O mundo descobre a atriz Sandra

O domingo deixou de ser pacato para ela tão logo foi noticiada sua premiação

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

26 de maio de 2008 | 00h00

"Estou muito feliz, nem sei o que dizer." Sandra Corveloni atende o telefone na sua casa em Vila Mariana. Mas logo tem de desligar. A França a chama na outra linha. A premiação em Cannes, subitamente, transforma o seu domingo. Jornais e televisões de todos o Brasil, e de muitos outros países, a procuram. É preciso esperar mais alguns minutos para conseguir conversar com ela. Atriz de longa experiência no Grupo Tapa, fala de sua personagem em Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, seu primeiro longa-metragem. "Fiz dois curtas experimentais antes, mas esse trabalho é bem diferente, pois teve um tempo de preparação muito longo, três meses de ensaio, improvisações no set depois do elenco definido, dois meses de filmagens", diz. Os curtas foram Flores Ímpares (1992), de Sung Sfai, e Amor (1993), de José Roberto Torero.Seu personagem é Cleuza, um empregada doméstica com quatro filhos grávida do quinto. "O filme fala da ausência de pai, das oportunidades escassas, da violência sempre rodando, um tipo de realidade que é a de muitas famílias brasileiras", diz Sandra. "Apesar de todas as dificuldades, a família vive momentos legais. Ela é uma mãe que se importa com os filhos e luta muito para que tenham uma vida digna, escapem dos caminhos que levam à violência. Ela é o refúgio moral da família."Paulistana de 43 anos, Sandra fez sua formação de atriz na PUC e integra o elenco do Grupo Tapa, dirigido por Eduardo Tolentino, desde 1998. Como atriz, atuou em dezenas de peças, como No Fundo do Lago Escuro, de Domingos de Oliveira, na qual contracenou com Beatriz Segall, Moço em Estado de Sítio, de Oduvaldo Viana, Major Bárbara, de Bernard Shaw, Contos de Sedução, de Guy de Maupassant, entre outras. Dirigiu, também no Tapa, As Viúvas de Artur, espetáculo que unia peças curtas de Artur de Azevedo, e co-dirigiu, com Tolentino, Amargo Siciliano, de Pirandello, ainda em cartaz no Viga Espaço Cênico. Nem sempre atores teatrais conseguem se adequar tão bem, já no seu primeiro filme, à linguagem do cinema, que pede intensidade na mesma proporção da contenção de gestos. "Sempre trabalhei com Tolentino e na linguagem realista do Tapa, em que se busca a verdade em pequenos gestos, na delicadeza de um olhar", argumenta Sandra. "Mas também foi muito importante o trabalho da preparadora de elenco Fátima Toledo, que nos ajudou com a realidade dos personagens, de sua aridez. Quando chegamos no set, estávamos muito bem preparados, física e emocionalmente, para interpretar os personagens."Ela destaca ainda a orientação dos diretores Walter Salles e Daniela Thomas. "Eles sabiam exatamente o que estavam buscando. Sua segurança foi fundamental. Ninguém sentia medo no set, nem se estressava. Eles nos deixaram muito seguros. Foi um trabalho feito mesmo em equipe. Eu tinha a curiosidade da primeira vez e podia tê-la, pois tudo foi feito num clima de alegria, viramos mesmo uma família. Por isso eu esperava um prêmio de conjunto, não individual. Mas sinceramente acho que ele só vem pelo clima de trabalho em equipe."Sandra prefere não falar do aborto sofrido aos cinco meses de gravidez, com conseqüências bastante graves - segundo amigos, ela correu risco de vida -, que a impediu de estar em Cannes. "Foi terrível, tudo está muito recente, ainda não tenho condições de falar sobre isso."Antes mesmo de o filme estrear no Brasil, tanto os fãs que ela já tem no teatro, como os que ainda não a conhecem, vão poder conferir sua interpretação na telinha. Ela atua no programa de teledramaturgia da TV Cultura, a série Direções, que vai ao ar no domingo. Sob direção de Eduardo Tolentino, ela vive Leila em O Telescópio, peça de Jorge Andrade. Ela é quem detona o conflito em família, ao voltar da cidade para o campo interessada na sua parte na herança da família.

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