O novo jogo semiótico de Bressane

A Erva do Rato, ?sugerido? por Machado de Assis, superpõe à máscara literária do escritor a pesquisa pictórica do cineasta

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

26 de junho de 2009 | 00h00

Júlio Bressane adora citar Gentil Cardoso, lendário técnico do Botafogo. Além de homem de cultura - transitava com desenvoltura entre Emannuel Kant e Napoleão Bonaparte -, o suboficial aposentado da Marinha ficou famoso pela máxima "Quem pede, ganha". Gentil selecionava seus jogadores entre os mais aguerridos, aqueles que lhe pediam para jogar. Há tempos que Selton Mello manifestara o desejo de filmar com o diretor mais erudito do cinema brasileiro. O desejo realiza-se com A Erva do Rato, no qual Selton encontra a Cleópatra de Bressane, Alessandra Negrini. Assista ao trailer de A Erva do RatoO filme incursiona pelo universo de Machado de Assis, mas Bressane descarta que seja uma adaptação. Seu filme foi ?sugerido? por Machado. Existem poucas linhas do escritor no filme, uma página de um conto, meia página de outro. Mas A Erva do Rato está impregnado pelo espírito machadiano. Nesse sentido, é diferente até do Brás Cubas que o próprio Bressane fez em 1985, com Luiz Fernando Guimarães e Regina Casé. Brás Cubas propunha o que se chama de ?transcodificação?. Buscava transformar em imagens as sugestões oferecidas pelas palavras do escritor. Embora o original fosse o mesmo, nada mais diferente das Memórias Póstumas de Brás Cubas filmadas por André Klotzel. A Erva do Rato foi agora sugerido a Bressane pelo que ele chama de duas ?engramas?, dois traços que identifica em contos de Machado, A Causa Secreta e Um Esqueleto. A relação do homem com o animal e a do homem com o esqueleto - sua forma final.Bressane é homem de trabalhar sem pressa. Sendo um dos exigentes e prolíficos autores de cinema do País, ele filma muito, mas cada filme tem a gestação que necessita. A de Cleópatra durou em torno de dez anos, ou mais. Oito anos antes da filmagem, o diretor já determinara que Miguel Fallabela seria seu Júlio César e até mostrou ao ator os esboços do que pretendia fazer. Quanto tempo demorou a gestação de A Erva do Rato? "Posso dizer que a minha vida inteira. Leio Machado desde menino. Não saberia exatamente dizer quando identifiquei essas engramas, mas elas me acompanharam muito tempo antes de sugerir o roteiro" (escrito em parceria com Rosa Dias, é bom acrescentar). O rato e o esqueleto são coisas que, em toda a história da arte e do homem, "sempre provocaram repulsa", observa o diretor.São duas engramas e duas máscaras, compondo um jogo semiótico - a primeira máscara é a literária e Bressane, mais uma vez, não deixa de reinventar a língua portuguesa, como já fizera com os sermões do Padre Antônio Vieira ou o verbo de Santo Agostinho. A máscara literária o leva a propor novas linhas formais e estruturais que levam a uma narrativa insólita. O filme começa num cemitério, onde se encontram ?ele? (Selton) e ?ela? (Alessandra). Um incidente os leva para dentro de uma casa, onde ele a fotografa nua, mas isso talvez seja só um detalhe. ?Ela? se submete, na dura tarefa de transcrever histórias que vai lhe contando e que também vão sendo transcritas em cadernos.À máscara literária superpõe-se outra - a luz, por meio de referências pictóricas que Bressane gosta de elaborar. Não representa pouco dizer que seu diretor de fotografia é Walter Carvalho. Em parcerias anteriores, Filme de Amor e Cleópatra, Bressane já fizera extensas pesquisas pictóricas em livros, na internet e visitando museus na Europa. A pintura não lhe interessa como possibilidade de criar, por meio do cinema, ?tableaux vivants?, como, aliás, fez o próprio Jean-Luc Godard num filme marco, Passion. A pintura interessa a Bressane como ?montagem?, como ?corte?. A luz, como processo químico, está antes dos atores e das cenas, ele esclarece.Tudo isso parece muito sofisticado e Bressane sabe que está propondo um biscoito fino. No Festival de Brasília, ao receber, sob vaias, o Candango de melhor filme por Cleópatra, ele fez um discurso que foi considerado agressão ao público. Em Gramado, homenageado especial em 2008, disse que nem deveria estar naquele festival que sempre o ignorara, quando não hostilizara, mas percebia uma mudança e achava que valia a pena investir nela. Ninguém seria louco de dizer que Bressane é ?modesto?, mas seu discurso é muito sólido, e coerente. O público é estimulado a consumir filmes que já lhe chegam mastigados, para que ele possa simplesmente degluti-los. Bressane acha que nós, o público, e ele, autor, temos de ir contra nós mesmos. O que ele propõe é um exercício de superação."Somos m...", é a sua suprema provocação. Só a superação nos engrandece. E é que o que ele não apenas nos propõe, mas se propõe. Ao se lançar nos projetos - o próximo será O Beduíno, de novo para questionar a narração -, o diretor já pesquisou muito. Mas é justamente porque o filme já foi pesquisado e, de certa forma, ?construído?, que ele se permite desconstruí-lo. Bressane elabora muito para poder improvisar. Seria muito chato simplesmente passar o filme pela câmera. Bressane, no limite, filma para descobrir, no ato, o filme que quer fazer.

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