O Mistério do Samba é a riqueza da pobreza

Eu sou um pobre homem da Rua Guimarães, hoje Almirante Ari Parreiras, ali no Rocha. E sempre me lembrava do ritmo dos subúrbios do Rio, dos tempos mortos, dos terrenos baldios de capim, das valas, das casinhas geminadas, das mangueiras, de um passado que parecia se mover em câmera lenta, em que os dias eram divididos em manhãs, plena luz, entardecer e noites mais escuras e mais estreladas. Esta semana reencontrei meu passado infantil, pelas mãos de minha filha Carolina. Isso. Fui ver, com temor e dúvida, o documentário O Mistério do Samba, produzido pela Conspiração Filmes, patrocinado pela poética empresa Natura, sob a inspiração de Marisa Monte e dirigido por Carolina Jabor, minha filha ("uh hu hu h u!") e Lula Buarque de Hollanda. E caí para trás. Não porque ela seja minha filha, nem porque conheço o talento de Lula desde pequeno, nem porque vi a Marisa estrear ainda menina, não; o filme é excepcional. Digo isso sem tremor de nepotismo explícito. É um grande barato, um dos melhores documentos poéticos que tenho visto no País. Filmado durante dez anos, produtores e diretores acompanharam a vida e a arte dos sambistas da Velha Guarda da Portela e mostram, com carinho e respeito, o mistério do nascimento do samba. Registraram o que sobrou de 1926, da antiga "Vai como Pode" - as personagens que participaram do parto do samba, como se filmassem a nascente, o olho d?água do grande "rio que passou em nossa vida e levou nosso coração". Sim, porque aqueles homens e mulheres ali, muitos com mais de 80 anos, estavam no início da misteriosa música riquíssima que a pobreza fez, com seus operários, vendedores de rua, carpinteiros, contínuos, lavadores de carro. Hoje, o morro, os subúrbios nos preocupam como berços de violência, tráfico, balas perdidas... mas este filme (as platéias aplaudem de pé dançando ao final) recupera a delicadeza minimalista das letras e melodias de 50, 60 anos atrás, a riqueza da pobreza, a música feita com a simplicidade do pão, da comida, dos amores baldios, da cerveja, do apito do trem passando. Os sambas da velha-guarda salvaram suas vidas. Que seria deles se não cantassem? Não é um filme sobre o passado; é sobre um presente que nascia. Não é um filme de lamento sobre alguma coisa acabada, mas sobre a vitalidade que tem de continuar, que resiste nos subúrbios, apesar da violência da indústria cultural de massas e da boçalidade dos pagodes de jabás e de boquinhas de garrafa ou axés de multidões burras. No filme estão todos os grandes artistas: o espírito de Manacea, Jair do Cavaquinho, Argemiro Patrocínio, Casquinha, Monarco, o filho mais moço Paulinho da Viola, protegidos por Tia Surica e Tia Doca, nele está Zeca Pagodinho, preservando em corpo e alma o espírito desse tempo, hoje. A Portela aparece nas pequenas coisas: sapatos brancos e pretos, as mãos gastas, os rostos comidos pelo tempo, mas vivos de alegria, os pés descalços, os retratos na parede, a comida, as cervejas, os cavaquinhos e pandeiros. Há uma cena em que Zeca conta uma das farras na casa de Argemiro Patrocínio. É incrível como sua pronúncia arrastada e esperta, seus gestos matreiros, as pausas, as elipses de sua fala narram o vaivém da malandragem, do cafajestismo poético, um delicado e amoroso machismo, a fala no ritmo de letra de samba. O filme preserva o modo de vida suburbano do Rio, seus homens e mulheres criando arte, com a sabedoria calma que só a desesperança traz. Como diz o Zuenir no jornal: "um emocionante documento sobre o enigma que envolve a criação artística, como pessoas sem condições materiais são capazes de produzir tantas obras geniais..." Este filme nos evoca na hora o Buena Vista Social Club. Mas acho que o filme de Wim Wenders é maravilhoso na música dos grandes esquecidos que havia em Cuba, como Compay Segundo, Rubem Gonzalez e Ibrahim Ferrer, principalmente pela direção musical de Ry Cooder, mas a cinematografia de Wim, considero mediana e inferior à deste filme, no qual a montagem por associação livre e analogia forma um conjunto com significação poética, além do registro cultural. O Mistério do Samba não lamenta, não evoca, não chora por um passado, e, principalmente, não denuncia. Na cabeça da gente, documentário é para denunciar tragédias ou dramas vivos. Até pode, em documentários essenciais como Notícias de Uma Guerra Particular, de João Moreira Salles, mas, num país como o nosso, surge um novo tipo de documentário tendendo para a ficção, documentários que, em vez de denunciar, querem salvar realidades e fatos, como em Santiago, de João Moreira Salles, trabalhos do Eduardo Coutinho e outros. Aos poucos, as pessoas vão virando personagens, vamos nos apaixonando por elas, aos poucos o documento ganha uma poética ficcional. Também sinto que o mundo da Portela foi ditando o próprio estilo do filme de Carolina e Lula Buarque. O filme aprendeu com os atores, a criação sem o oportunismo do sucesso, a criação pelo prazer e necessidade. O ritmo digno e lento daquelas pessoas, seus quintais, seus quartos pobres, seus botequins dando para a vida, para os trens que passam no silêncio das tardes influenciaram o estilo do trabalho. O resultado é um filme que "é". Que não é "sobre" nada; o filme nasce puro como um samba composto num daqueles botequins, na silenciosa dança do "miudinho" que tia Eunice ensina às meninas, soprando um beijo entre as mãos, como uma ave. Ao terminar a sessão (poucas vezes vi tanto entusiasmo em platéias) me vieram duas frases à cabeça. Uma do Godard: "Todo grande filme de ficção tende para o documentário; todo grande documentário tende para a ficção. Ou seja, todos os caminhos levam a Roma, Cidade Aberta." E a outra frase é de Marisa Monte: "Queria fazer esse filme pela certeza de que a vida ia ser melhor com esses sambas." Pois, melhorou, Marisa.

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