O mais ético dissidente da Revolução Soviética

A história de Victor Serge, um dos mais injustiçados e produtivos intelectuais do século passado

Sérgio Augusto, O Estadao de S.Paulo

13 Outubro 2007 | 00h00

Para relembrar os 90 anos da Revolução Soviética, só a editora Boitempo lança, na próxima semana, três títulos: o relato de um dos líderes do levante bolchevique (A Revolução de Outubro, de Leon Trotski); as reflexões de um sociólogo marxista brasileiro, radicado em Paris há 30 anos (As Utopias de Michael Lõwy); e O Ano I da Revolução Russa, de Victor Serge. O samovar mais valioso é o terceiro livro. Cobre apenas o primeiro ano da revolução, mas é uma esplêndida aula de história: minuciosa, apaixonada, analítica, e marcada por uma inquebrantável esperança do autor nos ideais socialistas, sem tardança conspurcados pelo oportunismo e a sede de poder dos morubixabas soviéticos. Ainda que não fosse o que é, O Ano I da Revolução Soviética (475 págs., R$ 69,00) seria leitura obrigatória por ter sido escrito por um dos mais injustiçados heróis éticos e intelectuais do século passado: o incansavelmente dissidente e produtivo Victor Serge. Ou o ''''inextinguível Victor Serge'''', para usar o adjetivo que Susan Sontag julgou o mais adequado para qualificá-lo, no belo ensaio que introduz a edição americana de Affaire Tullaév, polifônico romance sobre o terror stalinista, que na versão editada pela New York Review of Books virou The Case of Comrade Tulayev (362 págs., já por US$ 8 na Amazon). Inextinguível porque, além de cair no ostracismo e ressuscitar galhardamente, Serge conseguiu sobreviver ao Grande Terror stalinista e às campanhas de difamação movidas pela esquerda servil e desonesta e pela direita mais velhaca da Europa. Preso e desterrado inúmeras vezes, na Rússia, França, até em Havana, quando a caminho do México, seu derradeiro exílio, em nenhum momento baixou a guarda contra a malversação de sua utopia. ''''O único significado da vida é a participação consciente na formação da história'''', anotou em seu diário, acrescentando: ''''É preciso alinhar-se ativamente contra tudo o que apequena o homem e envolver-se em todas as lutas que tendem a libertá-lo, e engrandecê-lo.'''' Em todas as lutas se meteu, utilizando-se dos meios disponíveis: da agitação política, pura e simples, da polêmica, da panfletagem, do jornalismo, do ensaísmo, da memorialística, da ficção e da poesia. Biografou a revolução dos sovietes e também Lenin, Stalin, Trotski, o fracassado levante anarco-sindicalista de Barcelona em 1917 (tema de Naissance de Notre Force), traduziu Trotski, e dissolveu em sua prosa ficcional as amarguras timbradas pela traição stalinista. Um precioso resumo de tudo isso está em suas Memórias de um Revolucionário, escritas na Cidade do México entre 1942 e 1943, que a Cia. das Letras traduziu em 1987 e Isaac Deutscher usou como uma das fontes de sua monumental biografia de Trotski, relançada pela Civilização Brasileira no ano passado. A reconstituição que Serge faz da queda do czarismo e dos embates entre as esquerdas russas começa em 6 de outubro de 1917, durante a Conferência Democrática, improvisado parlamento dos socialistas-revolucionários e mencheviques. Aberta um mês antes em Moscou, àquela altura já se transferira para Petrogrado, por pressão de garçons de restaurantes e hotéis moscovitas, que, espontaneamente ou coagidos pelo governo provisório de Kerenski, se recusavam a servir seus participantes. Toda a Rússia era um campo minado de agitadores e salvadores da pátria. Contra e a favor do governo provisório. É Trotski quem primeiro surge em cena, retirando os bolcheviques da assembléia e lançando, ''''com sua voz metálica'''', um desafio