O jogo visual de Vik Muniz

Onze anos depois de exibir seu trabalho pela primeira vez no Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York, o fotógrafo brasileiro Vik Muniz está nas galerias daquele museu novamente, mas desta vez como curador convidado. Com 82 obras do acervo do MoMA que escolheu para organizar a exposição Artist?s Choice: Vik Muniz, Rebus, em cartaz até o dia 23 de fevereiro, ele usa a metáfora de um jogo para mexer com a mecânica da percepção da arte. Assim como nas fotografias que ele faz desenhando com açúcar, lixo, brinquedinhos ou diamantes, Vik Muniz, Rebus exibe justaposições surpreendentes e cria narrativas engraçadas para abordar a forma que vemos as coisas."Quando se vai a um museu, provavelmente vê-se mais do que se pode observar e pensar a respeito. É como ir a uma degustação e experimentar 400 copos de vinho: só se pode acabar com dor de cabeça", diz Vik. Entre o que vemos e o que o cérebro registra, lembra o fotógrafo, "nossa atenção, na verdade, é uma limitação, pois só podemos ver uma coisa de cada vez."Para organizar a exposição, Vik usou como modelo a estrutura do rebus, jogo de enigmas composto por desenhos e palavras que resultam numa frase. Eliminando as esperadas classificações museológicas das obras de arte, ele as dispôs numa sequência específica para estimular o observador a fazer conexões intuitivas entre elas, seja por temas, forma, cor, escala, quantidade ou função. Num segmento sobre espaço, encontram-se relações entre obras como o quebra-cabeça em forma de cubo inventado por Ernö Rubik em 1974, a escultura de bronze Mãos Segurando o Vazio (1934), de Alberto Giacometti, e um saco de papel feito com a máquina inventada por Charles Stillwell em 1883.Projetado na entrada das galerias onde Vik Muniz, Rebus é exibida, o filme The Way Things Go, produzido em 1987 pelos suíços Peter Fuschli e David Weiss, dá o tom escolhido pelo fotógrafo para organizar a exposição. O filme registra o funcionamento de uma máquina Rube Goldberg, um daqueles aparatos que executam tarefas simples por meio de uma elaborada reação em cadeia."O prazer que temos ao ver uma dessas máquinas funcionando ou a queda de uma fila de dominós ecoa uma das nossas deficiências de percepção mais primitivas, que é a inabilidade de o olho processar todos os elementos visuais de uma cena simultaneamente", diz Vik. "Quando olhamos para obras de arte num espaço aberto, nem sempre temos consciência que, ao vermos uma coisa depois da outra, acontece um efeito acumulativo e há uma história que você está se contando", compara o artista.Vik é o nono participante da série Artist?s Choice, iniciada em 1989. A multimídia Mona Hatoum, os arquitetos Jacques Herzog e Pierre de Meuron e o compositor Stephen Sondheim foram alguns dos que o precederam na curadoria de exposições formadas só com obras do acervo do MoMA.A intenção dele era criar algo que abordasse justamente a experiência de se montar uma exposição. "Sendo um museu de arte moderna, achei que devia falar alguma coisa sobre objetos que epitomizam a modernidade, como o violão de Picasso, que provavelmente foi a primeira vez que um artista já consagrado criou uma obra de arte sobre um objeto comum", explica Vik. Na exposição, a maquete daquela escultura do artista espanhol, feita em 1912, está entre a fotografia de um instrumento musical de cordas africano, registrado em 1917 por Charles Sheeler, e um toca-discos de 1963, do designer Dieter Rams.O humor é um dos componentes principais nas conexões entre as 82 obras que Vik escolheu para compor seu rebus. Num dos segmentos da sequência organizada por ele, por exemplo, depara-se com um joquempô semiótico formado pelas pedras de To Fix the Image in Memory (1977-82), de Vija Celmins, uma tesoura de aço produzida por volta de 1900 pela empresa alemã J.A. Henckels, e uma bolinha de papel num pedestal, o Work nº 301 (2003), de Martin Creed.No audioguia da exposição, Vik pede que o visitante preste atenção também nos espaços entre as obras de arte e design, pois acredita que o espaço e o tempo entre elas sejam tão importantes quanto os trabalhos em si. Não há etiquetas explicativas ao lado das peças como normalmente ocorre nos museus ou galerias, mas o visitante pode identificá-las num folheto distribuído na entrada. Nele, Vik incluiu uma frase do criador da teoria da relatividade, Albert Einstein, para reforçar a compreensão da nossa experiência visual. "A única razão do tempo é para que tudo não aconteça de uma só vez."

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