''''O mundo tem 10 anos para criar juízo''''

Diplomata experiente, Rubens Ricupero arregaça as mangas e vai à luta contra o aquecimento global

Sonia Racy, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

Assim que abre a porta do apartamento e me conduz a uma sala clara e larga, na tardezinha do domingo, Rubens Ricupero abre um sorriso: "Como é bom, para quem mora perto do Pacaembu, um domingo sem futebol." Sem carros, vendedores de camisetas e barulho,... "A gente pode sair a pé, ir até a padaria, ficar em casa lendo ou escrevendo, ouvindo os sabiás nos abacateiros da vizinhança."É mais que um gosto: para esse diplomata de 70 anos, é um plano de vida. Pouco lhe importa ter sido professor, economista, ministro da Fazenda, diretor-geral da Unctad, embaixador nos Estados Unidos. Vale mais o luxo de, vivendo no olho do furacão, não ter carro nem celular. Ricupero vai a pé para o trabalho - é diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel, a 300 metros dali. E gosta mesmo é de ler, pensar, escrever e andar. Quando lhe dá na telha, enfia-se pela cidade e vai a pé até a Igreja de São Bento. "Os pilares da minha vida são esses. E mais a fé cristã. João XXIII, dom Hélder, Abbé Pierre, a Marisa e meus quatro filhos. O resto tanto faz..."A frase pode sugerir um homem realizado e tranqüilo - mas, visto de perto, é o contrário. Com ânimo de adolescente, Ricupero vestiu há algum tempo a camisa da causa ambiental - ou melhor, da preservação da humanidade. Viaja, escreve, dá conferências e brada às platéias a urgência de uma guerra sem tréguas contra o aquecimento global. "Temos mais oito ou dez anos para reduzir as emissões dos gases poluentes. Depois, o processo será irreversível", adverte. À nossa volta, belas máscaras africanas, um Volpi, um Penacchi, crucifixos etíopes raros e um belíssimo oratório colonial trazido do Equador. Entre o conforto da sala e a urgência da causa, ele se submete, prestativo, aos pedidos do fotógrafo, e nos sentamos.Nada como morar perto do trabalho, não? É verdade, mas minha volta a São Paulo não foi tão pacífica. Fiquei fora quase cinco décadas e, ao voltar, tive um choque ao descobrir uma outra cidade. Depois de andar por Brasília, Rio, Genebra, Viena, tantos lugares na Europa, e Washington, percebi, ao retornar dois anos atrás, que nada mais restava da minha infância gostosa no Brás. Foi ali que eu, um ítalo-brasileiro, cresci e morei.O que restou daqueles tempos?Muita coisa, que estou juntando em um projeto pessoal: quero criar um curso livre, algo assim, sobre a Itália, sua história, sua cultura. Eu chego lá.Depois de 50 anos na vida pública, que chances o sr. vê de o País dar certo? Vejo três desafios sérios a vencer. Primeiro, nossas instituições políticas, que são de má qualidade. Segundo, a educação, que é de baixíssimo nível. E terceiro, a impunidade. Sem superar esses males, não teremos a nação com que eu sonhava nos meus 20 anos.E o pessoal que hoje tem 20 anos pode sonhar com o quê? Vejo duas coisas boas que podem ajudar o País a avançar. O petróleo, com essas novas reservas, é uma delas. Livra-nos de um futuro terrível. Outra é o bônus demográfico. Como a população já não cresce tanto, nos próximos 50 anos a pressão por escolas, hospitais, etc. serão menores. Mas se não vencermos aqueles três desafios, nunca seremos um país importante.Como diplomata, que balanço o sr. faz do atual Itamaraty? Em algumas coisas, acho que ele vai bem. O Brasil tem tamanho e liderança para reivindicar um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU. A batalha da liberalização agrícola é correta. O governo fez bem em resistir à Alca. Mas também vejo problemas sérios. Nossa política na América Latina deixou de ser conduzida pelo Itamaraty e se tornou domínio de um partido político. Isso tem levado a equívocos graves.O sr. se refere às relações com Hugo Chávez? Além da fraca reação às ilegalidades praticadas pela Bolívia, assistimos à defesa de Chávez e seus intentos na Venezuela. Parece que falta ao presidente Lula a compreensão de que democracia não é a ditadura de uma maioria ocasional. Não é com uma maioria votando em um plebiscito que se legitima o que é ilegítimo. Democracia é alternância no poder, é a garantia dos direitos das minorias - coisas que Chávez quer destruir.O sr. tem-se dedicado muito ao problema ambiental. Por que essa virada? Porque considero, hoje, que a maior ameaça que o mundo enfrenta é o aquecimento global. Como diria Saddam Hussein, é "a mãe de todas as ameaças". As outras são limitadas - terrorismo, armas nucleares, Oriente Médio. O aquecimento global pode acabar com a humanidade.Por que ele é tão ameaçador? Temos um horizonte curto, de oito ou dez anos, para conter a emissão de gases que provocam o efeito estufa. Os mais otimistas falam em 15 anos. Se não fizermos o necessário, nesse período, o processo torna-se irreversível. Desses 10 ou 15 anos para a frente, mesmo que se faça tudo direitinho, não adiantará mais. Haverá um encadeamento de efeitos, um engatando no outro.De que efeitos o sr. Fala? Vamos por etapas. A intensa emissão de gases poluentes, pelas fábricas, automóveis, queimadas, etc., aumenta