O menino de Copacabana que nos ensinou a ver

O menino de Copacabana que nos ensinou a ver

Imagem do garoto é uma aula. Uma lição sobre o que vale a pena ver, o que vale a pena olhar

Simonetta Persichetti, ESPECIAL PARA O ESTADO 

07 Janeiro 2018 | 06h01

O ano de 2018 começou muito bem. Pelo menos no que diz respeito à imagem. Uma fotografia, singela, linda, viralizou nas redes sociais e criou uma celeuma como há muito não se via! Sim, muitas fotos antes desta já marcaram época e se tornaram significativas. Mas o que assusta nesse vozerio é muito mais o pré-conceito (escrevi assim mesmo) do que a imagem em si. 

Uma fotografia é uma fotografia! Não afirma nem nega nada! É um átimo, um recorte de um olhar atento que, em frações de segundo, traz a visão de um fotógrafo que metaforicamente quer nos contar uma história. Olhares apressados, acadêmicos que quiseram – seguindo a onda do momento – escrever antes que os outros e publicar, olhares que não deram o tempo da fotografia nem para a fotografia – parafraseando o professor brasileiro Boris Kossoy. Pressa em julgar fotógrafo e fotografia! Faltou tempo para analisarmos a imagem. 

O que vemos diante de nós – e, por favor, vamos deixar de lado se a fotografia originalmente era colorida e a Reuters transformou em preto e branco –, conversa inútil, é uma fotografia potente que traduz nosso momento. Enquanto milhares de pessoas dão as costas para os fogos, para a festa e vemos o espocar dos flashes dos celulares, um menino resolve olhar para o céu e aprender – ou já sabe, ou muito mais provavelmente, confirmar o que os seus olhos veem e celular nenhum pode trazer. Ele assiste sem mediação, sem necessidade de provar, por meio das imagens falsas de rede sociais, ou por meio do que alguns decidem que é visível, nas ondas de Iemanjá ele se isola, ele vê e seu olhar é de encantamento! 

O que tem nela que nos agride, nos afasta? Por que tentaram acusar o mensageiro, o fotógrafo – o carioca Lucas Landau – que, procurado pela reportagem, não quis se manifestar por ora? E com razão. Não há sentido! Uma fotografia não é uma linguagem universal, ela é plena de códigos que esperam ser desvendados. Alguns falaram em espelho! Não, ela não é espelho, é apenas a visão de um fotógrafo sobre determinado assunto. Uma opinião. Outros tentaram parafrasear o filósofo francês Georges Didi-Huberman e escrever sobre o que vemos e o que nos olha. 

Se levássemos em conta todas as discussões levantadas nos últimos dias, nunca teríamos visto a famosa foto daquele que foi considerado o fotógrafo do século 20, o francês Henry Cartier-Bresson, que, em 1954, fotografou um menino feliz e orgulhoso por carregar duas garrafas de vinho numa rua parisiense e, atrás dele, vemos uma menina saltitando e batendo palmas. Muito menos veríamos a foto de um garoto segurando um filhotinho de cachorro, feito pelo fotógrafo húngaro André Kertesz em 1928. Isso sem falar da foto mais dramática do vietnamita Nick Ut, feita em 1972, a imagem emblemática da menina do Vietnã e também o não menos discutido registro do fotógrafo sul-africano Kevin Carter, realizado nos anos 1990, de uma criança num campo de refugiados no Sudão e que, pelo recorte fotográfico, parece estar à morte com um abutre atrás dela, esperando o desfecho.

Fotografias são metáforas, pontos de discussão e reflexão! A foto de Lucas Landau é, na verdade, uma aula sobre o ver, ver por meio dos nossos olhos e não por meio de aparatos. Não é – como muitos disseram nas redes sociais, ou pelo menos não parece ser, – a foto de um menino negro abandonado – é a foto de olhos que querem conhecer o mundo, enxergar. É uma foto que nos diz que vale a pena olhar por nós mesmos! Uma maneira de nos apropriarmos do mundo por meio do olhar. Uma fotografia não representa o mundo tal como ele é, mas de acordo com as convenções de cada um! A pesquisadora de imagem francesa Martine Joly esclarece muito bem que “uma imagem pode ser tudo e seu contrário – visual e imaterial, fabricada e natural, real e virtual, móvel e imóvel, sagrada e profana, antiga e contemporânea, vinculada à vida e à morte, analógica, comparativa, convencional, expressiva, comunicativa, construtora, destrutiva, benéfica e ameaçadora”. 

Hoje, julgamos e somos julgados pelas imagens. No fim da década de 1960, o também francês Guy Debord escreveu em seu livro A Sociedade do Espetáculo: “Ali, onde a realidade se transforma em simples imagens, as simples imagens se transformam em realidade”.

Toda essa parafernália discursiva é bastante eficiente para nos chamar a atenção para o que vale a pena olhar, para o que vale a pena ver. Uma fotografia de réveillon, que passaria despercebida, nos chamou a atenção para que, mais uma vez, pudéssemos discutir o papel da imagem numa sociedade que se diz imagética, mas que ainda precisa de um texto para decifrar uma fotografia. 

SIMONETTA PERSICHETTI É JORNALISTA, CRÍTICA DE FOTOGRAFIA, PROFESSORA DA FACULDADE CÁSPER LIBERO E PÓS-DOUTORA EM JORNALISMO PELA USP

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