O novo sequestro do metrô

Refilmagem de thriller violento tem câmera nervosa e visual caprichado

Crítica Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

04 de setembro de 2009 | 00h00

Tony Scott é irmão e parceiro de Ridley Scott em alguns projetos. Agora mesmo, os irmãos anunciam a prequel de Alien, o Oitavo Passageiro, contando a história sobre como foi formada a expedição da nave Nostromo para buscar, nos confins do universo, o predador que virou símbolo de destruição (e terror). Ridley, embora discutido, desenvolveu uma carreira mais ?intelectual?. Não por acaso, virou sir e ganhou o Oscar (de filme, não direção) por Gladiador. Tony se estabeleceu como diretor de ação, com um currículo no qual se destaca a parceria com Denzel Washington.

Trailer de O Sequestro do Metrô 123

O Sequestro do Metrô 123 é o quarto filme que fazem juntos, após Maré Vermelha, Chamas da Vingança e Déjà Vu. Tony Scott retoma o relato de um filme de Joseph Sargent nos anos 1970. The Taking of Pelham 123, com Walter Matthau e Robert Shaw, havia recebido o mesmo título no Brasil. Na história, Shaw, à frente de um bando selvagem, ocupa uma estação do metrô de Nova York e ameaça matar reféns, se não receber o resgate de US$ 1 milhão em uma hora. Na nova versão, John Travolta, como o sequestrador, aumentou o valor do resgate para US$ 10 milhões e também ameaça matar um refém por minuto, após uma hora. Denzel Washington faz seu interlocutor, o cara que controla a circulação de trens. Na verdade, ele é um executivo que foi rebaixado, sob suspeita de haver recebido suborno dos japoneses numa licitação de vagões do metrô.

Tony Scott veio da publicidade - como Ridley - e tem uma preocupação toda especial com a textura da imagem de seus filmes. É interessante lembrar o que dele diz César Charlone. Em 2004, prestigiado internacionalmente pela fotografia de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles - pela qual foi indicado para o Oscar -, Charlone foi chamado para trabalhar com Tony Scott em Chamas da Vingança. O filme rodado na Cidade do México parecia uma experiência enriquecedora, até porque Tony admitia ter ficado impressionado com o visual de ?City of God?. Charlone contou depois que o diretor o queria a seu lado, mas no máximo lhe permitia operar a câmera. Tony Scott levantava-se todo dia de madrugada e, quando a equipe chegava ao set - o próprio Charlone -, ele já desenhara a cena em detalhes, oferecendo ao fotógrafo/câmera croquis precisos com posições do aparelho, lentes, etc.

Essa obsessão com o visual está presente em O Sequestro do Metrô, combinada, mais do que em qualquer outro filme recente do diretor, com o movimento, por meio da aceleração da imagem. Não é para todos os gostos, e mais uma vez a origem de Tony Scott como diretor de publicidade poderá ser usada contra ele. Mas seria negar, pura e simplesmente, os méritos que seu filme possui. Denzel Washington há tempos vem representando no automático, simplesmente invadindo a tela com a persona forte que já criou no imaginário do público. Travolta, então, nem se fala. Teve muitos renascimentos, ao longo de sua carreira. Na fase atual, como ?superastro?, virou cabotino de si mesmo.

A surpresa é que Travolta e Washington não apenas estão bem, como criam personagens consistentes. Qualquer espectador que analisar os filmes do diretor, e não apenas os com Denzel, poderá verificar que há, no cinema de Tony Scott, uma preocupação pelo embate entre o indivíduo e a instituição. Isso aparece também em Inimigo do Estado, com Will Smith, ou em Jogo de Espiões, com Robert Redford e Brad Pitt. O herói favorito de Tony é o homem em busca de redenção. Denzel Washington encaixa-se no perfil. A velha segunda chance é um dos temas emblemáticos de Hollywood, OK. O interessante é o vilão. Travolta, na verdade, não está matando pelos US$ 10 milhões. Ex-yuppie, corretor da Bolsa nos anos loucos de Ronald Reagan, quando se estabeleceu o modelo neoliberal, ele é um especulador que está usando o sequestro no metrô para outra coisa. Essa leitura, digamos, ?política? do novo Tony Scott passa pelo personagem do prefeito, interpretado por James Gandolfini, um ator que, como se sabe, costuma roubar a cena. Para um thriller simplesmente descartável, O Sequestro do Metrô oferece interessante material de reflexão - e indagação.

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