O homem que habita no limite

Reverberações da Fronteira em Horacio Quiroga estuda obra do escritor uruguaio feita sob a desgraça

Francisco Costa, O Estadao de S.Paulo

20 Dezembro 2008 | 00h00

É comum, usual mesmo, surgirem títulos originários ou de dissertações de mestrado ou de teses de doutorado sobre autores de todas as nacionalidades. Na América Latina não é diferente. Legiões de pesquisadores têm se debruçado sobre a obra, e vida, de escritores do continente, aumentando, e muito, as fortunas críticas.Dessa forma, não seria de surpreender um volume de análise da obra de um escritor do porte do uruguaio Horacio Quiroga (1878-1937). O que chama a atenção, no entanto, antes de mais nada, é o fato de que o livro Reverberações da Fronteira em Horacio Quiroga seja resultado de um (excelente) trabalho do jovem pesquisador brasileiro Wilson Alves-Bezerra que, no volume, mostra tanto desembaraço no trato com a obra como uma personalidade crítica que não se dobra aos pontos de vista de alguns dos medalhões latino-americanos, brasileiros inclusos.Mas quem é esse Horacio Quiroga, escritor nascido em Salto, Uruguai, no último dia de 1878, que viveu a maior parte de sua vida na Argentina e relativamente pouco conhecido dos jovens leitores brasileiros? Antes de mais nada, é preciso dizer que Quiroga foi um mestre na arte do conto e teve como modelo autores como Edgar Allan Poe, Kipling, Dostoievski e Maupassant, como ressalta o autor do livro. Alves-Bezerra não trata da vida do escritor, mas não se pode deixar de fazê-lo aqui, haja vista que não tenho notícia de nenhuma vida de autores latino-americanos que tenha sido tão marcada pela desgraça, que seja tão trágica.Sabe-se que Quiroga, na infância, era asmático e gago (falava monossilabicamente) e sua desventura começou aos 2 meses de idade quando seu pai, Prudêncio, ao descer de uma canoa disparou acidentalmente sua espingarda e não sobreviveu ao ferimento. Sua mãe, Juana, 12 anos após, casou-se com Ascencio, por quem Quiroga nutria um grande afeto. Cinco anos depois, Ascencio sofreu uma hemorragia cerebral e logo após se suicidou. Horácio estava no quarto ao lado e foi o primeiro a acudir o padrasto (tinha 17 anos nessa época).Não é só. Pastora e Juan Prudêncio, irmãos do autor, morrem de febre tifóide em 1901. No ano seguinte, ao explicar o funcionamento de uma arma de fogo a um amigo, aciona acidentalmente o gatilho e mata, com um tiro na boca, seu melhor amigo, Federico Ferrando. Quiroga vai então a Buenos Aires recuperar-se na casa de sua irmã Maria. É aí que conhece o escritor Leopoldo Lugones, que o adota quase como um filho e o convence a segui-lo, como fotógrafo, em uma expedição de estudos a San Ignacio, em Misiones - a selva argentina que tanto modificará sua vida, a ponto de nela, com as próprias mãos, construir uma casa para sua família e onde viverá por bom período.Sendo breve. O autor de O Travesseiro de Penas casa-se com Ana Maria Cires que, depois de lhe deixar dois filhos (Eglé e Dario), se suicidará. Ele volta a se casar em 1927 com Maria Helena Bravo, 29 anos mais nova que ele e que o abandonará depois do nascimento da filha de mesmo nome. Em 1933, nova perda: um grande amigo, Baltasar Brum, político uruguaio, se suicida. Em 1937, após a notícia de um câncer gástrico, Horacio Quiroga ingere cianureto e se suicida. O mesmo destino tiveram seus três filhos.Reverberações da Fronteira em Horacio Quiroga conta com um elucidativo prefácio de Pablo Rocca, professor da Universidad de la República (Montevidéu, Uruguai), traduzido por Teresa Cristófani Barreto. Nesse prefácio Rocca delineia o plano geral do volume e chama a atenção para a qualidade do livro de Alves-Bezerra, chegando a fazer alguns reparos à sua argumentação quanto à noção de transculturação em Angel Rama aplicada à obra de Quiroga.O momento mais interessante do livro, a meu ver, é o capítulo em que Wilson trabalha com o "narrador fronteiro". O que seria isso, o narrador fronteiro? Vamos ao texto de Alves-Bezerra: "Diferentemente do senso comum, que toma a fronteira como uma passagem entre dois lugares, como um marco que se cruza, trato de mostrar neste capítulo a fronteira como lugar que se habita." E ele o fará a partir da análise do conto À Deriva, que pertence, talvez, ao livro mais famoso de Quiroga (Contos de Amor de Loucura e de Morte, assim mesmo, sem vírgula).Nesse conto, um homem, Paulino, que mora na selva com a mulher, pisa numa cobra e por ela é picado. Sabendo que vai morrer, depois de se despedir da esposa, ele entra numa canoa e tenta desesperadamente chegar ao povoado mais próximo, sem êxito. Alves-Bezerra observa que o narrador, que até determinado momento havia se imiscuído na pele do personagem, dele se arroja, retomando sua posição original. Wilson chega a falar em narrador "médium".Caro leitor, apenas pincelei o alcance do livro de Alves-Bezerra sobre o genial Horacio Quiroga. Fazer uma leitura atenta de Reverberações... é o mais sensato e inteligente a ser dito aqui. Apenas um reparo na edição: além de alguns problemas de revisão, a nota 37 da página 144 ressurge inexplicavelmente como texto na seguinte. Um trabalho deste porte merece um cuidado bem maior. Francisco Costa é diretor da Revista USPReverberações da Fronteira em Horacio QuirogaWilson Alves-BezerraHumanitas, 212 págs., R$ 22

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