O imperador que prenuncia a tirania política da atualidade

Espetáculo é antes de tudo apaixonado, resultado do esforço para levantar uma obra da qual os patrocinadores tendem a fugir

Jefferson Del Rios, O Estadao de S.Paulo

19 de dezembro de 2008 | 00h00

Albert Camus disse saber dos defeitos de Calígula, mas não via sua peça como filosófica, como apontara a crítica francesa na estréia, em 1946. Se não citou as falhas, disse algo que interessa ao espectador de hoje. A primeira é que ao escrevê-la "tinha 25 anos, idade em que se duvida de tudo, menos de si próprio". A seguir, acrescenta ser essa "mais uma peça de ator e diretor do que de autor". E que fique bem entendido: "Ela se inspira nas inquietações que eu tinha naquela época." É preciso levar esses fatos em consideração diante de um texto majestoso e sua atual versão cênica, com brilhos e sombras, altos e baixos. Ciclotímica como Calígula, o imperador de Roma entre os anos 37 e 41 d. C. O homem que em sua pouca existência de 29 anos transformou a vida de todos em horror.Um dos defeitos que Camus (1913-60) não quis apontar em sua criação talvez decorra, exatamente, da pretensão do então jovem autor em fazer, sim, filosofia ao longo de quatro atos. Escreveu ao sol da Argélia, onde nasceu, mas dentro da mais pura tradição retórica francesa. Demasiadamente verbal, sem silêncio, sem subentendidos. Sem respiro. A vida se passa lá fora enquanto as personagens falam, falam e, novamente, falam. Nascem pensando na comédie française.A linha de reflexão do texto insinua que Calígula (na realidade um reles psicopata), ao sentir que o mundo não lhe é satisfatório, nega o que é humano. Torna-se um monstro ao ignorar que não se pode destruir tudo sem a própria destruição. Um milênio mais tarde, um alucinado Jean-Bedel Bokassa faria quase o mesmo na República Centro Africana, país que quase ninguém sabe que existe. Ao se autoproclamar rei, montou uma imitação grotesca da corte de Versalhes em meio ao deserto e à miséria absoluta. Quando derrubado, ao fim de uma tirania de 1977 a 1979, encontraram cadáveres esquartejados no freezer do palácio. Bokassa teve o apoio da França e todas as suas luzes. Quando se fala em Camus, poucos se lembram quanto ele conheceu da barbárie da África e dos colonizadores.De qualquer forma, a obra tem uma boa premissa filosófica e teológica. Sartre alargaria a mesma trilha ao constatar que a frustração se instala na diferença, desfavorável, entre nosso projeto existencial e o seu resultado. Cabe ao homem assumir sua escolha e agir em conseqüência, o que Sartre considera uma atitude humanista, ao contrário de Calígula e todos os déspotas (agora mesmo há um no Zimbábue, Robert Mugabe, mas sem o antiprestígio, o "apelo maléfico", de Stalin. Não dá teatro. Quem se lembra de Idi Amin? Catástrofes, só as ocidentais e de pele branca).Mas os defeitos de Calígula são parcialmente redimidos pelo seu esplendor verbal. Camus faz jorrar aforismos, parábolas e predigas. Cada uma, por si só, é tema para outra peça. Frasista brilhante, é, também, um tribuno. Que cada um o siga "nas inquietações que eu tinha naquela época".Quem sabe seja por isso que ele tenha oferecido co-autoria ao diretor e ao intérprete do original, agora traduzido com bom ritmo e senso poético por Dib Carneiro Neto (enfim, alguém que ainda se preocupa com o francês). O espetáculo, dirigido por Gabriel Villela, é antes de tudo, apaixonado. Resultado do esforço para levantar uma obra da qual os patrocinadores tendem a fugir (história de um rei tarado e assassino). O mau cineasta italiano Tinto Brass fez o desserviço de lançar um filme grosseiro, semipornográfico, que piorou sua fama. Felizmente, o Sesc não pensa assim.Há dois movimentos visíveis neste Calígula: o despojamento cênico, como a do encenador Antunes Filho, e adesão ao teatro não ilusionista. É o que se observa desde o momento em que o ator sai do papel e anuncia a passagem dos atos. O distanciamento da ilusão continua no uso de objetos contemporâneos, às vezes de forma exagerada (uma bolsa Nike simboliza o tesouro de Roma).O que resulta menos proveitoso, senão prejudicial, é a infantilização cômica de várias seqüências e um leve jeito afetado e feminino nas atuações. O homoerotismo fez parte da cultura greco-romana, mas, no caso, isso não está em questão. O teatro francês discursivo é o maior problema deste Calígula, onde nem todos adequam voz ao conteúdo (como o faz Pascoal da Conceição no personagem-chave que liquida o Imperador). Thiago Lacerda, com um físico privilegiado e intensidade cênica, tem pela frente a luta para melhorar a dicção sibilada e a articulação. Passagens caricatas ou a mistura de gêneros (de circo a marionetes) dificultam alguns desempenhos. Mesmo assim, Ando Camargo e Jorge Emil chegam a momentos de acerto. Provavelmente por ter uma personagem incidental, sem continuidade interna, Magali Biff parece meio perdida nessa Roma de papel e tecidos do excelente cenário de J.C. Serroni.De volta ao começo: se não é possível captar tudo do filósofo incipiente, escutemos quando ele grita, com beleza e angústia, que ninguém pode ser livre à custa dos outros.

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