O mais recente ''atrito'' de Borges com Perón

É bem provável que não avance a idéia de Cristina Kirchner de transferir da Suíça para a Argentina o crânio do escritor que não apreciava as maneiras do ditador

Gilles Lapouge, PARIS, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2009 | 00h00

O grande escritor Jorge Luis Borges, morto em 1986, foi enterrado na Suíça, no cemitério do Plainpalais, em Genebra. Agora, uma deputada peronista entendeu que o distanciamento dos ilustres restos mortais é lamentável. Com o apoio da presidente argentina, Cristina Kirchner, foi solicitado que os restos de Borges sejam repatriados para sua pátria argentina. A viúva de Borges ficou indignada.É provável que a ideia da presidente Cristina Kirchner não avance. Não é a vez Borges tem um "atrito" com Perón. O primeiro fato ocorreu em 1946. Perón reinava, e Borges não apreciava as suas maneiras. Ele, então, se vingou: Borges era o diretor da Biblioteca Nacional da Argentina. Perón o nomeia para o posto de "inspetor de galinhas", nos mercados de Buenos Aires.O crânio e os ossos de Borges provavelmente continuarão em Genebra. Esse crânio e esses ossos, eu já os vi. Cheguei mesmo a tocá-los. Foi em 1964. Borges, que estava completamente cego, passou por Paris. Eu o entrevistei no apartamento do seu tradutor, Nestor Ibarra. A uma das minhas perguntas, ele me explicou por que começou a escrever não apenas poemas, mas também "ficções", em 1939.Antes, ele caçoou de mim: "Em 1939? Tem certeza? O senhor é um estudioso. Chegou quatro anos próximo, não é falso. Diga a data que o senhor acha melhor. Tudo é interessante, mesmo os erros." Em seguida, voltou à minha pergunta: por que começou a escrever "contos"? "Eu vou lhe dizer. Foi por causa deste buraco, no meu crânio".Ao mesmo tempo, ele inclinou a cabeça e se aproximou de mim. Eu me afastei ligeiramente. E ele me disse: "Sim, sim! Passe a mão. Você vai sentir uma fratura dos ossos. Sofri um grave acidente de elevador. Passei dez dias no hospital. Fiquei inquieto. Temia ter perdido minha integridade intelectual. Não ousava mais escrever poemas. Se eu fracassasse, isso queria dizer que eu me tornara um louco ou um idiota. Então, recorri a um estratagema. Pensei: ?Se eu fizer alguma coisa que jamais fiz antes, escrever contos por exemplo, não corro riscos. Se malograr, sempre poderei dizer, bem, é porque nunca escrevi contos.? Não sei escrever contos, só isso, mas isso não significa que fiquei louco. Foi então que escrevi Pierre Menard, Autor do Quixote."Então, Borges pediu para eu tocar novamente o seu crânio. Pressionei um pouco com os dedos, tremendo. Ele insistia. "Um pouco mais... Está sentindo?" Sim, eu sentia. Era espantoso. Extraordinário. Sob os meus dedos sentia palpitar (ou talvez fosse pura imaginação) aquele cérebro que tinha escrito tantos poemas, tantos contos geniais.Essas lembranças (que relatei longamente em meu livro En Étrange Pays (Em País Estranho) voltaram à minha mente quando soube que uma peronista queria recuperar o crânio de Borges. Por que não recuperar também, ao mesmo tempo, o cérebro dele, esse cérebro que eu toquei "com temor e tremor", num dia do longínquo ano de 1964? Naquele mesmo dia Borges explicou-me que, na noite anterior, chegando a Paris, ele se fez levar à Praça Pigalle. "Você conhece, é onde ficam as prostitutas. Sabe, não consegui me conter. Em plena Praça Pigalle, comecei a declamar aos berros poemas de Verlaine e o início de La Chanson de Roland (A Canção de Roland). Minha secretária me disse que as putas me escutavam."Desse meu encontro com Borges, o que retenho na memória é o tremor do seu cérebro sob meus dedos e o velho poeta cego bramindo versos de Verlaine para as prostitutas da Praça Pigalle.O pedido dos peronistas para recuperar os ossos do grande argentino é ainda mais bizarra no caso de um homem, Borges, que duvidava, ele próprio, da sua própria realidade. Reli, ao saber do pedido feito pelos peronistas, este belo e pungente poema de El Hacedor (O Fazedor): Borges e Eu."É ao outro, a Borges, que as coisas acontecem. Caminho em Buenos Aires, paro por um momento, quase maquinalmente, para olhar o arco de um saguão, as grades de um portal. Tenho notícias de Borges pela correspondência, quando vejo seu nome proposto para uma cátedra ou num dicionário biográfico."

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