O não-dito grita em Three Monkeys

O turco Nuri Belgi Ceylan situa sua obra num vácuo ético no qual o mais importante é o que os personagens omitem

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

30 de outubro de 2008 | 00h00

A partir já do título misterioso, Three Monkeys revela-se um filme cheio de lacunas. Quer dizer, move-se no terreno da ambivalência, no qual muitas coisas são ditas, enquanto outras tantas ficam por dizer. Dirigido pelo cineasta turco Nuri Belgi Ceylan, o filme apresenta uma família - pai, mãe, filho. Apenas os três, que constroem entre si toda uma constelação de sentimentos - justamente a partir do que omitem. Não falam, não ouvem, não vêem, como os macaquinhos da fábula.Em suas primeiras cenas, o que se vê é um político em final de campanha (Ercan Kesal) atropelando e matando alguém. Sua eleição estaria comprometida se descobrissem que foi ele. Convence então seu motorista (Yavus Bingol) a assumir a culpa. Algum tempo na cadeia em troca de um bom dinheiro. Enquanto o homem permanece preso, sua mulher acaba se envolvendo com o político. E o filho jogará um papel não negligenciável no processo. Em tons escuros, quase monocromáticos, essa ciranda evolui de maneira tão densa quanto evasiva. O tom indireto às vezes é classificado como "clichê do cinema de arte". Pelo contrário. É o que de fato acontece na vida, entre pessoas de carne e osso. Muitas vezes se fala por alusões, os gestos são mais significativos que as palavras, mas nunca são diretos. No cinema comercial, tudo é mais explícito - justamente porque se teme que o espectador não entenda as alusões, ou se desinteresse pelo que acontece na tela caso necessite fazer algum tipo de esforço de compreensão. Há também a questão do tempo. Embora a trama se desenvolva em linha reta, Ceylan usa muito bem das elisões, dos cortes de continuidade, que funcionam como espaços em branco, vazios, que o espectador é convidado a preencher com sua imaginação. Ou melhor, com a sua participação, uma vez que ele, espectador, diante de uma obra aberta desse tipo, se torna, de certa maneira, seu co-autor. Entra com sua subjetividade na composição tanto dos personagens como da própria história. Embora desconstrua a continuidade, Ceylan trabalha com personagens muito aprofundados. A figura de Eyup (Bingol), o motorista, é nunca menos que comovente. Um homem aprisionado, que se vê obrigado a adivinhar o que se passa fora da cadeia, porque ninguém lhe conta nada, por interesse ou por piedade. Hacer (Hatice Aslan), a mulher, não é menos tocante em sua perplexidade tanto diante do filho como de sua confusão amorosa e sexual. E, por fim, o próprio filho, Ismail (Rifat Sungar), em sua perdição diante da sexualidade da mãe e do desamparo do pai. A única figura pouco matizada é a de Servet (Ercan Kesal), pragmático e aproveitador como, parece, todos os políticos devem ser retratados na ficção para soarem críveis. Three Monkeys trabalha, por fim, com a questão da transferência da culpa, um pouco à maneira de Hitchcock, mas aqui em domínio mais francamente mercantilista. Se um político rico pode pagar a alguém para que assuma a responsabilidade por ele, no final pode ser vítima do mesmo expediente, a parábola se fechando sobre si mesma numa espécie de justiça poética, que convém deixar em suspenso. Pode-se apenas dizer que nesse filme em que amor, desejo, ciúme e crime se mesclam a compaixão e perdão, o fundo final, aquele sobre o qual tudo se assenta, aponta para um vácuo ético total. A "moral da história", se é que nela alguma moral, passa perto do desencanto completo. Ao mesmo tempo, tudo nos parece perfeitamente lógico e inevitável, fechando-se com a elegância de uma demonstração matemática. Belo filme. ServiçoThree MonkeysCine Bombril 1 - Hoje, 21h40

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