O lado B da guerrilha

O filme Em Teu Nome..., rodado no Chile, França e Marrocos, além do Brasil, mostra um lado pouco conhecido dos guerrilheiros - seus problemas cotidianos

Ubiratan Brasil, SANTIAGO DO CHILE, O Estadao de S.Paulo

01 de março de 2009 | 00h00

Ao folhear o roteiro do filme Em Teu Nome..., que o diretor Paulo Nascimento termina de rodar hoje, Chico Buarque de Holanda deixou escapar um comentário irônico: "Finalmente um longa que apresente o lado B da guerrilha." A brincadeira se justifica - ao narrar a história real do estudante brasileiro João Carlos Bona Garcia, exilado político da década de 1970, o filme não reproduz apenas o lado mítico dos guerrilheiros e sua luta contra o regime militar, mas principalmente traz o retrato de seu cotidiano, de suas prosaicas dificuldades em se adaptar ao exílio. "Não temos a pretensão de fazer um julgamento", comenta Nascimento. "Apenas recuperar aquele período sob uma ótica humanista e poética a partir da autocrítica feita por um estudante de engenharia que foi preso e exilado."O diretor planejava fazer uma ficção sobre a juventude daquela época, mas, ao descobrir a história de Bona, registrada no livro Não Verás que Um Filho Teu Não Foge à Luta, ficou fascinado. "Ele não tinha o mesmo engajamento político de outros colegas; sua trajetória, porém, era muito interessante."Nascido no Rio Grande do Sul, Bona ingressou no movimento estudantil aos 17 anos, influenciado pelos ideais comunistas de Fidel Castro e Che Guevara. Depois do golpe militar de 1964, passou a militar no Partido Comunista e foi guerrilheiro da VPR - Vanguarda Popular Revolucionária. Para financiar a revolução, Bona participou de um assalto e foi preso pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Vítima de tortura e agressão, foi exilado para o Chile em 1971 com 70 presos políticos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher."Ele morou ainda na Argentina, Argélia e França - em Paris, militou no Partido Comunista e ajudou a formar o comitê pela anistia que possibilitou seu retorno ao Brasil em 1979", completa Nascimento que, se não dispensa tal histórico, utiliza-o apenas em algumas pinceladas. Afinal, desconfortável na sua pele, mas tranquilo em sua mente, Bona não vestiu cicatrizes como estigmas, resistiu à deterioração mental, reorganizou a vida e hoje é juiz da Justiça Militar do Rio Grande do Sul. E contou, acima de tudo, com uma companheira inigualável."Cecília é uma mulher surpreendente: na época, mesmo com tanta efervescência política, ela conseguia se manter à distância, levando a vida com tranquilidade; mas, quando a situação apertava, era a primeira a manter a cabeça no lugar", descreve a jovem atriz Fernanda Moro, que vive Cecília no filme de Paulo Nascimento. A escolha, segundo o diretor, foi certeira: "Fernanda interpreta uma mulher que, embora parecesse desligada da realidade, era a primeira a se adaptar às dificuldades".Como a fuga para o Chile, onde acabaram se casando. A cena, cuja filmagem foi presenciada pelo Estado, é divertida - sem o número mínimo de testemunhas exigido pela lei, Bona e amigos saem em busca de alguém até encontrar um varredor de rua. A situação torna-se tão inusitada que, mesmo diante da juíza, todos caem na gargalhada."O filme pretende ressaltar o lado humano desses garotos idealistas, que viveram não apenas momentos épicos mas também cenas patéticas", observa Leonardo Machado, que vive Bona. Ele se lembra, por exemplo, de quando os guerrilheiros usavam óculos para disfarçar e acabavam não enxergando nada.Orçado em 3 milhões de reais, Em Teu Nome... teve uma logística complicada, com filmagens, além do Chile, em Porto Alegre, Paris e Casablanca, no Marrocos, uma vez que o governo da Argélia não permitiu cenas rodadas lá. No total, foi um mês de trabalho intensivo: em Paris, a equipe permaneceu seis dias e, em Casablanca, não chegou a ficar 24 horas.Ainda sem data de estreia, o filme tem 210 cenas que, graças à fotografia de Roberto Laguna, adquirem um tom documental. Para cumprir o prazo, Nascimento ensaiou durante três meses antes das filmagens, permitindo aos atores se ambientarem com a trama. Mais: utilizou estratagemas práticos, como cadeira de rodas para movimentar a câmera em cenas de ação ao invés do tradicional trilho.Com isso, preservou o lirismo de personagens como a vivida por Sílvia Buarque, que interpreta a amiga ativista desencantada com a luta e com a vida, preferindo entregar-se à morte. "Paulo não queria uma mulher dramática, pedindo emoção por meio de pequenos detalhes", contou a atriz que, contracenando com Nelson Diniz no papel de um professor, filmou uma tocante cena de adeus à vida. O repórter viajou a convite da produção

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