a temperatura de toda a Terra. Nosso futuro depende de limitarmos esse aumento a 2 graus centígrados, no máximo 2,4 graus, nos próximos 50 anos.E se não conseguirmos isso, o que acontece? Digamos que nada se faça até o fim do século. A temperatura média do planeta subirá 3 ou 4 graus e entraremos em um território inexplorado, que as civilizações humanas nunca enfrentaram antes. Veja só: um aumento de cinco graus centígrados, em média, é o que nos separa da última era glacial, há uns 12 mil anos.Se a temperatura subir 3 ou 4 graus, o que acontece? O derretimento do gelo nos pólos e a subida do nível dos oceanos, que sepultaria cidades inteiras - Rio, Nova York, Miami, Londres, tantas outras. As geleiras do Himalaia deixarão de alimentar os rios da Índia e da China - um desastre numa região onde vive 1 bilhão de seres humanos.O que impede os líderes mundiais de discutir seriamente o assunto? É que a agenda internacional é ditada pelos Estados Unidos. E ela se resume a terrorismo, fundamentalismo islâmico, armas nucleares, Oriente Médio. Nada de aquecimento global. É uma visão egoísta, interesseira. Os dois maiores poluidores do mundo são os EUA e a China. Se eles não aderem, tratado nenhum terá importância.O que o Brasil pode fazer nessa questão? O Brasil tem importância mundial em duas áreas. As negociações agrícolas, pois é um grande produtor, e a política ambiental. Nesta, temos tudo para um papel preponderante. Temos a maior floresta tropical, a maior reserva de água doce, a maior biodiversidade, uma matriz de energia limpa e a maior experiência mundial em etanol e álcool.Então podemos influir nas regras? Não, porque o Brasil escolheu um papel incompreensível de solidariedade à China e à India, que são "países sujos" nessa matéria. E nem conseguimos pôr fim às queimadas na Amazônia. Perdemos a autoridade moral para exigir qualquer coisa dos outros.O mundo vai tomar juízo nesses 10 ou 15 anos que faltam?Espero que sim, mas é um ato de esperança. Pelas realidades atuais, o futuro é sombrio.Sua carreira como ministro da Fazenda foi interrompida, em 1994, por uma frase polêmica: "O que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde." Treze anos depois, como o sr. vê aquele episódio?Ali, por alguns segundos, eu abri a torneirinha de bobagens. Eu estava exausto de tanto dar entrevista, eram 10 ou 20 por dia, por toda parte, para explicar ao País o recém-lançado Plano Real. O que aconteceu foi que o governo não tinha recursos para uma campanha publicitária a respeito. A saída era criar verbas com uma medida provisória, algo assim, mas o presidente Itamar não aceitou. Disse-me apenas "chame a imprensa, dê entrevistas e explique tudo..." Fui vencido pelo cansaço e desabafei na hora errada.Por que o presidente não o segurou? Eu o avisei de que iria embora, ele achou exagero e me pediu para esperar. Como o assunto cresceu, ele acabou cedendo. Mas jamais deixou de me apoiar. Tinha lá suas manias, mas foi um presidente limpo e de espírito público como poucos. Impressão digitalMaitê ProençaMaitê Proença anda ocupada. Escreve, a quatro mãos com Luis Carlos Góes, uma peça sobre a morte que se passa num velório. "Triste, mas tem humor", garante. Grava, semanalmente, sua participação no Saia Justa, do GNT. E está no elenco do longa Elvis & Madonna, do diretor Marcelo Lafitte.Mas o que tem tomado mais tempo é colocar o ponto final em um romance de ficção, que fala sobre as vidas entrecruzadas de duas mulheres. O livro sai no ano que vem.Na frenteA recente viagem do ministro Nelson Jobim pela Amazônia rendeu. Inspirada pelo par de Melissinhas usada nas visitas por Adrianne Senna, mulher do ministro, a Grendene remeteu ao Comando Militar Norte 10 mil pares daquele modelo a serem distribuídos entre as mulheres e filhas do pessoal da área.Filha de peixe lagartixa não é. Camilla Appel, filha de Leilah Assumpção, lança no dia 10 de dezembro, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, o seu primeiro livro: Do Avesso, uma fantasia sobre a busca da identidade, escrita a partir de sua experiência em uma viagem ao sul da Ásia.Os uniformes do staff do Museu da Língua Portuguesa vão ganhar um toque de moda. Os alunos do Istituto Europeo di Design desenvolveram as peças como trabalho de fim de ano.A PHB Industrial, da Organização Balbo, de Sertãozinho, e da Pedra Agroindustrial, de Serrana, pioneiras na produção de plástico biodegradável a partir do açúcar, inauguram no dia 4 o primeiro centro de pesquisas de biopolímeros do Brasil, no campus da Universidade Federal de São Carlos. A unidade foi construída e doada pela empresa à Ufscar.A FGV analisou 140 companhias para o Guia Exame de Sustentabilidade. E surpreendentemente descobriu que quase um terço já atrela os indicadores relacionados a aspectos ambientais e sociais à remuneração dos executivos.Em Porto Velho, única capital brasileira onde não existe nenhum shopping center, o programa das pessoas é passear na praça de alimentação do aeroporto, novinho em folha, que acaba de ser reformado pela Infraero. Deve ser o único aeroporto do Brasil aonde as pessoas vão se divertir.

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