O maior ''ensaio visual'' sobre Iberê

Fundação gaúcha exibe mais de cem obras do mestre, entre pinturas e desenhos, ressaltando a coerência em sua trajetória

Elder Ogliari, O Estadao de S.Paulo

07 de abril de 2009 | 00h00

A nova exposição da Fundação Iberê Camargo remete aos diferentes olhares do mestre do expressionismo brasileiro para a natureza, o homem e as formas. Inaugurada no fim do mês passado, em Porto Alegre, é a maior exibição do acervo da instituição e a primeira assinada por curadoria internacional. Entre as 4 mil peças disponíveis, a crítica de arte argentina Maria José Herrera, chefe do Departamento de Pesquisa e Curadoria do Museu Nacional de Bellas Artes de Buenos Aires, selecionou 37 pinturas e 62 desenhos e estudos do pintor gaúcho para enquadrá-las no que qualifica de "ensaio visual" sobre a obra do pintor. Começa pela relação de Iberê com as formas, sob a interpretação da curadora. O quarto andar, ponto de partida da visitação, foi usado para a montagem do que Maria José define como uma "espécie de biografia artística em imagens e textos".Quem chega logo se depara com o quadro Solidão, concluído uma semana antes da morte do autor, em agosto de 1994, remetendo ao universo sombrio de Iberê. Depois vai encontrar fotos do artista em seu trabalho, frases de sua produção literária, esboços do painel que pintou na sede da Organização Mundial da Saúde, em Genebra, em 1966, e busca de formas em pássaros, mariposas e flores, além dos clássicos carretéis. "São temas infrequentes em Iberê, mas dá para mostrar que ele abstrai da natureza", diz a curadora.Na andar de baixo, o terceiro, Maria José juntou uma série de autorretratos e de retratos que Iberê fez de outras pessoas. "Esses quadros podem ser entendidos como exercícios de estilos sobre o mesmo tema do olhar de Iberê para si mesmo e para as outras pessoas", destaca a curadora. O espectador pode apreciar a influência de Alberto da Veiga Guignard nos quadros dos anos 40 e, sobretudo, a introspecção, as dores e angústias que o artista retrata, cada vez mais, com o passar do tempo. As séries Tudo te É Falso e Inútil, com carretéis caindo, e As Idiotas, com corpos deformados, são exemplos de uma visão pessimista da natureza humana.No segundo andar, última etapa da visita, foram reunidas paisagens retratadas por Iberê no início da carreira, nos anos 40, e da retomada do tema, após 30 anos de afastamento, no fim dos anos 80. Na primeira fase, Iberê usava muito o grafite para retratar cenas do interior do Rio Grande do Sul, sem pessoas, mas com árvores e riachos exuberantes."Ele preferia as paisagens naturais que, de alguma forma, estimulassem a abstração", observa Maria José. As paisagens do fim dos anos 80, como Mulher de Bicicleta e Outono no Parque da Redenção mostram figuras fantasmagóricas e sombrias.Apaixonada pela arte de Iberê desde o primeiro contato, numa exibição da Coleção Roberto Marinho levada para Buenos Aires em 1978, Maria José considera "admirável" a coerência interna da obra do brasileiro. "Em seu trabalho, Iberê era sempre mais atento às suas ideias do que preocupado em seguir modas", observa. "Esse certo afastamento é uma opção pessoal que alimentou e enriqueceu sua obra."Iberê Camargo nasceu em Restinga Seca (RS) em 18 de novembro de 1914 e morreu em Porto Alegre no dia 9 de agosto de 1994. A maior parte de sua obra está sob a guarda da Fundação Iberê Camargo, instalada num prédio à beira do Lago Guaíba desde maio do ano passado. A nova exposição fica aberta à visitação até 30 de agosto, de terça-feira a domingo, das 12 às 19 horas.

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