O mundo visto pelos mais fracos

Livro reúne 46 crônicas de Gianfrancesco Guarnieri, escritas antes do Golpe de 64

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

14 de abril de 2008 | 00h00

Os primeiros meses de 1964 foram únicos na carreira do ator, diretor e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006): em janeiro, estreou O Filho do Cão, peça escrita e interpretada por ele, que a considerava a mais desenvolvida até então em sua carreira - uma opinião peculiar para quem já tinha escrito a clássica Eles Não Usam Black-Tie. No mês seguinte, ele iniciou sua colaboração no jornal Última Hora, produzindo crônicas diárias num total de 46. A última foi publicada no dia 1º de abril, quando o País já respirava ares militares. Com a interrupção da peça, ele e Juca de Oliveira viajaram para a Bolívia, onde passaram três meses.De volta, Guarnieri continuou com sua produção teatral, O Filho do Cão foi novamente encenada meses depois (sem a sua participação), mas o material publicado na imprensa ganhou o esquecimento. O resgate acontece agora graças ao trabalho do pesquisador Worney Almeida de Souza, que se debruçou sobre os parcos exemplares ainda existentes do Última Hora para reunir os textos em Crônicas 1964, editado pela Palavra Escrita e que será lançado hoje, a partir das 19 horas, na Livraria do Espaço Unibanco de Cinema. Um pouco mais tarde, às 21h30, será exibido o filme Eles Não Usam Black-Tie, de Leon Hirszman.Guarnieri foi convidado a escrever na Última Hora pelo então diretor do jornal, Jorge da Cunha Lima, que transformou em diário o caderno de cultura. Ao seu lado, figuravam colunistas de prestígio, como Ignácio de Loyola Brandão, Jô Soares e Stanislaw Ponte Preta. Com periodicidade de segunda a sábado, a primeira crônica foi publicada em 4 de fevereiro de 1964 e a última, a 1º de abril.Com faro de repórter, ele tornou protagonista o mesmo tipo de personagem que figurava em suas peças. ''Num período de intensa atividade política e criadora, Guarnieri passou a apresentar nas páginas diárias personagens da vida cotidiana dos trabalhadores urbanos, desempregados, sindicalistas, lutadores, desesperados e sufocados pela máquina destruidora da injustiça social'', comenta Worney Almeida de Souza, no prefácio. ''Também estavam presentes os retratos dos trabalhadores rurais e suas mortais lutas contra latifundiários.''À medida que a situação política do País se agravava, Guarnieri intensificava sua batalha pelos desprotegidos, com um estilo que aproximava sua escrita da do escritor João Antônio - ele buscava a alma do cidadão de uma determinada faixa social, por meio de inédita recriação da linguagem, que valorizava como nunca a sonoridade das palavras e do fraseado.Logo na primeira crônica, por exemplo, Primeiro Filho, Guarnieri utiliza, sem afetações, a linguagem simples de um metalúrgico para contar a história do jovem trabalhador que, sem dinheiro para pagar a maternidade, arma um esquema mirabolante para que mulher e menino recém-nascido fujam na madrugada. Assim como esse, ganharam destaque figuras como o engraxate Cem Gramas, o homem-sanduíche Casimiro e outros, habitantes de cortiços e casas de madeiras, mas, sobretudo, sobreviventes.Guarnieri Fala ''A idéia era utilizar o espaço no jornal para um esclarecimento político maior.''''Era uma loucura! Eu escrevia todo dia, em cinco minutos, e um rapaz vinha retirar o texto para levar para a redação; por isso tive pouco contato com o Otávio, ilustrador da coluna, mas a gente se divertia.''''A luta popular como ela se colocava e da forma que estava acontecendo tinha muito de humano, na forma de mostrar os dramas. Eu situava a maioria das crônicas na cidade de São Paulo, falava da Praça Clóvis, da Praça da Sé, do bairro do Jabaquara...''Serviço Crônicas de 1964. De Gianfrancesco Guarnieri. Editora Xamã. 208 págs. R$ 30. Livraria do Espaço Unibanco de Cinema. Rua Augusta, 1.475, 3141-2610. Hoje, 19 h

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