O olhar brasileiro

Exposição reúne imagens raras de ritos ancestrais captadas por José Medeiros num terreiro carioca, em 1951, e fotos que registram o ingresso do Brasil na modernidade

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

29 de janeiro de 2009 | 00h00

O fotógrafo piauiense José Araújo de Medeiros (1921-1990) não foi certamente o primeiro fotojornalista brasileiro, mas foi com ele que nasceu um modo especial de ver as minorias étnicas do Brasil. Algumas das primeiras fotos que documentam um ritual de iniciação de filhas-de-santo num terreiro baiano de subúrbio foram feitas por Medeiros como profissional da revista O Cruzeiro, para a qual trabalhou de 1946 a 1961. É justamente esse o período das principais imagens expostas, a partir de hoje, na mostra Candomblé, no Instituto Moreira Salles (IMS) em São Paulo. Ela traz o ensaio fotográfico homônimo, realizado entre 1951 e 1956, imagens de personalidades que fizeram o Brasil ingressar na modernidade (Tom Jobim, Oscar Niemeyer), raros registros antropológicos de tribos indígenas e paisagens do Rio de Janeiro, onde Medeiros fixou residência em 1939. Veja galeria de fotos no siteCandomblé nasceu de um ensaio fotográfico publicado pela O Cruzeiro em setembro de 1951, com texto do repórter Arlindo Silva - criticado, na época, por estudiosos da religião africana, entre eles o sociólogo francês Roger Bastide, que reconheceu apenas as fotos de Medeiros como "documentos vivos" para o entendimento do "estado de erê" (estado em que a consciência do fiel do candomblé entra em contato com o mundo mítico do orixá). Candomblé virou livro em 1957, reunindo 65 fotografias feitas no terreiro de Oxóssi, num subúrbio ferroviário de Salvador. É este mesmo livro que está sendo lançado com novo projeto gráfico e um conjunto de 13 fotografias não incluídas na seleção original, escolhidas entre as 236 imagens de candomblé existentes na coleção do IMS.O acervo de Medeiros tem 20 mil fotogramas e foi incorporado à coleção do IMS em 2005. É um conjunto de históricas imagens de tribos indígenas (caiapós, xavantes), presidentes (Juscelino, Vargas), pintores (Guignard, Portinari), líderes políticos (Luís Carlos Prestes), escritores (Graciliano Ramos, Jorge Amado), músicos (Tom Jobim, Dorival Caymmi), cineastas (Arnaldo Jabor) e atrizes (Cacilda Becker, Maria Della Costa) - enfim, uma espécie de súmula dos anos 1950 e 1960. O fotógrafo deixou O Cruzeiro em 1961 para montar a própria agência, Image, com Flávio Damm e Yedo Mendonça. Damm, num texto para o portal Photos, em 2004, lembrou que Medeiros foi o responsável pela mudança da cara do fotojornalismo "capenga" que se praticava na revista sob comando do "sensacionalista" Jean Manzon - de resto, um bom fotógrafo, embora parceiro profissional de David Nasser e funcionário do DIP, o órgão de propaganda da ditadura Vargas.Segundo Flávio Damm, Medeiros foi sempre um contestador, um homem que, longe do engajamento partidário, adotou uma posição política clara sobre as minorias brasileiras. Como tinha certo prestígio junto a Frederico Chateaubriand, sobrinho de Chatô, usou O Cruzeiro para publicar reportagens sobre índios e negros, numa época em que o modelo da sociedade brasileira era o caucasiano - de preferência americano com olhos azuis. Como a revista era um sucesso editorial (mais de 300 mil exemplares em 1951, data da reportagem sobre o candomblé) e apostava em reportagens especiais, Medeiros viajava por todo o Brasil e assinava as melhores publicações de fotografia. Assim, é um equívoco pensar que tivesse um olhar ingênuo sobre os objetos fotografados. Sua opção pelos deserdados e o modo de fotografá-los passa necessariamente pela lente social de Walker Evans (1903-1975), que registrou os efeitos da grande Depressão americana nos anos 1930.Foi esse olhar que permitiu a Medeiros ingressar na carreira cinematográfica (como fotógrafo de A Falecida, de Leon Hirszman, em 1965) e assinar a fotografia de alguns dos melhores filmes rodados entre as décadas de 1960 e 1980 - ele foi o fotógrafo de A Opinião Pública (1967), Xica da Silva (1976), Chuvas de Verão (1981), Memórias do Cárcere e do filme nigeriano Cry Freedom (1981), de Ola Balogun. Pelos temas desses filmes - a realidade dos suburbanos cariocas, a história de escravos, aposentados, presos políticos e líderes populares africanos - é possível conhecer um pouco mais desse piauiense sapateador, nascido em Teresina e companheiro inseparável das expedições do sertanistas irmãos Villas-Boas, que deixava enlouquecidos ao ensinar suas canções preferidas (Nature Boy, entre elas) aos índios.Mas o embrião desse interesse antropológico nasceu mesmo com o trabalho da revista O Cruzeiro. Após a publicação de uma reportagem assinada pelo cineasta Henri Georges-Clouzot (1907-1977) na revista Paris-Match, em 1951, Les Possédées de Bahia (As Possuídas da Bahia), os editores da revista O Cruzeiro acharam que Medeiros seria o homem certo para dar uma resposta à eurocêntrica visão do diretor de As Diabólicas. Medeiros, com a ajuda de um motorista de táxi de Salvador, localizou um terreiro, pagou pelos animais que seriam sacrificados no ritual documentado nesta página e, na hora, teve de enfrentar a ira dos orixás. O cabo do sincronismo do flash se rompeu e ele teve de ajustar o anel do obturador de sua Rolleiflex para enfrentar a escuridão do terreiro. E venceu. Sua luz, como disse Glauber Rocha, era uma luz brasileira. Nem as trevas podiam com ela. ServiçoJosé Medeiros. Instituto Moreira Salles - IMS. Rua Piauí, 844, 1.º andar, Higienópolis, 3825-2560. 13 h/ 19 h (sáb. e dom. até 18 h; fecha 2.ª). Grátis. Até 5/4. Abertura hoje, 19h30, com relançamento do livro Candomblé

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