O Pelicano reforça a violência verbal de August Strindberg

Peça do autor sueco testemunha a amoralidade de uma família decadente

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

12 de agosto de 2009 | 00h00

Em uma casa gelada, mãe, filho, filha, genro e empregada remoem suas angústias e vociferam verdades dolorosas, tornando a convivência familiar em uma sessão contínua de troca de insultos. A violência verbal e emocional é uma das marcas definitivas de O Pelicano, peça que estreia hoje no Teatro Sérgio Cardoso. "Há muita semelhança com a forma como Nelson Rodrigues via a família", comenta Denise Weinberg, diretora da montagem. "Os pensamentos são perversos e sofisticados."Escrita em 1907 como uma peça de câmara, O Pelicano pertence ao grupo de textos com que o sueco August Strindberg (1849-1912) iniciava a militância por uma nova linguagem teatral - "É a forma dramática densa, de confrontos entre seres humanos que não param para conceder ao espectador o alívio de uma mudança de tonalidade ou a diversão de uma frase espirituosa que persiste em grande parte da sua obra, como um procedimento aprendido com a poética naturalista", escreveu a crítica Mariangela Alves de Lima, em artigo publicado no Caderno 2 em 2000.De fato, a mãe (Sheila Gonçalves) orgulha-se de ser uma espécie de pelicano para os filhos, ou seja, a ave que dá o próprio sangue para alimentar a cria. Na verdade, trata-se de uma mulher diabólica que, depois de apressar a morte do marido, casou a filha (Patricia Castilho) com seu próprio amante (Flavio Baiocchi), além de condenar o filho (Flavio Barollo) a um desespero alcoólico. Como testemunha da amoralidade e da avareza dessa família que, embora pobre, insiste em manter a aparência burguesa, está a empregada Margret (Mari Nogueira), há anos convivendo com a sordidez da casa."Vejo muitos ecos de Álbum de Família, especialmente na família que se destrói graças às suas paranoias e tabus", comenta Denise, que aprofundou seu estudo sobre Strindberg. "O Pelicano é uma das peças que inicia a fase mais íntima na carreira do autor, em contraste com os espetáculos mais grandiosos, que reuniam até 30 personagens." Realmente, depois de consagrado por textos épicos, Strindberg comprou um pequeno espaço em Estocolmo e lá fundou o Teatro Íntimo em busca de uma renovação teatral.Dali surgiram seis peças de câmara, todas fracasso de público e crítica. "Os textos trazem um pouco do que hoje entendemos como realismo: peças curtas, com ênfase nos diálogos de membros de famílias disfuncionais", conta Denise. "Um retrato muito íntimo e revelador, como se o espectador estivesse observando tudo pelo buraco de uma fechadura."Foi a partir desse conceito de duelo verbal que ela estruturou sua direção, concentrando no grupo de atores a tarefa de manter o clima sempre suspenso e, por extensão, a tensão na plateia. Para isso, o cenário resume-se a um quadrilátero, que se assemelha a um ringue de boxe. Também foram essenciais as intervenções de luz (de Wagner Pinto) e som (Eduardo Agni) como auxiliares nos momentos de mistério. "Há cenas fantasmagóricas, em que cadeiras se mexem e portas batem sozinhas."Além de interpretar o papel do filho, Flavio Barollo é o produtor que viabilizou o projeto - seu fascínio pela obra de Strindberg começou há dois anos, quando produziu o curta-metragem O Sangue pelos Filhos, baseado em O Pelicano. E, depois de ganhar um edital da Eletrobrás, foi possível viabilizar a montagem. O projeto continua, agora com a intenção de realizar um longa-metragem. A montagem que estreia hoje, aliás, foi convidada pela direção do Teatro Íntimo de Estocolmo para se apresentar lá em 2012, ano do centenário da morte do autor - afinal, foi O Pelicano que inaugurou aquele teatro, em 1907. ServiçoO Pelicano. 70 min. 14 anos. Teatro Sérgio Cardoso. Rua Rui Barbosa, 153, 3288-0136. 4.ª e 5.ª, 21h. R$ 20. Até 24/9

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