João Pina
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O olhar de João Pina: um relato poético e duro daquilo que não devemos esquecer

As imagens são fruto dos anos em que o fotógrafo português viveu no Brasil

Eduardo Nicolau, O Estado de S.Paulo

20 Novembro 2018 | 11h53

Há momentos em que é preciso um olhar de fora para captar a dor e a beleza de sermos o que somos. Em nosso cotidiano, nos acostumamos com o bizarro, com a beleza extraordinária, com o luxo e lixo convivendo lado a lado. A morte não causa mais espanto, como cantaram os Titãs. Miséria, miséria em qualquer canto.

Por isso não me espanta que, enquanto o Brasil e o Rio de Janeiro se preparavam para receber a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, justamente um estrangeiro tenha feito registros tão tocantes dos nossos famosos ingredientes tipo exportação.

Todos temos o costume de achar a imagem caricata do Brasil no exterior, de violência, futebol e da sensualidade feminina por muitas vezes algo complicado até de explicar. 

As imagens são fruto dos anos em que o fotógrafo português João Pina viveu no Brasil nesse período de preparação até o início das competições. O Brasil estava no centro do mundo, suas fotos ilustraram páginas do The New York Times, da alemã Stern Magazine e do espanhol El País.

Elas fazem parte do livro 46750, que será lançado nesta quarta-feira, 21, no Bar do Beco, na Vila Madalena, em São Paulo. 

É um relato poético e ao mesmo tempo duro daquilo que não devemos esquecer, por mais banal que tenha se tornado. Infelizmente, essa sensibilidade que acaba perdida no dia a dia.

Na nossa rotina de trabalho no jornal, na reportagem fotográfica, o olhar automático caminha mais para a realidade bruta e jornalística, espremidos pelo horário do fechamento dos jornais e revistas. No caso dos portais, espera-se a imagem mesmo antes dela acontecer... 

Mas, mesmo nessa rotina urgente, percebo que nos deslocamentos internos, quando um fotógrafo do Rio de Janeiro participa de uma cobertura fotográfica em Brasília ou um fotógrafo de São Paulo segue para uma cobertura no Brasil profundo, a diferença para as fotos dos profissionais locais é perene e imediata. Trocar o sol, o morro e as praias pelo gabinete gelado e a agenda presidencial ou trocar a megacidade o trânsito pelas comunidades ribeirinhas do Rio Xingu só faz bem. 

Quem, na minha opinião, foi o pioneiro dessa tradução, desse olhar estrangeiro de nós mesmos foi Pierre Verger, fotógrafo francês que, após girar o mundo, escolheu a Bahia para morar em 1946 – nas primeiras imagens de Salvador, culminando no livro Orixás, obra prima do fotógrafo. 

Guardadas todas as proporções, me lembrou condicionalmente as imagens de João Lira assim que as vi. 

A fotografia da dança é provavelmente a minha preferida. Retrato da felicidade, de gente que não perde o jeito, não perde a cintura, apesar do inacreditável estar ao lado.

EDUARDO NICOLAU É EDITOR DE FOTOGRAFIA DO ‘ESTADO’

 

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