O melancólico fim do detetive policial

Para o argentino Pablo de Santis, que conversa hoje com o público, personagem foi substituído por equipes de especialistas

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 00h00

Um grupo de renomado investigadores conhecido como os Doze Detetives é surpreendido quando um deles aparece morto, na base da famosa Torre Eiffel. A época é a transição do século 19 para o 20 quando a construção da moderna torre sofre inúmeras críticas por agredir a tradicional arquitetura da cidade. A resolução de todos os problemas é a chave do romance policial O Enigma de Paris (Planeta, R$ 38, 256 páginas), do escritor argentino Pablo de Santis.Autor também de O Calígrafo de Voltaire (José Olympio), De Santis participa hoje de um debate no Instituto Cervantes. O encontro será mediado por Nelson de Oliveira, que vai discutir a curiosa formação do argentino - afinal, aos 20 anos, ele trabalhou em uma revista chamada Radiolandia 2000, que tratava de escândalos, romances e fenômenos paranormais. E a redação era formada por pessoas de todos os tipos (videntes, astrólogos, mentalistas) que, segundo ele, auxiliaram em sua formação. Antes de chegar a São Paulo, De Santis conversou por e-mail com o Estado.Qual é o futuro do gênero policial?É um gênero que invadiu toda a literatura - grande parte da narrativa contemporânea pode ser lida sob a chave policial. No caso da Argentina, o gênero sempre esteve relacionado com a literatura fantástica. Nossos grandes autores escreveram ou policiais ou obras de fantasia: Borges, Cortázar, Bioy Casares, Marco Denevi, Silvina Ocampo, Rodolfo Walsh.O Enigma de Paris seria uma homenagem ao detetive clássico?É tanto uma homenagem como uma destruição do detetive clássico, porque o romance o mostra como uma espécie em extinção.É por isso que esses detetives têm um passado aristocrático?Todos os detetives são, de uma certa forma, homens que inventaram a si mesmos, desejando um passado ilustre. Também nós, escritores, gostamos de nos inventar sempre: uma tradição, um momento em que começamos a escrever, a origem quase mágica de um romance...O cinema seria sua grande influência?A literatura é minha maior influência. Ela estimula a fazer coisa com as palavras. Acredito que o cinema nos mostra aquilo que ele mesmo utilizou da literatura do século 19.Você disse, certa vez, que o detetive como herói já não existe mais. Por quê?A figura do detetive clássico, solitário, foi substituída por equipes de especialistas. O gênero ganhou assim em realismo, mas perdeu seu destino. Porque o gênero nunca foi uma representação dos métodos policiais: o romance policial não foi outra coisa que a revelação de como a história verdadeira está escondida, de como o passado cai com todo seu peso sobre o presente. O detetive é uma figura com um grande peso metafórico: o homem que busca a verdade em um mundo de aparências enganosas.Qual a relação existente entre filosofia e romance policial?Os limites e as possibilidades da razão sempre colocaram em contato a filosofia e o romance policial. Alguns filósofos eram fanáticos por esse gênero: Wittgenstein, por exemplo, se encantava com as ásperas histórias norte-americanas. Em O Enigma de Paris, os detetives se consideram ''''filósofos da ação''''. Acreditam que, com suas observações, não apenas solucionam um enigma como ilustram um caso policial com suas idéias. A percepção tem sido um dos grandes temas da filosofia e o romance policial trata freqüentemente dos enganos e das ilusões da percepção. Além disso, assim como Platão pregava que o filósofo se opõe à opinião geral, também o detetive deve opor-se aos automatismos do sentido comum.Quais são seus detetives preferidos? E por quê?Cresci lendo Hercule Poirot de Agatha Christie e o comissário Maigret de Simenon, mas prefiro os personagens de Durrenmatt, James Ellroy ou Patricia Highsmith. Gosto muito de um conto de Borges, A Morte e a Bússola. Creio que o gênero nasceu, curiosamente, dos contos mais amenos de Poe, já que seus relatos de horror são mais poderosos que seus contos policiais.E qual a importância de uma cidade em um romance policial, no caso Paris?A história do romance policial narra a passagem do quarto fechado para a cidade fechada. Porque, no gênero noir, a cidade é um espaço claustrofóbico, asfixiante. O detetive é o primeiro herói imóvel da literatura: antes, os heróis (piratas, capitães, aventureiros, exploradores) precisavam viajar de um lugar para outro, mas o detetive encontra na cidade seu destino e, no quarto - a cena do crime -, seu lugar no mundo. Além disso, o detetive espera: são comuns as cenas de Sherlock Holmes diante da lareira ou dos detetives de Hammett ou de Chandler em seus escritórios. Os heróis de aventura, por outro lado, nunca esperavam: eram heróis porque não sabiam esperar.Que relação tem Paris com Buenos Aires?A arquitetura de Buenos Aires imita a de Paris e a cultura francesa foi a grande obsessão da Argentina. Quando nosso país enviou a Paris o panteão para a Exposição Universal de 1889, de que trata meu romance, havia uma mostra de arte: mas eram todos artistas franceses. A Argentina mostrava a arte francesa como algo próprio, o que, a nossos olhos, é absolutamente absurdo.Você conhece alguma história policial brasileira? E qual é sua expectativa de vir ao Brasil?Já estive diversas vezes em seu país: São Paulo, Rio de Janeiro, Belém, Porto Alegre, Paraty. Sobre a literatura policial brasileira, conhecemos bem, na Argentina, a obra de Rubem Fonseca e também o romance policial em que Luis Fernando Verissimo homenageia Borges (no livro Borges e os Orangotangos Eternos).Serviço Pablo de Santis. Instituto Cervantes (100 lug.). Avenida Paulista, 2.439, 3897-9609. Hoje, às 19h30. Entrada franca

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