O incesto de Louis Malle, um filme autobiográfico

Mas o próprio cineasta afirmava que a concretização da relação entre mãe e filho era uma licença ficcional em O Sopro do Coração, seu clássico de 1971

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

10 de junho de 2009 | 00h00

No livro Malle on Malle, com a entrevista que concedeu a Philip French, o grande diretor explica a gênese de O Sopro do Coração, um de seus filmes mais polêmicos, sobre incesto. Louis Malle realizou-o em 1971, logo após a experiência reveladora de sua vida, quando fez o documentário Calcutá. Malle contava que o contato com a Índia mudou sua visão de mundo. Ele voltou ao espírito de Maio de 68, que não foi realmente uma revolução, mas o encantava o slogan pintado nas paredes de Paris - ?A imaginação no poder?. Que filme fazer? Sobre a utopia.Com Pierre Kast, ele se lançou num projeto nunca realizado, sobre uma utopia que ambos situaram entre os incas, na América do Sul. Após esse fracasso, Malle buscou refúgio na figura materna e resolveu adaptar Ma Mère, de Georges Bataille, mas o projeto não andava. Foi quando ele percebeu que estava fugindo do verdadeiro assunto. Nos anos 40, Malle tinha 13 anos quando foi diagnosticado seu problema no coração. Sob recomendação médica, ele viajou com a mãe. Ficaram semanas dividindo o mesmo quarto. Ele vivia a pulsão da descoberta do sexo. Na realidade, mãe e filho nunca cruzaram a linha da transgressão. Havia apenas um clima perturbador. Na ficção, Malle permitiu-se a concretização do incesto.Cineasta do escândalo, Malle enfrentou diversos temas difíceis. Sexo (Os Amantes), a linguagem de Raymond Queneau (Zazie no Metrô), o suicídio (30 Anos Esta Noite), o roubo como vertigem e satisfação interior (O Ladrão Aventureiro). Depois de O Sopro do Coração e o incesto, vieram o colaboracionismo (Lacombe Lucien), a prostituição infantil (Pretty Baby), etc. No Brasil, onde a Igreja Católica já reagira a Os Amantes, a censura do regime militar colocou O Sopro no índex.O próprio Malle contava que foi um projeto difícil de realizar. O roteirista Jean-Claude Carrière, a quem lera sua sinopse inicial, foi quem o incentivou a seguir adiante. Malle mudou a época e os anos 40 foram substituídos pelos 50, um pouco para diminuir a carga autobiográfica, mas também para fornecer um quadro político - o da Guerra da Indochina, com a queda de Dien Bien Phu. Ele filmou em Dijon, onde já situara Os Amantes, porque lhe parecia importante situar essa história na província, para falar da burguesia. Fundamental foi a escolha da atriz - a italiana Lea Massari não é menos do que maravilhosa. ServiçoO Sopro do Coração. França, 1971. Direção de Louis Malle. Lume. Cor, 118 min., R$ 39,90

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