O pesadelo mais político de Bergman

Diretor mirou no nazismo em O Ovo da Serpente, mas o que seu filme de 1979 revela é a gênese do neoliberalismo

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

01 de abril de 2009 | 00h00

Ingmar Bergman havia iniciado os anos 1970 com A Paixão de Ana, flertou com Hollywood em A Hora do Amor e, em 1973, atingiu a culminância do seu cinema com a obra-prima Gritos e Sussurros. Era um autor no auge, que prosseguiu com Cenas de Um Casamento, A Flauta Mágica e Sonata de Outono e, então, de repente, sua vida virou um pesadelo. Bergman envolveu-se num imbróglio com o fisco sueco. Foi acusado de sonegação de impostos. Para fugir à prisão, isolou-se na Alemanha. Ele próprio admitiu, mais tarde, que essa foi a pior fase de sua vida.O diretor que filmava a angústia existencial, o que chamava de ?dor de dentes na alma?, experimentou um deslocamento que nunca sentira. Na Alemanha, como ?futurólogo do passado?, fez O Ovo da Serpente, em 1979. O filme desconcertou mesmo os admiradores mais fiéis, que não estavam acostumados a ver Bergman tão comprometido com a discussão de temas políticos, pois o ovo da serpente a que se refere o título é a gênese do nazismo. Bergman dizia que, sendo filho de pastor religioso, absorveu o cristianismo com o leite materno. O sexo e a culpa eram indissociáveis para ele. Em seus filmes, o gozo fugaz vira tormento permanente. O Ovo da Serpente trata da marcha do nazismo sobre Berlim, no emblemático ano de 1923, vista pelo ângulo da vida cotidiana de um judeu e uma cantora de café concerto. São acossados pela inflação e pelo bolchevismo. Essa história terminou assimilando outra que Bergman queria contar há tempos, sobre dois trapezistas obrigados a ficar em Varsóvia, durante a 2ª Guerra.O Ovo da Serpente causou estranhamento há 30 anos. Um Bergman ?diferente?, diziam os críticos, um tanto desapontados. Há hoje um movimento para reabilitar O Ovo da Serpente na obra do autor. Durante a Semana Bergman, em Farö, no ano passado, novos estudos redimensionaram o filme. O Ovo da Serpente virou agora obra profética. Bergman, um visionário? Ao mirar no nazismo, ele teria flagrado a gênese do neoliberalismo, por meio da importância que o dinheiro tem na trama. Liv Ullman e David Carradine formam a dupla principal. O lançamento da Versátil inclui trailers de outros filmes de Ingmar Bergman lançados pela distribuidora.

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