''''O meu humor não ofende ninguém''''

Tom Cavalcante explica por que é um dos humoristas mais bem pagos da TV

Entrevista com

Leila Reis, leilareis@terra.com.br, O Estadao de S.Paulo

03 Outubro 2007 | 00h00

Tom Cavalcante desconversa, mas corre que ele é o profissional mais bem pago da Record. O fato é que ele está numa situação privilegiada com mais de três horas de programa no vídeo e desbancando o SBT da vice-liderança, marcando dez pontos de audiência no Ibope tanto no sábado quanto no domingo. Nesta entrevista exclusiva, Tom lembra do sacrifício (de dez anos) para ser admitido na TV, diz que faz humor para o povão e que, na TV, ''''o que tem valor é o retorno comercial''''. E garante que não é vaidoso: ''''Adoro fazer escada para o Tiririca.'''' Como você conseguiu entrar duas vezes por semana no vídeo da Record? Acho que é por causa daquele fenômeno que leva a criança a ver cinco, dez vezes o mesmo desenho. O programa de sábado é feito de reprises e agora passa a ter uma hora e quarenta (22h30). Claro que há um bom trabalho de edição, do diretor Bruno Gomes, um jovem muito bom. Estou duas vezes no vídeo por causa do retorno comercial. A lógica é assim: se dá retorno, eles põem no ar. Na TV, é isso que tem valor. Tanto no sábado como no domingo (16h45), bato o SBT e fico em segundo lugar na audiência. Você está ganhando mais? Que nada, só estou trabalhando mais. Você está co-dirigindo seu programa? O humor exige uma relação muito própria entre diretor e humorista. Isso meio que acontecia no Zorra Total e no Sai de Baixo. Eu recebia os textos com antecedência e os revisava, não mexia com edição porque havia o professor Cassiano. Quis trazê-lo para a Record, mas ele ficou no Rio porque se acertou financeiramente com a Globo. Vim para instalar o núcleo de humor da Record e para colocar em prática tudo que aprendi com Daniel Filho e Maurício Shermann. Você acha que a Globo não enxergou todo o seu potencial? A maneira de a Globo trabalhar com comitês não funcionou comigo. Diziam que tinham um projeto para mim, mas eu nem sabia do que se tratava, porque não podia participar. E que projeto era esse? Não sei, porque apareceu a proposta da Record antes. Foi um momento de decisão. Você não teve medo de trocar de emissora? O medo maior foi sair de Fortaleza, largando filhos e meu trabalho no rádio, para bater na porta da Globo. Na primeira vez, saí calado, não contei para ninguém que ia tentar a sorte. Não deu certo. Na segunda vez, alardeei que ia ser artista no Rio. Os jornais deram isso na manchete, mas eu não tinha nada. Passei dez anos tentando ingressar na Escolinha do Professor Raimundo, voltava para Fortaleza na surdina para ninguém saber. Depois voltei para Fortaleza, trabalhava na rádio da meia-noite às 6 da manhã e fazia shows nas barracas da praia, quando conheci Tasso Jereissati, que me chamou para fazer comícios. Participei de grande parte dos comícios de Mário Covas para presidente. Clóvis Rossi escreveu no Estadão que havia um dublê de humorista que animava os comícios. Vim para São Paulo para fazer teste no Show de Calouros, mas me quiseram. Já havia conhecido Chico Anysio em Fortaleza, quando Fagner e o Zico (do futebol) me levaram a ele de novo. Ele me contratou para fazer redação, sem sair de lá. Mas eu ia para o Rio, fiz algumas figurações na Globo; vivia da merreca que me pagavam e com o que meu pai me mandava. Quando Chico voltou para um show em Fortaleza, um amigo me disse: mostra o bêbado pra ele. ''''Pronto, é esse o personagem que você vai fazer'''', disse Chico. Em 92, entrei para a Escolinha. Você e Chico Anysio brigaram. Hoje estão em lua-de-mel. Como vocês superaram a crise? Chico é muito sério e apaixonado pelos que o rodeiam e eu sou uma cria dele. Quando saí da Escolinha para fazer o Sai de Baixo, ele ficou enciumado. Eu