Europa, em 1955, se apresentado em cidades da Polônia e da então Checoslováquia. Quinze anos antes, Solano fundara a Frente Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-Brasileira com José Vicente Lima e Barros, o Mulato.Poemas Antológicos está dividido em quatro seções:Vida, Nossa Vida; Deuses e Raízes; Amor À Flor da Pele; e Resistência e Luta. As ilustrações reproduzem pinturas primitivistas de Raquel Trindade. A divisão adotada revela uma das principais características de Solano: ele era um poeta que se sujava na vida, se misturava ao que era humano. Seu modo de conceber o mundo se apóia no candomblé. Seu modo de entender e praticar o amor vem daí: não existe a separação católica entre alma e corpo, ambos se integram. Como nos versos de Uma Negra Me Levou a Deus - ''A negra bonita/ toda de branco/ de Bíblia na mão/ entrou na igreja/ Ali estava o Deus/ que eu procurava.'' Sensualidade e lirismo fazem par.Tem Gente Com Fome (24 págs., R$ 22) é um poema que, com as ilustrações de Murilo Silva e Cintia Viana, se transformou em livro infanto-juvenil. Musicado pelo grupo Secos e Molhados, foi censurado pelo regime militar. Tem Gente... fala do trem do ramal da Leopoldina, no Rio, que leva a gente humilde de casa para o trabalho e vice-versa. ''Trem sujo da Leopoldina/ Correndo correndo,/ Parece dizer:/ Tem Gente com fome/ Tem Gente com Fome/ Tem Gente com Fome...'' O ritmo em que o trem se desloca é o mesmo, de modo a sugerir aos passageiros que a situação de penúria parece imutável. Se eles reclamarem, sentirão a repressão do poder. ''Mas o freio de ar/ Todo autoritário,/ Manda o trem calar:/ Psiuuuuu...'' Solano Trindade não desistia da busca da liberdade.Advertência Há poetas que só fazem versos de amorHá poetas herméticos e concretistasenquanto se fabricam bombas atômicas e de hidrogênioenquanto se preparamexércitos para guerraenquanto a fome estiola os povos...Depoiseles farão versos de pavor e de remorsoe não escaparão ao castigoporque a guerra e a fometambém os atingirãoe os poetas cairão no esquecimento...Serviço Homenagem a Solano Trindade. Casa das Rosas. Avenida Paulista, 37. Hoje, às 19h30

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