O pai do teatro paulista moderno

A jornalista Marta Góes lança quarta-feira a biografia de Alfredo Mesquita, fundador da Escola de Arte Dramática da USP

Geraldo Galvão Ferraz, O Estadao de S.Paulo

01 de dezembro de 2007 | 00h00

A memória cultural brasileira é um mistério. Teses, biografias, exposições esmiúçam a vida e a obra de alguns poucos vultos insignes e é só. Uma espécie de conspiração silenciosa limita o estudo do que houve após a Semana de 22 e o romance de 30. Claro, as exceções existem: Oscar Niemeyer, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, João Cabral. Mas há um buraco negro na produção de pesquisas e análises sobre o que aconteceu dos anos 30 aos 60 da nossa vida cultural. Pode ser a sombra da ditadura getulista obscurecendo o muito que aconteceu e se fez em São Paulo e no Rio de Janeiro nessa época. Falar do resto do Brasil, então, é uma brincadeira.O Brasil não estava dormindo nesse período. Atrasado, afrancesado, vítima do seu gigantismo, do autoritarismo e da guerra mundial, tinha uma efervescência cultural, sobretudo nos centros maiores, que poderíamos invejar na atualidade. Mas, mesmo assim, as deficiências deste canto de mundo eram grandes.Foi nesse contexto que Alfredo Mesquita (1907-1987) exerceu seus dons de mágico e milagreiro, sobretudo com a fundação da Escola de Arte Dramática (EAD) em São Paulo. A jornalista e dramaturga Marta Góes pescou um peixe grande no seu anzol, ao escrever Alfredo Mesquita - Um Grã-Fino na Contramão. É uma das biografias que imploravam ser escritas. A figura que ela resolveu encarar não é nada fácil. Tem, por certo, na sua personalidade e na sua trajetória, uma dose de rebeldia, de estranheza. Certamente teria sido um caminho mais fácil se seguisse os exemplos e destinos familiares . Como diz Marta, Alfredo ''''cresceu entre homens formidáveis e distantes... pela vida toda, permaneceu à margem do centro de poder'''' representado pela família e pelo jornal familiar, O Estado de S.Paulo.Uma lenda que sempre cercou a figura de Alfredo Mesquita foi esse seu lado ''''ovelha negra'''', que o livro encara. ''''Alfredo sentia imenso orgulho de sua família, nunca teve a respeito dela uma palavra que não fosse elogiosa e a recíproca é verdadeira.'''' É verdade que se tratava de pólos diferentes. Alfredo, primeiro como escritor, depois como homem de teatro, não era exatamente o modelo ideal visto do prisma de uma família austera e discreta, que tinha muito poder e influência. O sobrinho Ruy Mesquita conta que ele foi ''''paparicado pelas irmãs até o fim''''. E cita: ''''Uma vez ele levou à fazenda uma senhora que tinha se casado de novo pela quinta vez... e ninguém se opôs.'''' Um desacordo com parte da família, quando da ocupação de O Estado de S.Paulo pelo governo getulista, levou-o a se afastar de parte do círculo familiar, mas como sempre, de modo discreto e tranqüilo.Alfredo, que vivia no meio de artistas, era objeto de muita fofoca. Sobretudo porque era da família Mesquita. Fosse parte de um clã mais comum, seria visto certamente com mais naturalidade. Era um homem bonito, elegante, de maneiras impecáveis. Por isso mesmo, um ponto controvertido sobre ele sempre foi sua vida amorosa. ''''Alfredo viveu só. Mesmo num ambiente liberal como o de uma escola de teatro, evitavam-se conjecturas sobre a vida íntima do diretor. Isso o magoaria demais. Tampouco as cabeças arejadas de seus amigos de juventude o deixaram confortável para tocar no assunto secreto da sua sexualidade. O segredo foi uma escolha - e não um acidente de percurso.'''' Marta encerra a questão com uma bela frase: ''''Um homem que jamais se permitiu ter um amor em público merece ser tratado com discrição até por seus biógrafos.''''A frase é exemplar para todo o livro. Alfredo sempre foi um homem que impunha uma certa distância, até para sobrinhos e irmãos. Reservado, arredio e um tanto severo, não é o sonho de um biógrafo preguiçoso. Marta optou pela sutileza e pelo rigor da pesquisa. Abandonou em parte o estudo do homem Alfredo Mesquita, embora fornecendo para o leitor muitos fatos e pistas da influência familiar sobre ele e da sua personalidade, para se concentrar mais na sua obra tão importante.É tão destacada a porção da fundação e implantação da Escola de Arte Dramática, que fica em segundo plano a obra literária de Alfredo, tão pouco conhecida e estudada. Seus livros, sobretudo os de contos, mostram um escritor original, com excelente timing para cenas divertidas e uma genuína ternura pelos seus personagens de vida difícil.Mas a EAD foi mesmo a grande obra de Alfredo. Marta abre o livro com uma festa acontecida em 1985, quando ele já estava afastado da escola desde 1968, dois anos depois da USP incorporar a EAD. Uma escolha perfeita, pois apresenta um espetáculo protagonizado ou presenciado por todos os grandes nomes que haviam passado pela escola como alunos ou professores. A descrição de Marta nos faz querer estar lá, nesse momento único em que astros e estrelas homenageavam seu mestre, o dr. Alfredo.Sim, porque desde a abertura da escola, em 1948, Alfredo Mesquita virou o ''''dr. Alfredo''''. Um pouco pela decisão dele de se manter um tanto distante de alunos e professores, para manter uma autoridade indispensável. Um pouco pelo respeito que todos tinham por sua cultura enciclopédica, pelo que já fizera em teatro amador, na livraria Jaraguá, um bunker da intelligentsia paulista adoçado por um bolo de fubá inigualável, e na revista Clima, uma revista cultural de primeira, que fundou para dar voz a uma geração de intelectuais então desconhecidos: Antonio Cândido, Paulo Emilio, Décio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado e outros, que influenciam nossa cultura até hoje.Alfredo Mesquita - Um Grã-Fino na Contramão é, a partir de agora, uma referência inescapável na bibliografia de nossa vida cultural. Recupera, com elegância e estilo, aspectos novos ou até então pouco conhecidos de um dos construtores dessa vida, além de suas qualidades de revelações sobre a trajetória dessa instituição, a EAD, que agora também tem sua biografia.Geraldo Galvão Ferraz é jornalista e crítico literário, editor da revista Cult

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