a Kerenski, em nome dos proletários e dos camponeses. Em pouco tempo, a Rússia estará bolchevizada e a insurreição nas ruas. A luta encarniçada pelo controle da revolução, a fome, os massacres, os equívocos (o Tratado de Brest-Litovski, por exemplo), o bloqueio que as nações ocidentais impuseram à Rússia em 1918, o comportamento dos intelectuais (os poetas revelaram-se aliados de primeira hora, mas os escritores titubearam, sendo que Máximo Gorki, a princípio hostil, pouco demorou a aderir, entusiasticamente) - tudo isso Serge reconstitui nos mínimos detalhes, mas em clave diferente das de outras consagradas testemunhas oculares, como o americano John Reed de Dez Dias que Abalaram o Mundo. Ao fundo, ainda coadjuvante na cúpula revolucionária, o maior espertalhão da Geórgia, Josef Stalin, preparando o bote que daria após a morte de Lenin em 1924, capítulo para outro volume. Serge chegou a terminar a história do Ano II, mas os beleguins soviéticos desapareceram com os originais. O terror de estado se implantara de maneira implacável, atingindo seu ápice no final dos anos 1930, com os expurgos, as intrigas, as torturas, os banimentos e as execuções sobejamente conhecidas. Num posfácio, escrito 30 anos depois do primeiro ano da revolução, Serge, já no México e a três meses de sua morte, destaca a profunda transformação das instituições, dos costumes e dos quadros do Estado provocada pelos expurgos de 1938 e 1939 (e mesmo antes), acusando sem rebuços o ''''regime perfeitamente totalitário'''' em que se transformara a União Soviética, à mercê de ''''senhores absolutos da vida social, econômica, política e espiritual do país, não desfrutando de direito algum o indivíduo nem as massas''''. De passagem, comenta a desastrosa interferência de Stalin na Guerra Civil espanhola e o não menos equivocado pacto com Hitler, que durante 22 meses envergonhou os comunistas mais ingênuos ou escrupulosos. Nem assim perdeu a fé na solidariedade humana e na viabilidade de um mundo rigorosamente igualitário. Em agosto de 1947, Serge prognosticou: ''''A grande maioria do povo russo se dá conta perfeitamente da impostura do socialismo oficial. Não sendo possível retorno algum ao antigo regime ou mesmo ao grande capitalismo, devido ao alto grau de desenvolvimento atingido pela produção estatizada, no momento em que toda a Europa se encaminha para as nacionalizações e para a planificação, a democracia russa não poderia senão sanear, refinar e reorganizar, em benefício dos produtores, a produção socializada (...) Nem tudo está perdido, uma vez que nos resta essa esperança racional, intensamente motivada.'''' A primeira observação estava correta. O resto era só wishful thinking. Como teria Serge reagido à queda do Muro de Berlim e ao capitalismo bandido implantado na Rússia? Victor Lvovich Kibalchich, que se orgulhava de ter sido ''''um exilado político desde o berço'''', era filho de um casal russo exilado pela tirania czarista pouco antes de ele nascer, em 1890, bem no meio da Europa, em Bruxelas. Viveu parte da juventude em Paris, entre os anarquistas, e lá gramou 15 meses de cadeia, sob a acusação de ''''simpatizante bolchevique''''. Em 1919, foi pela primeira vez à sua quase terra natal, apoiar in loco a nascente revolução comunista. Lutou em Petrogrado e Moscou. A serviço do Comintern, viajou, em 1922, a Berlim e Viena, onde agitou, editou um jornal, e anteviu, em 1925, o avanço do fascismo na Áustria. De volta à Rússia em 1926, aliou-se à oposição de esquerda, liderada por Trotski, de quem era aliado desde 1923. Expulso, quatro anos depois, do Partido Comunista, mofou uns tempos na prisão. Em liberdade, dedicou-se a escrever ficção e ensaios de história, até ser preso