O melhor amigo do homem

Religião está na mídia. A Índia também.Dogmas, crenças, doutrinas, pecados, o certo, o errado, ética, crime, castigo, fé, perdão são assuntos que sempre estiveram e possivelmente sempre estarão na mídia, seja a mídia meia dúzia de pessoas que ouviam o filósofo filosofar ou a rede internacional de notícias.Toda vez que paro para pensar nesses conceitos, me lembro de como a minha cabeça deu voltas e mais voltas quando estudei a Gita, com Luiz Guilherme Estellita Lins, meu professor de Vedanta.A Bhagavad Gita é uma conhecida passagem do clássico Mahabharata - um livro sagrado do hinduísmo.É filosofia? É mitologia? É religião?É libertador.O texto, escrito há milhares de anos, inspira, instiga, perturba as nossas noções de certo e errado, e por isso mesmo, acho eu, devia estar sempre na mídia.Porque pensar é bom.Arjuna era um príncipe que teve o trono usurpado pelo primo Duriodhana. Após várias tentativas de acordo, não houve outra alternativa senão partir para a guerra. Foi dada a Arjuna a possibilidade de escolher, como companheiro de luta, ou um grande exército com os melhores soldados que existiam, ou apenas Krishna, seu amigo deus. Mas havia um porém. Krishna ficaria impedido de usar seus poderes divinos. Arjuna escolheu Krishna.Na hora de começar a guerra, em pleno campo de batalha, ao ver seus parentes e amigos no exército inimigo, Arjuna titubeou. Não achava certo matar pessoas, muito menos matar pessoas do seu povo, e muito menos ainda matar pessoas do seu povo por causa de um reino.E não há quem não compreenda o nobre sentimento de Arjuna. É uma crueldade matar. É errado ambicionar poder. Tudo deve ser feito em nome de paz.Mais difícil, a princípio, é compreender os argumentos de Krishna quando tenta convencer o amigo de que a guerra é necessária.Sem dúvida, o pensamento transcendental de Krishna, para quem "não há morte para quem vive, nem nascimento para quem morre" de certa forma atenua a ideia de uma guerra. Se a vida é eterna, a alma é indestrutível e o ser é a plenitude, a morte é quase um detalhe. Mas Krishna não está ali para atenuar nada. Ele insiste que Arjuna é um guerreiro e que os guerreiros devem lutar, que Arjuna não tem o direito de abandonar seu povo nas mãos de um tirano, que o povo espera que Arjuna aja e é isso que ele deve fazer, pois só os idiotas acreditam que ao fugir da ação estão não agindo. A "não ação" de Arjuna, segundo Krishna, na verdade seria uma ação que traria consequências desastrosas, assim como a batalha também traria. Além disso, o deus afirma que aquela guerra não pertence a Arjuna, nem aquele reino, nem aquela decisão, nem mesmo Arjuna pertence a Arjuna. Portanto, só cabe a ele fazer a ação correta. E o resultado disso será o resultado da sua ação, mais incontáveis variantes que não dependem dele. E conclui: "Faça suas ações e apenas aceite os resultados. Levante e lute."A Gita nada mais é do que o diálogo entre um homem, diante de um dilema, e um deus. A diferença, básica para nós, ocidentais, é que esse deus nem sempre pensa da forma que esperamos que um deus pense.Mas quem somos nós para adivinhar pensamentos de deuses?Krishna, aquele que se diz "o tudo e o nada", conversa com Arjuna, de igual para igual, sobre suas fraquezas. Ouve e fala. Responde e pergunta. Provoca e consola. Surpreende. Compreende.Que alento que dá a ideia de um deus amigo.É como um amigo que eu, cá no meu canto, penso no meu Deus.

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