O insustentável peso da intolerância religiosa

Famoso na França, o autor Florian Zeller mostra, em A Fascinação pelo Pior, como uma série de eventos culmina em tragédia

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

10 de junho de 2008 | 00h00

Não se engane com a pinta de ídolo de rock do escritor francês Florian Zeller - em 2004, ao lançar o livro A Fascinação pelo Pior (tradução de Bernardo Ajzenberg, 68 págs., R$ 29), editado agora pela Rocco, ele provocou escândalo por tratar de um assunto espinhoso: a intolerância.O enredo, de fato, incomoda. Um encontro literário promovido pela embaixada da França no Cairo une um autor francês e um suíço. Para fugir do tédio, o suíço propõe visitar os bordéis egípcios, crente que vai reviver As Mil e Uma Noites. Diante de prostitutas desdentadas e desinteressadas em sexo, ele se impressiona e, meses depois, lança o livro A Fascinação pelo Pior, no qual tece pesadas críticas ao islamismo. Logo é perseguido pelos muçulmanos, que querem matá-lo e queimar a obra.Ídolo de jovens leitores e candidatos a escritor, aos 29 anos Zeller tornou-se referência na França, onde não esconde seu fascínio pela obra de Milan Kundera. Sobre esses assuntos, ele conversou, por e-mail, com o Estado.Por que o narrador de A Fascinação pelo Pior descreve políticos como prostitutas?Quando eu escrevia o romance, todos compartilhávamos a seguinte crença: não damos muita bola aos políticos. Sempre os mesmos rostos, as mesmas marionetes repetindo os mesmos discursos. Havia algo de patético nisso. Por fim, todos tentavam seduzir eleitores que não estavam interessados. É por isso que o narrador compara os políticos a prostitutas decadentes fazendo liquidação de seus bens.Aliás, como você descreveria o presidente francês, Nicolas Sarkozy?De alguma forma, Sarkozy mudou um pouco: ele reintroduziu, à sua própria custa, a paixão pela política. A França nunca foi tão apaixonada pelo assunto. O que não desmerece o que meu narrador disse sobre eles. Trata-se provavelmente do lado negativo da democracia. No jogo deles, é preciso apelar para o maior número de votos para garantir a eleição e esses homens fazem qualquer negócio. Creio que a maior qualidade de um político é, ao contrário, saber não ser apelativo.O livro é fruto de sua visita ao Cairo?Sim. Anos atrás, fui ao Cairo participar de uma leitura e, sem perceber, um romance começou a se formar em minha cabeça. Não planejei nada. Mas A Fascinação pelo Pior é, antes de tudo, ficcional (e não digo isso apenas porque a ação acontece em um prostíbulo no Cairo!). Não me interesso por literatura de confissões. Adoro a liberdade oferecida pela ficção. Essa viagem através das sombrias noites do Cairo é uma invenção pessoal, mas me permiti acrescentar coisas que lá senti e experimentei.Como foi seu primeiro contato com o islamismo?O que mais me surpreendeu foi descobrir que As Mil e Uma Noites foi banido no Egito - por ferir a pudicícia de certos muçulmanos. Mas essas histórias são provavelmente os mais poéticos e eróticos testemunhos literários da escrita árabe.Por falar em islamismo, como a questão da integração passou a ser tratada depois dos ataques de 11 de setembro de 2001?Na França, depois dos ataques, havia o temor da confusão. Era óbvio que o mal-entendido entre muçulmanos e terroristas islâmicos precisava ser evitado. Mas, paradoxalmente, esse temor teve um efeito paralisante: tornou-se impossível, na França, expressar dúvida ou criticismo sobre aquela religião. Todos temiam ser acusados de islamismofobia. Portanto, ninguém pensou mais a respeito. O silêncio imperava. Tão logo alguém pronunciava a palavra ''Islã'', era olhado de forma estranha, como se fosse um ''racista''. Era uma situação muito complicada. E o romance de Michel Houellebecq, Plataforma, foi publicado durante esse período.Por falar nisso, ele é seu amigo e Milan Kundera, seu herói literário. O trabalho deles o influencia de alguma forma?Kundera foi o romancista que mais me influenciou. Gosto da forma como ele permite ao leitor se aproximar da complexidade das coisas. Em sua obra, não há jamais qualquer julgamento moral e, por meio dela, descobre-se a fundamental relatividade de qualquer crença. É disso que gosto: ele me fez entender que um romance não é lugar para se encontrar respostas, mas para se propor questões.

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