disse tchau e obrigado. O programa saiu do ar e quando voltou há uns quatro anos, me chamaram para fazer o João Canabrava para dar uma alavancada na audiência e eu fui. Ficou tudo bem. Hoje viajamos para as principais capitais com o show Chico Ponto Tom e a gente canta uma música que diz: ''''É Tom, é Chico, não tem mais fuxico.'''' Qual a razão de o seu programa bater o Gugu e SS no domingo? Pesquisas mostram que o domingo é um dia que as pessoas querem rir para agüentar a barra da segunda-feira. E acho que é isso mesmo, porque já cheguei a ganhar de futebol na Globo, isso quando o jogo é ruinzinho. Procuro estudar a concorrência e notei que a Praça da Sé é um ótimo lugar para realities shows. Monto um show e em uma tarde gravo material para três programas com a participação do público. A audiência está gostando, mas o problema é que ela é muito cíclica: muda de gosto sem a gente saber quando nem por quê. Imitar artistas de outra emissora não é pegar carona no sucesso alheio? Essa é uma prática em todo o mundo, a não ser que você queira imitar o formato do programa... Não foi isso que você fez com o Qual É a Música? Eu não, foi o diretor Vidomar Batista. A similaridade era tanta, que muita gente pensava que era o Silvio Santos. Tiramos o programa do ar antes de o SBT entrar com processo e não imitei mais o Silvio. Quando der vontade imito de novo. Já quiseram me rotular de parodiador, mas a gente mudou o programa, não fez imitações, e ainda assim ganhamos ibope. Qual o diferença do seu humor com o que tem sido feito na TV hoje? Faço humor para o povão. Rico vê TV a cabo e viaja no fim de semana, quem me vê é o cara que trabalhou a semana toda e só tem esse lazer. Tenho o melhor grupo de humoristas populares no palco: Tiririca, Shaolin, Pedro Manso, Falcão... E faço um humor que não ofende ninguém, não é preconceituoso. Nosso programa não explora mulher gostosa com pouca roupa, não tem piadas grosseiras, tomo muito cuidado para não haver apelação. Em 96, uma pesquisa da FGV me apontou como o artista mais popular do Brasil. Você tirou alguns humoristas do ostracismo. É uma missão? É, sim, porque sofri muito para ser admitido nesse meio. E também porque quero tirar o melhor desses profissionais. Você é o artista mais bem pago da Record. Em que atividade você ganha mais dinheiro? Já fui um dia, mas hoje não. Na verdade, sou pioneiro na Record e continuo apostando na emissora. Ganho mais dinheiro com shows, em convenções de empresas, porque são poucos que fazem isso. É verdade que seu cachê é de R$ 100 mil? É mais ou menos isso, mas tem muita negociação. Mas escreva que eu pago muito Imposto de Renda, faço questão de pagar para não ter problema com a polícia federal e vocês colocarem no jornal. Qual foi a grande roubada em que você se meteu? Quando decidi fazer show em um ginásio municipal em Natal, para 16 mil pessoas. Surgiu um grande tumulto porque as pessoas no fundo não entendiam o que eu falava. Houve protestos, briga, polícia batendo no povo. Quase que tive de sair dentro de um camburão. Devolvemos o dinheiro, mas fiquei quase cinco anos sem ir a Natal de vergonha. Qual é o seu projeto? Estou num momento muito feliz, porque nunca tive tanta liberdade de criação. E a emissora também está feliz porque a relação custo-benefício é muito boa em programa de humor. Chego a dar 16 pontos no Ibope a um custo muitas vezes inferior ao de um capítulo de novela. Quero estabelecer meu nome na TV, como um profissional de qualidade que traz resultado para a emissora. Você é muito vaidoso? Na época do Sai de Baixo, quiseram imputar a mim a fama de pessoa totalitária, de querer ser mais do que os outros. Mas não é verdade. Não tenho problema em ser escada para o Tiririca, Shaolin, adoro curtir o humor que eles fazem.

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