WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

O libanês Akram Zaatari exibe obras sobre o amor e o desejo

Artista mostra videoinstalações e série de desenhos na exposição 'Amanhã Vai Ficar Tudo Bem', no Galpão Videobrasil

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

11 de setembro de 2016 | 05h30

O libanês Akram Zaatari, nascido em 1966, nunca viveu fora de seu país – e a Guerra Civil do Líbano, de 1975 a 1990, assim como o conflito militar, em 2006, com Israel e tantos massacres no Oriente Médio são parte de seu cotidiano. “Talvez eu tenha ficado mais crítico a certas coisas por causa da guerra; não me subscrevo facilmente a ideologias, a partidos políticos, gosto de preservar certa distância para questionar e fazer minhas obras”, afirma o artista, que criou, em 1997, a Fundação Árabe para a Imagem com os fotógrafos Fouad Elkoury e Samer Mohdad.

Beirute, onde se formou e trabalha, é uma cidade fragmentada, por várias vezes, destruída, mas, quando a capital libanesa aparece na mostra Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, primeira individual de Akram Zaatari no Brasil, não há armas, mortes, explosões. São, principalmente, “sabores de Beirute”, ele diz, as ruas do bairro de Hamra mostradas no vídeo Red Chewing Gun (2000), obra que narra, na verdade, o fim do relacionamento entre dois homens. Ou o pôr do sol que encerra o filme Amanhã Vai Ficar Tudo Bem (2010), dedicado ao cineasta Éric Rohmer. Mesmo em Beirut Exploded Views (2014) a cidade é simbólica e os jovens refugiados buscam “um lugar depois do apocalipse”.

“Quando discutimos a seleção de trabalhos, pensamos em mostrar um aspecto muito concreto da minha produção, que tem a ver com emoções, relacionamentos, amor, desejo, com a solitude do indivíduo ao encarar o mundo”, explica Akram Zaatari sobre a exposição, com curadoria de Solange Farkas e cocuradoria de Gabriel Bogossian e em cartaz até 3 de dezembro no Galpão VB – Associação Cultural Videobrasil, na Vila Leopoldina. “Achamos que seria bom, agora no Brasil, focar a interioridade”, comenta.

O artista estava em São Paulo quando, no último dia 31, foi aprovado pela maioria dos senadores brasileiros o impeachment da presidente Dilma Rousseff. “Todo mundo pergunta sobre o futuro do País, mas esse é o caso do Oriente Médio por anos”, diz Akram Zaatari, que encontrou a reportagem do Estado na terça-feira, 6, no Galpão VB. “Acho que o mundo inteiro vai passar por um período muito duro e precisamos nos preparar. Não de uma maneira arrogante ou feroz, sou contra guerras. Precisamos ficar muito fortes por dentro, no íntimo. Isso tem me interessado ultimamente”. “As pessoas não são minhas inimigas, os conceitos são”, conclui.

É uma coincidência, afirma, mas exatamente há 20 anos, o libanês participou pela primeira vez do Videobrasil. Atualmente, festival de arte contemporânea, o evento foi criado em 1983 por Solange Farkas, originalmente, para se dedicar à produção artística no campo do audiovisual e divulgar a produção do “Sul global”, ou seja, dos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento.

“Em 1996, eu ainda trabalhava na televisão quando comecei a fazer os meus primeiros vídeos”, conta o artista. “Não era a era da internet e tive conhecimento sobre o Videobrasil em um catálogo. Escrevi para eles pedindo para me inscrever e minha obra foi aceita”, lembra Akram Zaatari, um dos principais criadores contemporâneos, realizador de trabalhos baseados em arquivos fotográficos e imagens do passado, filmes, vídeos e instalações.

Desde 20 anos atrás, o libanês já foi selecionado oito vezes para o evento brasileiro, além de ter sido tema do documentário Um Olhar Sobre os Olhares de Akram Zaatari (2004), dirigido por Alex Gabassi para a série Videobrasil Coleção de Autores. “O diálogo Sul-Sul existe devido às pessoas e não aos governos”, diz.

“Não quero dizer que haja similaridades, mas uma história comum entre o Brasil e o Líbano”, comenta o artista. “Quando li Dois Irmãos, de Milton Hatoum (escritor brasileiro e colunista do Estado), fiquei chocado porque havia muito sobre o Líbano no livro, mas a história se passava no Brasil. Para mim, o Brasil é muito familiar, mas, ao mesmo tempo, muito estranho. É outro continente. O livro fala para mim sobre o deslocamento, sobre duas pessoas que são separadas e há muito sobre separação nessa exposição”, afirma.

No premiado Amanhã Vai Ficar Tudo Bem, por exemplo, o libanês brinca com a noção de tempo e ironiza a tecnologia ao mostrar uma troca de mensagens entre um casal através de uma máquina de escrever. “Em sua exploração da imagem do desejo, recolhida aos nichos do espaço expositivo, as videoinstalações elaboram uma espécie de crônica do amor perdido”, escreve Solange Farkas sobre a mostra, que reúne trabalhos criados por Zaatari entre 1998 e 2014 e uma nova série de desenhos.

AKRAM ZAATARI - AMANHÃ VAI FICAR TUDO BEM

Galpão VB | Associação Cultural Videobrasil. Av. Imperatriz Leopoldina, 1.150, tel. 3645-0516. 3ª a 6ª, 12h/18h; sáb., 11h/17h. Grátis. Até 3/12.

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