O maduro primeiro álbum de Gogô

Pianista parceiro de Dick Farney por 10 anos e professor de nomes promissores, como Penezzi, mostra trabalho aos 69 anos

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

18 de dezembro de 2008 | 00h00

Gogô fala em generosidade de intérpretes e instrumentistas que participam de seu primeiro álbum, mas a grande maioria desses 31 nomes convidados é que deve seu agradecimento ao mestre. Aos 69 anos, sendo 51 de carreira, o pianista, arranjador e professor de música bem menos conhecido por seu verdadeiro nome, Hilton Valente, não sabe bem precisar sobre o motivo que o levou a gravar um disco próprio só agora. Mas tem a certeza de que esse é o momento certo: conseguiu reunir a nata da música popular brasileira atual para trabalhar ao seu lado, personalidades que de uma forma ou de outra fizeram parte de sua vida artística. Ouça trecho da música Dos AnjosO Piano de Gogô foi idéia de um ex-aluno, o também pianista e compositor Thiago Cury, a quem o músico prefere chamar de "mentor intelectual e material". Na apresentação impressa no encarte do álbum, Thiago frisa a importância de se gravar um artista que "chama a atenção pelo modo sutil de se colocar, com um conceito de não-protagonismo e uma concreção incomum nos dias de hoje". A preposição ?de? contida no título do álbum, portanto, também nasce sob esse contexto, conforme preciosismo do próprio Gogô: "Não poderia ser O Piano ?do? Gogô, pois esse é o que está lá em casa. O ?de? está me mostrando como piano solista, gravando com cantores, violonistas, clarinetistas, contrabaixistas, flautistas e etc."Zé Luiz Mazziotti, por exemplo, foi o convidado a dar voz à canção Copacabana, de João de Barro e Alberto Ribeiro, uma homenagem prestada por Gogô ao intérprete e também pianista Dick Farney, de quem sempre foi fã e com quem trabalhou por 10 anos, entre 1977 e 1987, quando ele morreu. "Eu me lembro de quando eu vi, pela primeira vez, o Dick se apresentando. Eu ainda era adolescente e fui vê-lo no Copacabana Palace. Ele sempre foi um tremendo pianista. Por meio de um amigo em comum, cerca de 20 anos antes de eu começar a trabalhar com ele, criamos uma amizade", relembra. Gogô foi o segundo pianista convidado a dar apoio no piano a Dick, depois de Julinho Figueiredo. "Ele preferiu que outros pianistas o acompanhassem para que pudesse ficar à vontade conversando com o público."As conexões artísticas estabelecidas por Gogô ao longo de sua carreira se fazem presentes de forma implícita no álbum. Dick não só foi o seu parceiro, como ofereceu o primeiro ganha-pão a Johnny Alf, que, por sua vez, foi o responsável pela inserção de Gogô no universo profissional da música. "O primeiro emprego que tive foi dado pelo Johnny. Eu tinha uns 20 anos e ele me indicou para trabalhar na extinta boate Cave", conta. Ana Maria Brandão, que já atravessou muitas noites trabalhando ao lado de Gogô, é devota de Johnny Alf e empresta sua bela voz à interpretação de O Que É Amar, composição do carioca.Quatro dos convidados de O Piano de Gogô foram seus alunos nas disciplinas de piano, harmonia e história da música popular brasileira na Universidade de Campinas (Unicamp). O pianista, compositor e arranjador Leandro Braga faz um duo de pianos em uma canção-homenagem ao ex-professor, Go-Gô, enquanto o baterista Edu Ribeiro dá o ritmo na grande maioria das músicas presentes no disco. Rodrigo Morte preparou os arranjos de Se Eu Pudesse, de José Maria de Abreu, e Sábado em Copacabana, de Dorival Caymmi e Carlos Guinle, uma das duas canções que Gogô se arrisca no canto (a outra é Chegaste, canção de sua própria autoria). "Não sou cantor de ofício. Estava tão nervoso que gravei com as mãos no bolso. Em barzinhos sempre toquei e cantei por ser algo informal, mas em um disco a ?responsa? é imensa", diz, aos risos. Alessandro Penezzi completa o quarteto de ex-alunos, interpretando uma música sua, Lacaniana, com Gogô. Alaíde Costa, Proveta, Toninho Carrasqueira e Guinga são apenas alguns dos outros destaques de peso no disco nascido maduro. ServiçoO Piano de Gogô. Livraria Cultura (166 lug.). Avenida Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, tel. 3170-4033. Hoje, 20h30. Ingresso: 1 kg de alimento não perecível

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