O incêndio existencial de Juliette

Ela diz que VMB provará ''''gosto da mágica selvagem'''' de sua banda, os Licks

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

25 de setembro de 2007 | 00h00

O repórter está doente, está obcecado: não consegue imaginar um texto sobre Juliette Lewis que não comece com os versos de Fausto Fawcett: ''''Juliette, o nome dela é Juliette/ Sua mãe pertence a uma estirpe de strippers e seu pai é indeterminado/ A única informação que se tem dele é que pertencia à Seleção Holandesa de 1974/ Juliette é a filha bastarda do Carrossel holandês, da Laranja Mecânica.'''' Ouça trechos das faixas Hot Kiss e Get UpJuliette ouve a tradução que o repórter arrisca ao telefone e fica igualmente fissurada: ''''Como é o nome do cara? Fawcett? Vou procurar assim que chegar aí'''', ela assegura. Domingo à tarde, fome, leseira, e ainda assim é um grande prazer falar com a cantora e atriz Juliette Lewis por telefone. O pretexto era a apresentação que ela fará nesta quinta-feira no VMB, a festa dos prêmios da MTV brasileira. Sobre seu show no TIM Festival, no dia 28 de outubro, no Anhembi, ela já falou em outra ocasião.''''Na festa da MTV vai ser uma apresentação curta, apenas para dar um primeiro gosto da mágica selvagem de Juliette & The Licks'''', ela anuncia, com uma voz rouca, rascante, voz que parece curtida em muitos quilos de fumaça prensada em pubs e clubinhos. ''''Passamos dois anos excursionando pela Europa, Estados Unidos e todo o mundo. Ouvi todo tipo de música: Queens of Stone Age, Killers, Foo Fighters. Adoro Queens of Stone Age. E ouvi muita coisa também que não é do rock: Peter, Bjorn & John. Dessas, eu destaco Joan as Police Woman. Belíssima voz, essa menina (Joan Wasser). É a nova Joni Mitchell'''', vai disparando Juliette, cujo estilo não é o de simular ou falsear nada.Minha canção favorita no seu disco é Get Up. Lembra muito os primeiros anos dos Rolling Stones, aqueles riffs de guitarra.Sim, você tem razão. Nessa música nós estamos prestando homenagem a uma determinada época do rock, um certo sentimento pioneiro. É o tributo de uma mulher aos heróis do rock, minha releitura disso tudo num mundo dominado pelo masculino.Sua banda só tem homens. E vocês já estão excursionando juntos há dois anos. Não rolam desentendimentos?Pode ser difícil tanto tempo na estrada com as mesmas pessoas. Mas a coisa mais importante é que todos amamos o que fazemos. O que nos une é a idéia de fazer o mais poderoso show ao vivo, com elementos de surpresa. Não é uma banda doidona. Não usamos drogas, ninguém é ligadão. São pessoas com grande senso de humor e, o mais importante, eles me respeitam como sua líder. É uma posição difícil. Tive de demitir o baterista anos atrás, porque o cara estava doidão o tempo todo. Algumas pessoas não conseguem lidar com esse cotidiano.E você não vai voltar mais ao cinema?Claro que vou. Sou apaixonada pelo cinema. Mas não agora. Agora estou na estrada. É difícil, porque o cinema toma muito tempo, e os projetos de cinema estão nos planos e nos calendários dos diretores, não nos meus. Está completamente fora da minha decisão.Você costuma compor quando está excursionando ou quando está de folga?Não fazemos a coisa inteira na estrada. Eu diria que plantamos sementes. Durante passagens de som, nós criamos riffs de guitarra, fraseados, gravamos algumas demos com esse material. Depois, vamos melhorando. Todo o disco Four on the Floor foi gravado na estrada. Prefiro desse jeito, é mais desafiador.Outra música, Hot Kiss, é o seu single mais bem-sucedido. Quando é que você sabe, que você descobre que acaba de compor um ''''gancho'''' musical irresistível?É engraçado. Escrevi essa canção com Todd (Morse, guitarrista dos Licks). Tinha um gosto diferente, mas elétrico. Eu sabia que era quente cinco segundos após ouvi-la pela primeira vez. Nosso baixista não gostou. São quatro pessoas na banda, têm gostos diferentes. Então, coube a mim a decisão. Ser a líder implica essa responsabilidade. E eu disse: é a canção de maior apelo, vamos gravar.E o que é essa sua roupa indígena? É algum tipo de manifesto político?Nada. Eu não sou tão política. Vestir-me como um nativo indígena é algo pessoal. O rocker é um tipo de voyeur, ele gosta de coisas que aticem sua curiosidade. É uma imagem que trata do espírito que eu gosto de projetar, da coisa da conquista. Liberdade e celebração, entende? É a forma que eu encontro, além da música, de estimular a platéia a perder-se por alguns momentos, de sair de sua redoma e entregar-se de um jeito bom, com significado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.