O mistério do infante Ferdinando

Historiadora analisa de que modo formação do soberano no Iluminismo fez dele o ''príncipe dos carolas''

Elias Thomé Saliba, O Estadao de S.Paulo

23 de agosto de 2009 | 00h00

Em meados do século 18, acompanhando a maré de ascensão do despotismo esclarecido, o ducado de Parma, sob tutela da dinastia dos Bourbons, inclina-se na direção de uma política iluminista. Sob a batuta do casal Filipe de Parma e Elisabetta (filha de Luís XV, da França), os parmesãos fortalecem o poder do Estado, criam escolas públicas, confiscam bens da Igreja e suprimem os Tribunais da Inquisição. Fã dos enciclopedistas e frequentadores dos salões ilustrados, o casal confia a educação do filho Ferdinando, o infante de Parma, a dois expoentes das Luzes: o militar Auguste de Keralio e o abade Etienne de Condillac. Todos esperam que o infante se transforme num soberano esclarecido e equilibrado, mas quando sobe ao poder, frustra todas as expectativas: carola, imaturo e supersticioso, reata as relações com o papa, restitui privilégios eclesiásticos, demite assessores esclarecidos e restabelece a Inquisição. Parma não recai na barbárie, mas nenhum europeu presta mais atenção àquele ducado provinciano, endividado e governado por um soberano encharcado de devoção. Mesmo após a sua morte, ele nunca se livraria do apelido de príncipe dos carolas.É essa a fascinante história narrada em O Infante de Parma (tradução de Andre Telles) por Elisabeth Badinter, historiadora apaixonada pelo Iluminismo que já nos deu vários livros importantes sobre o tema. Sensível na escolha do essencial e meticulosa na documentação, Elisabeth põe o leitor em contato com os dilemas da educação de um príncipe no século das Luzes. Destoando das práticas vigentes, Condillac organiza a educação do infante em moldes avançados: prioriza a reflexão em detrimento da memorização; a cooperação substitui a autoridade professoral e o objetivo final é levar o aluno a ''aprender a pensar''. O resultado é, à primeira vista, espantoso: é difícil imaginar que, com 11 anos, o infante dominava a gramática e a arte da escrita, já havia lido inúmeras obras de religião, os teatros de Molière e Racine, a filosofia de Newton (na tradução francesa da marquesa du Châtelet) - sem contar a deliciosa Viagem ao Norte, do filósofo-aventureiro Maupertuis.Percorrendo fontes inéditas, Elisabeth revela-nos um lado obscuro na formação do infante. No aniversário de 11 anos, Ferdinando lamenta-se que tenha vivido ''um ano todo de punições''. Punições eram comuns, até em crianças bem-nascidas, incluindo os príncipes, que levaram rotineiramente varadas, bastonadas ou tabefes. Mas a desobediência mais grave para os seus tutores foi a precoce atração do infante pelos costumes camponeses e pela parte mais supersticiosa e carola da religião. Quando se via livre da tutela, ele se entregava completamente à sua devoção: desenhava santos e relíquias, percorria igrejas e não perdia bênçãos, orações, procissões, preces, cânticos, dobres de sinos, sem contar visitas a camponeses parmesãos, com os quais brincava, e partilhavam de sua beatice. Em 1764, motivado pelas mortes da mãe e da irmã - em decorrência da varíola, mas certamente influenciado por seus tutores iluministas -, o infante decide-se pela inoculação, prática comum (e perigosa) antes do advento da vacina, de inocular a varíola benigna para evitar a maligna. O processo exigia o isolamento do paciente por quase dois meses: ''Foi o período mais alegre de minha vida'', confessou ele em suas memórias.Ainda assim, graças ao circuito da propaganda iluminista, a reputação europeia de ''príncipe ilustrado'' do infante sobreviveu até o seu casamento em 1769, com a autoritária e astuciosa arquiduquesa Maria Amélia, que exerceu sobre ele uma ascendência quase imediata. Isso porque o infante, como seu primo francês Luís XVI, ainda sofria de um incômodo (parecido com a fimose) que o impediu de consumar o casamento, que só ocorreu seis meses após a intervenção do cirurgião da corte. Seu casamento marca decisivamente sua guinada na direção contrária ao Iluminismo.A história do infante pode ser vista como um exemplo de fracasso da fé iluminista no poder da educação? Ou revela apenas que o empenho dos enciclopedistas em experimentar e medir o mundo externo tornava-os incapazes de compreender o ser interior e a subjetividade? Elisabeth não responde, até porque as fontes são muito polêmicas, mas nos coloca em contato com o melhor do que a historiografia já produziu sobre a época. Época iluminista por definição, mas que deixava nas sombras um mundo quase subterrâneo de fatalismo e superstição, no qual pontificavam astrólogos, alquimistas e uma multidão de prosélitos atraídos pela mesmerização, pelas mágicas de Cagliostro ou incríveis promessas de imortalidade. ''As religiões são como vaga-lumes, pois só brilham na escuridão'', diagnosticou Voltaire em 1763.Mas, afinal, o que esperar de uma criança que perdera a mãe quanto tinha 8 anos, a irmã preferida quando tinha 12 e o pai, quando mal havia completado 15 anos? Fosse hoje, o infante provavelmente iria curar-se do precoce déficit emocional gerado pelo luto e pela perda agasalhando-se em alguma modalidade de terapia psicológica. Mas, na época, nada disso era sequer concebível. O que faz lembrar a antiga frase da comédia de Aristófanes, registrada de outro modo (de modo impublicável) pela tradição oral dos teimosos camponeses de Parma: ''Não podes nunca ensinar o caranguejo a caminhar para frente.''Elias Thomé Saliba é professor titular de Teoria da História na USP e autor, entre outros, de Raízes do Riso (Companhia das Letras)

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