''O patrimonialismo tem de acabar''

Para Eduardo Giannetti da Fonseca, os governantes precisam parar de ver o poder como um bem para seu uso particular

Sonia Racy, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2009 | 00h00

No Dia da Independência, o Brasil tem o que comemorar? Segundo Eduardo Giannetti da Fonseca, sim. "No quadro da América Latina, o Brasil se diferencia para melhor". Enfurnado por 40 dias em Minas para acabar seu próximo livro - sobre o cérebro humano -, o economista vê na atual onda de crises do País uma antecipação da luta sucessória "e do natural desaquecimento de um governo e m fim de mandato". E o caso Sarney? "Existe um modo de fazer política chamado patrimonialismo, no qual o governante acha que é o dono do poder. Isso tem de acabar".

Giannetti é um otimista. Acha que "o melhor do Brasil está por vir" - numa comparação, por exemplo, com a Inglaterra, cuja glória maior acredita estar no passado, com os Shakespeare, Darwin ou Newton. Mas faz uma advertência: "Nenhum outro país foi país do futuro por tanto tempo." A seguir, trechos da entrevista:

O estado atual da política brasileira o preocupa? Sim. Gostaria de ver a política brasileira capaz de atrair gente de grande potencial de liderança, capacidade intelectual, mas não é o que acontece. Como professor, percebo um enorme interesse dos jovens pela política.. Mas a atual onda de crises é, de certo modo, uma antecipação do quadro sucessório e do natural desaquecimento de um governo em fim de mandato.

Esse problema começou lá atrás, com José Dirceu, depois Palocci... Mas agora a crise se instalou porque o PT se sentiu atropelado pelo PMDB, que o presidente Lula fez presidir o Congresso. Pois PSDB e DEM sozinhos não teriam poder para isso.

Essa deterioração pode levar a uma chavização, algo mais duro... No quadro da América Latina, o Brasil se diferencia para melhor. E Lula teve um comportamento impecável, diante da possibilidade de uma mudança na Constituição para viabilizar o terceiro mandato. O que poderia complicar seria mudar a regra no fim do jogo. Tudo indica que isso não vai acontecer.

Do que depende para acontecer? Vivemos num país onde a lei não é aplicada. No Japão eles se suicidam, na Inglaterra vão pra casa, aqui fica essa aura de impunidade... O brasileiro é pior que outros povos? Tem muita coisa aí. O que é preciso é não confundir a ordem constitucional, que é permanente, com o jogo político-partidário. Se essas duas coisas se misturam, o País entra numa encrenca séria. A ordem constitucional se tornar objeto de disputa circunstancial do jogo partidário, isso não pode, em nenhuma hipótese. Daí a importância de um Judiciário independente.

E o Judiciário funciona a contento? Acho que estamos muito melhor, nesse aspecto, do que vizinhos como Venezuela, Bolívia ou a própria Argentina. O Brasil hoje é internacionalmente percebido com um país bem ordenado, apesar da confusão do nosso jogo político.

Os povos precisam de regras, a natureza humana não é suficiente para criar um ambiente harmônico? Não é suficiente. Precisamos de regras, porque ninguém pode julgar em causa própria. Você não pode julgar, a cada vez, se vale a pena ou não mentir. Normas de convivência, aceitas por todos, devem estar acima de tudo. E com punições para quem as violar.

Muitos dizem que o brasileiro acha que lei é para os outros... Já estava no Noel Rosa a expressão "levar vantagem". Um matemático, von Neumann, o criador do computador, tem uma anedota ótima sobre a diferença entre o inglês, o alemão e o italiano. Pro inglês, tudo é permitido, exceto o que é proibido. Pro alemão, tudo é proibido, exceto o que é permitido. Para o latino, tudo o que é proibido é permitido.

É assim que funcionamos? Aqui temos mais dificuldades de assimilar o acordo sobre regras impessoais. Veja o nosso trânsito. Imagine se cada um julgar que sua urgência de chegar a algum lugar lhe dá o direito a transgredir certas normas. É o que você vê nas ruas. Ora, as normas são claras: não importa a pressa que você tenha, todo mundo vai ter que respeitar a lei, para o sistema funcionar.

No Senado, José Sarney age como se tivesse certos direitos porque está lá há 30 anos. E essa mentalidade é geral na casa. Esse é um modo de fazer política chamado patrimonialismo. Um sistema no qual o governante é o dono do poder e acha que pode usufruí-lo como bem entende. Isso tem de acabar. Nesse jogo, fica subjacente a ideia de que todos fazem o mesmo . Aí vem a tropa de choque do Sarney dizendo: "Se vocês forem até o fim vamos revelar o que sabemos..."

E até Fernando Gabeira, tido como dos mais éticos, admitiu que tinha avançado o sinal... E o PT, nisso tudo, montou uma máquina eleitoral inacreditável. São mais de 40 milhões de pessoas recebendo o Bolsa-Família. E agora criaram o complemento disso no Sudeste, que é o Minha Casa, Minha Vida. É clara a complementaridade desses dois programas, apresentados como quase uma propriedade de um grupo. Eu fico preocupado em ver o governo comemorando "mais 500 mil pessoas incorporadas ao Bolsa Família". Deviam é discutir por que mais de 40 milhões de brasileiros dependem de transferências de renda para manter um mínimo de dignidade.

Ainda assim, o brasileiro é mais feliz que outros povos? É difícil fazer comparações internacionais. O próprio termo "felicidade" é entendido de maneira diferente em cada lugar. Mas muitos viajantes já registraram aqui sua surpresa ao encontrar, numa população que vive precariamente, uma alegria de viver incrível.

Os brasileiros tivemos um período ditatorial e voltamos à democracia com pouquíssimo sangue. Há dois elementos que nos caracterizam no continente. Primeiro, a diferença entre o português e o espanhol - o português é mais sentimental, menos dramático. Outro elemento fundamental é a presença da cultura negra na nossa vida. Outro dia me dei conta de que os três maiores gênios universais da cultura brasileira vieram dela - Machado de Assis, Aleijadinho e Pelé.

Daqui a 20 anos, como você vê o País? Morei oito anos na Inglaterra. É um país onde o jovem, por mais que sonhe, não consegue conceber que as melhores coisas ainda estão por vir. Eles já tiveram, no passado, glórias como Shakespeare, o império, Darwin, Newton. O Brasil é exatamente o contrário. Aqui a gente tende a ver que o melhor ainda está por acontecer. O centro de gravidade do Brasil é o futuro.

Sempre dizem que somos o País do futuro. Sim, nenhum outro país foi país do futuro tanto tempo.

E como você vê o quadro eleitoral de 2010, com a entrada da Marina? Fiquei feliz com a disposição da Marina de entrar no páreo. É uma pessoa muito correta e vai trazer uma pauta ambiental muito importante. Mesmo que não tenha chances concretas de ganhar, ela valoriza a eleição ao entrar na disputa. Também acho que uma coisa boa que aconteceu, lá atrás, foi a maturidade com que foi feita a transição do FHC para o Lula. Torço muito para que isso permaneça. Para que, seja quem for o eleito, se mantenha a serenidade de uma transição compartilhada, cooperativa.

Direto da Fonte

Sonia Racy

Colaboração

Doris Bicudo doris.bicudo@grupoestado.com.br

Gabriel Manzano Filho gabriel.manzanofilho@grupoestado.com.br

Pedro Venceslau pedro.venceslau@grupoestado.com.br

Marilia Neustein marilia.neustein@grupoestado.com.br

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