novamente em 1933 e deportado para Orenburg, nos confins da Rússia com o Casaquistão. Já estava no desterro havia dois anos quando um congresso internacional ''''pela defesa da cultura'''', fórum estelar com escritores do mundo inteiro, organizado em Paris, sob a presidência de André Gide e André Malraux, concentrou esforços para libertá-lo, apesar das manobras em contrário dos emissários e sabujos do Comintern presentes ao encontro. Se os apelos de Gide (que logo se revelaria um défroqué do regime implantado na Rússia) livraram Serge da violência física, foram as gestões do simpatizante Romain Rolland junto a Stalin que afinal ajudaram a alforriar o intelectual belgo-russo. Deportado num trem para Varsóvia, com os dois filhos e a mulher, Liubov Rusakova (que fora estenógrafa de Lenin em 1921), esticou a viagem até Bruxelas. Lá aderiu à Quarta Internacional, mesmo sabendo não ser a dissidência trotskista uma alternativa viável às doutrinas e práticas leninistas que, a seu ver, haviam incubado a tirania stalinista. Correligionário e tradutor de Trotski (Serge era fluente em francês, russo, alemão, espanhol e inglês), não o via desde 1929, quando o ''''profeta desarmado'''' arrumou as malas e começou a fugir dos sicários de Stalin. Sua ruptura com Trotski, que não via desde 1929, coincidiu com sua chegada a Paris, em 1937, mas não teve por causa as intrigas, armadas pelo Comintern e alguns intelectuais franceses, de que Serge não passava de um agente da GPU, a polícia secreta soviética, que sucedeu à Cheka, a partir de 1922. De seu exílio no México, o ''''profeta desarmado'''' o denunciou como um anarquista enrustido. Por respeito e afeição ao amigo, Serge não respondeu. Pelo que se lê na pág. 489 de O Profeta Banido, o terceiro e último volume da biografia de Trotski, escrita por Isaac Deutscher, o pomo da discórdia foi a supressão da revolta dos marinheiros de Kronstadt, em 1921, reatribuída a Trotski por Serge no final dos anos 1930. Trotski assumia o massacre, mas, ao contrário de Serge, não o tinha na conta de um erro político fatal. Levantar a velha mancada em plena Guerra Civil espanhola, pareceu-lhe um despropósito inoportuno. Com a ocupação da França pelos alemães, Serge (sobrenome que adotara na Espanha) refugiu-se em Marselha, na companhia de André Breton, Max Ernst e André Masson. Enquanto esperava um visto para algum lugar bem longe do terror nazista, tocou adiante Affaire Tullaév, que iniciara em Paris e concluiria no ano seguinte. Romance à clef, mas não autobiográfico, síntese ficcional dos tribunais soviéticos de 1936, 1937 e 1938, O Caso do Camarada Tulayev nunca desfrutou da mesma fama de O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler, por não ser um romance convencional. É pura ficção russa, com raízes em Dostoievski, Tchecov, Zamiatin e Babel, um clássico à espera de uma tradução brasileira. Breton, Ernst e Masson receberam vistos para os EUA; Serge teve de se contentar com uma oferta do México, para onde zarpou em março de 1941, sem a mulher (confinada a um manicômio de Aix-en-Provence) e a perspectiva de reencontrar e acertar seus ponteiros com Trotski, assassinado sete meses antes. Por problemas burocráticos e policiais na República Dominicana e em Cuba, demorou cerca de 180 dias para chegar ao seu destino. Viveu seis anos no México. Ainda nutria esperanças de conseguir um visto para a França, quando, subnutrido, maltrapilho e atormentado por uma angina recalcitrante, enfartou, como o poeta Robert Lowell, no banco traseiro de um táxi, em 17 de novembro de 1947. Só o músculo da coragem e das escolhas afetivas conseguiu extingüir o inextingüível Victor Serge.

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