O mundo à semelhança de seu autor

Obras de Puccini, com suas melodias líricas e dramaticidade apaixonada, são a tradução de sua visão das relações humanas

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

20 de dezembro de 2008 | 00h00

Houve um tempo em que o ocaso da obra de Puccini era decretado por musicólogos respeitados. Em 1912, em seu livro Giacomo Puccini e l?Opera Internazionale, o crítico Fausto Torrefranca dizia que a grande contribuição da Itália para a história da música não estava na ópera e, sim, na música instrumental dos séculos 17 e 18. Parece aberrante ouvir isso hoje mas, para Torrefranca, a ópera era uma "criação bastarda". Puccini seria, assim, o exemplo acabado de "toda a decadência da música italiana atual" e representava "o cínico comercialismo, a impotência, a triunfante voga internacionalista". Também o americano Joseph Kerman profetizou, em Ópera e Drama, o esquecimento de Puccini. Por que, então, passados 100 anos do nascimento desse compositor, não só parece improvável que ele seja esquecido, como há ainda, entre os músicos contemporâneos, quem o tome por modelo? "Um dos sinais do talento do artista", escreveu Mosco Carner em Puccini: a Critical Biography, "é saber criar, com a sua fantasia, um mundo que somos forçados a reconhecer como particularmente seu". "Isso não é, necessariamente, um sinônimo de grandeza, mas exige um alto grau de personalidade, um dos dons criativos mais preciosos." Puccini é, sem dúvida alguma, um desses artistas: o mundo que criou tem um clima emotivo e dramático, além de um estilo musical, tipicamente seus, a tal ponto que se pode falar de uma concepção pucciniana da ópera. Comparada ao universo de Mozart, Verdi, Wagner, Janácek, Strauss ou Britten, a órbita pucciniana é limitada na escolha dos argumentos, na caracterização das personagens e na profundidade musical. Mas ele é insuperável no nível com o qual sente afinidade: o da paixão erótica, da sensualidade, da ternura, das emoções dominadoras e desesperadas.Puccini é o poeta das pequenas coisas, capaz de perceber o que há por trás do banal, do lugar-comum e de expressar o que ele mesmo chamou de "a pulsação do espírito sob as palavras, o non so che que pede a música, essa arte divina que começa exatamente onde as palavras terminam". Puccini tem um senso teatral como poucos operistas jamais tiveram. Mas esse enorme talento é limitado por algumas contradições de sua índole: ele possuía mais ardor de sentimento do que profundidade espiritual. Possuía a capacidade de identificar-se totalmente com as suas personagens, mas não a de fazer delas seres humanos exemplares, que transcendessem suas características circunstanciais para assumir uma dimensão mais ampla - como acontece com o Verdi da maturidade.O instinto teatral de Puccini era enorme, e sua técnica dramática estupenda. Mas, mesmo no fim da vida, produziu óperas que, no conjunto, são dramaticamente frágeis - como La Fanciulla del West ou Sor Angelica - em que pesem bons momentos isolados. "Puccini nunca é aborrecido ou prolixo, mas nunca consegue ser realmente sublime", afirma Carner - e basta comparar a Tosca ao Otello, ou Madama Butterfly ao Cavaleiro da Rosa, em termos de profundidade na prospecção das paixões, para se certificar de que este não é um julgamento demasiado severo. "Sua arte o situa na fronteira entre o gênio e o talento", conclui, com uma fórmula bastante apropriada.A ópera pucciniana tem sido criticada pela insistência no erotismo e na sensualidade; pelo ataque sistemático à sensibilidade do espectador; por uma certa tendência à vulgaridade e à pieguice; pela sua falta de preocupação com questões éticas elevadas. Mas, na verdade, é um preconceito julgar uma obra por aquilo que ela não tem, condenando-a por não corresponder a determinados padrões de gosto, por não se preocupar com a afirmação ou a discussão de valores filosóficos ou espirituais, ou por apresentar uma visão da vida que parece superficial. O que realmente importa é saber se essa obra consegue traduzir a visão que o artista tem do mundo - seja ela qual for - com intensidade e força de persuasão. Ou seja, se esse artista consegue levar seus espectadores a se identificarem com suas personagens, a experimentarem por elas a sym-pathia no sentido etimológico de "sentir com", de saber como a personagem se sente, de compreender por que ela se sente assim e age da maneira como o faz. E isso Puccini obtém de seu público, não só em relação a personagens "positivas" e dignas de compaixão (Mimì, Butterfly, Angelica, Liù), mas também às "negativas", que inspiram antipatia (Scarpia, a Zia Principessa, Pinkerton ou Turandot).Segundo Carner, Puccini ilustra perfeitamente a máxima de Henry James de que "um artista tem sorte quando suas realizações coincidem exatamente com as suas limitações". E o faz pelo fato de nunca sair dos limites do que lhe é afim, de nunca se aventurar fora do terreno em que sabe poder dispor da plena medida de seu talento. Nesse sentido, não se pode dizer que Chopin, Bellini ou Hugo Wolf tenham sido "artistas menores" porque tenham preferido ficar dentro de um campo em que tinham a certeza de explorar ao máximo suas melhores potencialidades criativas. E Puccini tinha a plena consciência desses limites. Numa carta a Giuseppe Adami afirma não poder trabalhar em outra coisa, senão numa ópera: "Tenho o grande defeito de só saber escrever música quando os meus fantoches se movem no palco. Se pudesse ser um sinfonista puro, enganaria o meu tempo e o meu público. Mas quando nasci, tantos e tantos anos atrás... Deus santo tocou-me com o dedo mindinho e disse-me: ?Escreve para o teatro. Mas presta atenção: só para o teatro!? - e eu segui seu supremo conselho."Mas é absurda, por outro lado, a crítica que lhe foi feita de só saber fazer "musiquinha barata". Seja para o intimismo da Bohème ou a grandiosidade da Turandot, a violência de filme policial da Tosca ou a profunda ironia do Gianni Schicchi, Puccini sempre soube encontrar a perfeita correspondência entre meios e fins. Descendente de quatro gerações de compositores de Lucca, tinha alto grau de profissionalismo e, além disso, possuía dotes pessoais que lhe dão um estilo inimitável: facilidade para compor melodias concisas, extremamente líricas e de uma dramaticidade apaixonada; refinamento harmônico e enorme talento para a orquestração; e um modo extremamente pessoal de escrever para a orquestra, que lhe permite assimilar procedimentos técnicos que estão sendo desenvolvidos por seus contemporâneos (por exemplo, o influxo de Stravinski ou dos impressionistas franceses) sem com isso alterar a personalidade própria de seu estilo.Todas essas qualidades fizeram com que Puccini se tornasse o único compositor italiano, depois de Verdi, a conseguir que a maior parte de sua obra ficasse permanentemente no repertório. Numa fase em que muitos autores sobreviveram com apenas uma ou duas óperas, quando não foram sumariamente relegados ao esquecimento, dele apenas Le Villi e Edgar ficaram como curiosidades de especialista. De Manon Lescaut em diante, todos os títulos pertencem à lista das óperas prediletas do público.

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